7.1.10

O ovo ou a galinha?

Não negue: na virada do ano você lançou mão daquela calcinha amarela comprada às pressas nas Americanas, e/ou mastigou sete grãos de uva, ou pulou ondinhas, guardou sementes de romã, comeu porco, enfim, é típico do brasileiro perder tempo com certas mandingas para que o ano que se inicia seja melhor do que o que finda, simples assim.
Convenhamos, nada mais otimista do que um bom brinde, entre seus entes queridos, desejando good vibes para os doze meses seguintes, é fato. Se não surte resultados efetivos, pelo menos nos deixa com a prazerosa sensação de que os próximos números da Mega-Sena serão os nossos, ou de que sua alma gêmea estará naquela esquina, semana que vem.
Pois bem. Nossa heroína de dois mundos, Charlotte C., protagonizou mais uma daquelas historinhas dignas de filme pastelão - importante salientar que a morenaça belzebu tem a capacidade extraordinária de vivenciar fatos que só vemos na tela grande, eu já não acho mais nada inverossímel neste mundo de meu Deus.
Soterrada por convites para tentadoras festas de fim de ano, ao longo de todo o belo litoral catarina, a balzaca paulistana arrumou a trouxinha e aportou na Zimba, em casa de alguns amigos. Sempre muito benquista, foi recebida com honras de primeiro-ministro, com direito a discursos emocionados, pedidos de autógrafo e poses para fotos.
A família anfitriã era o que se pode chamar do mais puro e autêntico retrato do povo brasileiro: gente honesta, trabalhadora e decente - mas com um plus: basta a aproximação dos últimos dias de dezembro para começar um verdadeiro ritual de purificação. Velas e incensos são espalhados por toda a casa, santos e anjos, espalhados pelos cantinhos, em todos os cômodos e em todas as janelas, a palavra de ordem é "misticismo". "Místicos. MÍSTICOS. É isso que eles são", definiu Charlotte, em poucas palavras. No dia da virada todos se jogam no vestidón branco e nas oferendas à Iemanjá, espiritualidade é tudo neste mundo, e haja estoque de arruda e sal grosso.
A ceia é das mais gloriosas: na mesa, frutas tropicais, lombinho bem temperado, a popular maionese, farofinha, tudo muito digno e limpinho. Charlotte, que não arcou nem com as lentilhas, nem pôde. Refestelou-se ao ponto de abrir o botãozinho de seu sumário short jeans branco, que revelava suas voluptuosas formas. "Comi. Comi que me acabei", contou-me, em segredo.
Na casa onde estava hospedada encontravam-se desde o tio beberrão à avó octagenária, passando pela tia solteirona, pelas priminhas periguetes e pelo cunhado inconveniente, todos muito curiosos a respeito da vida atribulada desta profissional mezzo jornalista/ mezzo doutora em línguas.
Sempre atenta e antenada, Charlotte acompanhou os inúmeros hábitos supersticiosos dos residentes, todos muito unidos, rezando de mãos dadas, pulando num pezinho só ao badalar da meia-noite e banhando-se em água benta, especialmente preparada para a ocasião. "Estava terminando minha lentilha quando recebi um jorro de água benta na cara. Mal não vai fazer, né?".
Até que chegou a hora da sobremesa.
Todos de alma lavada pela chegada no simbólico ano de 2010, barriguinhas estufadas, sentidos alterados pela ingestão de honestas taças de espumante, dividiram-se entre as duas opções oferecidas no buffet: pudim de queijo e sorvete caseiro. Charlote lançou um olhar maroto aos quitutes e lembrou de sua prendada mãezinha, cuja receita do sorvete, de família, é guardada a sete chaves no cofre dos Pragas. "Então, moça, vai querer pudim ou sorvete?", perguntou uma tia solícita. Todos os olhares voltaram à ela. Momentos de tensão. "Não vou querer nada não, obrigada...", dispensou, tímida. Pra que? Os ânimos se esquentaram. "Não vai querer??? Por que?", questionou meia dúzia de parentes, levemente enfurecidos (o pudim de queijo foi delicadamente preparado pela matriarca da família anfitriã, de 85 anos, uma ofensa dispensá-lo sem uma boa desculpa).
"Cara, eu não sabia o que fazer. Todo mundo parou o que estava fazendo, largaram os garfinhos com os quais deliciavam os doces, repousaram suas flutes na mesa e fixaram os olhos em mim, esperando a resposta. Pensei em dieta, mas não ia colar, né? Já tinha comido lentilha e lombo feito uma porca, que porra que dieta, que nada", a morenaça quebrou a cabeça por longos segundos.
Quem conhece Charlotte C. sabe do que estou falando. Sob pressão o resultado pode ser dramático. Você, caro leitor, que porventura terá a honra de conhecê-la, futuramente, fique avisado: não a pressione jamais, as consequências podem ser das mais terríveis.
"Juro que tentei desconversar, mudar de assunto, partir pra outra. Mas não deu. Todo mundo ficou esperando. Tive que contar". Com cãimbra nos músculos faciais, Charlotte revelou sua resistência às guloseimas. "Sabe o que é? Este sorvete... leva ovo?", questionou.
"Sim, leva ovo", respondeu a responsável pelo doce, já bufando de indignação pela rejeição da convidada.
"Então... ceia de Réveillon, né? Todo mundo aqui, reunido, comendo porco, que fuça pra frente, dispensando frango, que cisca pra trás... Ninguém come frango numa hora dessas, né?".
"Sim", responderam os familiares, em uníssono.
"Então... o ovo vem da onde?".
Longos minutos de silêncio.

