26.4.08

Inclusão social

Eu gosto de ver como o mundinho tem se tornado mais mundinho a cada década. Gosto de ver minha mãe aprendendo a mexer no computador com a neta de seis anos; de trocar endereços de e-mail com minha madrinha (que está na fase dos pps); de aceitar no orkut o profile da estouvada da tia Susana; de ver pessoas, meio que timidamente, me contarem que acabaram de abrir um blog. Gosto de ver o povo da era do cheque, do carnê e das fichas para falar no orelhão aprenderem a lidar com cartão de crédito e telefone celular. Um dos meus hobbies prediletos é auxiliar alguém a fazer compras pela net. O mundo, mais do que nunca, está tão cheio de possibilidades, tão acessível e tão próximo...
Não gosto é dos excessos, dos perfils de orkut cheio de firulinhas, ilustrações dançantes que cantam alto em suas caixinhas de som e de nomes com muitos agás e miguxês acrescentados. Mas enxergo estas manifestações populares como demonstrações autênticas da tal inclusão digital, que hoje permite acesso a tantos quando, há pouco mais de cinco anos, eram tão poucos.
E não trato aqui apenas da inclusão digital, mas das facilidades de acesso, em todos os sentidos, que estão sendo oferecidas às pessoas - quando de suas vontades. Hoje você não precisa de uma indicação ou de um cartão vip para entrar em lugares supostamente "badalados". Não precisa mais fazer parte do jet-set pra circular em points (visto como) exclusivos. E digo tudo isto porque lembrei do gordito.
Sim. Há alguns meses estávamos eu e marido adquirindo nossa cota semanal de sushis no super de nossa preferência (aquele, do cartão de relacionamento), quando, ao passar pelo cashier, percebo que o mancebo, gorduchinho encaracolado, simpático like a old diva, comenta com uma cliente amiga. "Ah, sushi... tô com saudades de comer sushi, sempre que vou à Moema eu me acabo no sushi". Parei tudo. A tal da Moema é nada mais nada menos que a sócia-proprietária do até então point mais refinée de Shark city, o O Mundo, onde um vinho razoável e dois pratos de risoto saem por duzentinhos - e em uma cidade cuja base econômica vem do salário dos cashiers do comércio (piso: +- R$ 600).
Rimos. Rimos porque quebrou-se a imagem do povo fino do O Mundo, muitos deles na verdade economizando horrores durante a semana para poderem "freqüentar", verem e serem vistos nos findis, suando em bicas para pagar as mil parcelas do jeans de grife e da bolsa badalada.
Sem generalizações: não pensem, no entanto, que o povo de Shark é fútil. Não mesmo (e a cidade carvoeira amiga aqui do lado está aqui para mostrar o que é fútil de verdade). Até porque sharkcitianos não se restringem aos clientes do O Mundo (graças a Deus). São um povo bonito, trabalhador, e que gosta de se divertir pra caralho. Como o gordito do caixa. Do moço delicado, posso dizer que o objetivo em freqüentar a Moema não é o de "impressionar" (hahaha) alguém, mas unicamente o de se divertir.
Confirmei minha teoria num dia desses, indo (ora vejam só) na Moema comer sushi (ué, como eu posso falar sem conhecer?). Quem estava no caixa, todo faceiro e cacheado? O gordito do supermercado. Como funcionário. E inflando de orgulho.

2 comentários:

Guilherme Corrêa disse...

o mundo é cheio de pessoas fúteis.... if you know what i mean

Cíntia Teixeira disse...

I reeeeeeally know what you mean...