24.11.06

Minerva

Domingo quero ir visitar a Vó. Vou convidar Caê M., passaremos na padaria para levar um bolo e pães crocantes. Ela só viu Caê M. uma única vez, mas, detalhista, guarda todos os detalhezinhos daquele menino de pele branco-rosada na mente astuta. Faz alguns meses que não passo para dar um cheiro na véia, uma verdadeira entidade na família. Como só conheci uma única avó e um único avô, nos acostumamos a nos referir a ambos exatamente assim, pelo grau de parentesco. "Fui na Vó, ela tava na missa, quando voltou me serviu beijú; ontem vi o Vô saindo do Genovez. Tava de boina". Quando paro pra pensar nela - que aliás tem um nome encantador, Minerva, e que ela odeia - acabo ficando com a consciência pesadíssima e me dou conta de minha péssima atuação como neta. Tia Gló já deu a letrinha: "Se não a aproveitarem agora, só vão poder chorar depois. Ela tá velha". Doeu quando ela disse, mas sei que é a mais pura verdade. Minerva é cardíaca, já fez mil intervenções cirurgicas naquele coraçãozinho. Tem uma puta hipertensão. Já convivemos bem de pertinho, e só posso concluir que sou mesmo uma baita de uma preguiçosa por não encarar a Patrício Lima uma vez por semana e ir visitá-la, como deveria. Já morei na casa dela, por alguns meses, já utilizei sua cozinha como meu restaurante privé, já levei um casal de amigos gay pra ela conhecer (e pra dissimular o choque?, hahaha), já dormi na sua caminha, já andei na rua de braço dado com ela, e nos protegemos de um sol de rachar munidas de sombrinha (na época fiquei com vergonha, hoje acho chique). Minha Vó Minerva já me preparou quitutes indescritíveis, cuca de banana, lingüicinha frita com pirão de feijão, pizza-bolo de atum com muita mostarda, e os bolinhos: de abóbora, de arroz, de espinafre e até de alface! Hoje ela pega leve, o colesterol não permite certos arroubos culinários, e o coração pede uma restritíssima dieta de chá com torradas. Eu vou lá, matar a saudade, tirar um pouco do peso da consciência e dar beijinhos naquele rosto enrugadinho (mas nem tanto, pros seus 78 anos). (by Cíntia T.)

Um comentário:

Eduardo Mattos. disse...

Heheheh.... esquecesse a piza de sardinha e os termos que tu possivelmente não ouça mais, como: "indez", e fui na casa de fulano e lá tava "um palmo".. hehehehehh. Me liga pra descobrir o que significa ou pergunte pra Vó. kkkkkkkkkkk