Charlotte foi levada rapidamente por uma amiga ao bar mais próximo, onde degustou 32 latinhas de Skol bem gelada. Mas a imagem da avozinha octagenária vomitando o sorvete recém-comido sobre o prato, do tiozinho cuspindo os restos da massa gelada no chão e das lágrimas de tristeza e decepção nos olhos de todos os presentes permanecerão forever em sua mente. "Cara, eu desejo tudo o que há de bom pra esta família. Porque se acontecer qualquer merda ao longo de 2010 na vida deles, a culpa será minha", admite a (anti-) heroína.

7 comentários:

Cleusa disse...

Olá, Cíntia, se me permite a informalidade, mto prazer em conhecer seu blog. Eu já estava quase postando o comentário do anterior, qdo pula na tela o post de hj. Bom, cá estou eu, desafiando a ira de sua amiga, ousando dizer que ovo ainda n é frango, galo, galinha ou qq penosa sinistra invadindo a ceia da virada, mas isso é só um argumento p livrá-la da culpa, q sinceramente acho q ela n vai sentir rsssssssss se algo ruim acontecer c os parentes dela, e sempre tem algo ruim p anuviar nossa alegria hehe Bem, lamento mto sobre a região do Farol, faz mtos anos q n vou lá. Ah temos 5 cachorros aki em casa. Um incentivo – eles normalmente fazem estas estripolias até 1 ano por aí, depois disso, os machos batizam tapetes, q aki n usamos, cantos de sofá e até travesseiros dos desafetos hehe Vc está na vantagem, é uma cadelinha. Bj e um 1010 como vc deseja.

Cleusa disse...

Correçao - 2010

Cíntia Teixeira disse...

Oi, Cleusa! Muito obrigada pela visita e pelo comentário, continue acompanhando o As Imediatas! Quanto à possível "culpa" da personagem do último post, hahaah, só da boca pra fora... Beijo!

Anônimo disse...

Gente, que responsa a minha, hein? Tinha que fechar o ano assim, pra variar rs...Como n bastasse ter q me preocupar com o meu 2010, agora essa amigável family vai tacar no meu só por eu ter dito a verdade sobre os ovos...até agora tô com vontade de comer aquele pudim e ...o sorvete...mas acho que não rola anyway...hahaha...
kisses,
Charlotte

Anônimo disse...

Gente, que responsa a minha, hein? Tinha que fechar o ano assim, pra variar rs...Como n bastasse ter q me preocupar com o meu 2010, agora essa amigável family vai tacar no meu só por eu ter dito a verdade sobre os ovos...até agora tô com vontade de comer aquele pudim e ...o sorvete...mas acho que não rola anyway...hahaha...
kisses,
Charlotte

Marcos Dalmoro disse...

rsrsrrs
Em primeiro lugar preciso dizer que estou com mega saudades, precisamos sentar, beber e fofocar, segundo, estou efusivo aqui com a situação da colega, devo me compadecer e acho que até consigo entender,é tão dificíl se sair bem de uma situação, ainda mais sob pressão, agente acaba criando chifres em cabeça de avestruz. Iluminai esta pessoa nossa senhora das boas desculpas!

Bju!

Cíntia Teixeira disse...

Marquitos, amore! Ué, é só me ligar que a gente combina algo, passa aqui! Beijo!