20.8.08

Laura Palmer

A moça, do interior, era a mais recatada das criaturas. Namorado firme, noivado em vista, planos de casório, de casinha com cerca branca, três filhotes gordos e rosados, galinhas, uma vaca holandesa e um leitãozinho no chiqueiro, a ser sacrificado no Natal.

De repente, mudou - curiosamente, pouco depois de conhecer sua nova roommate, meio amalucadinha. Pintou os cabelos, trocou o guarda-roupa, passou a usar maquiagem. Num dia, roubou um delineador, nas Americanas. Até hoje não sabe como conseguiu escapar do constrangimento de ter a bolsa revistada por um segurança.

Em outra ocasião, aceitou dar um rolê com seus colegas de trabalho. Foi quando fumou seu primeiro baseado. O primeiro de muitos. Largou o namorado e tornou-se figurinha fácil na noite daquela ilha dos desejos permitidos. Transformou-se em uma exímia predadora. Nas festas, escolhia o espécime masculino que mais lhe chamava a atenção e atacava, despudoradamente. Sempre com sucesso.

A roommate maluquete elaborou uma lista com os nomes (às vezes, apenas um apelido) das vítimas já abatidas. O rol tornou-se quilométrico.

Insaciável, a moça ganhou o apelido de Laura Palmer, alusão à obra de David Lynch, que traz a história de uma belíssima jovem, um anjo em família e um demônio de saia e cinta-liga no submundo.

Mas esta Laura Palmer tupiniquim não teria o triste fim de sua alterego. Esperta, decidiu que sempre tomaria as rédeas de qualquer situação. Quase sempre dava certo. Como no dia em que saiu com Girso, um de seus affaires de ocasião. "Só sabia pegar o rumo pra São José, um motel pocilga que tinha por lá. Eu odiava, ele podia pagar coisa melhor, mas sempre pedia o quarto mais simples. Neste dia eu reclamei. Disse: ai, a gente só pega este quarto. Ele se coçou, pediu um melhor, tinha banheira com hidro e um teto de vidro", conta a perversa.

Mas a mágoa pelo pouco caso de seu partner quanto às instalações onde fariam amor já estava instalada em seu coraçãozinho pequeno-burguês. Odiou-o naquele momento, e continuou odiando-o enquanto se requebrava sobre ele, na cama de lençóis baratos.

"Dei uma surra. O coitado saiu até tonto. Era verão, estava quente, ele decidiu se jogar na banheira. Com as pernas bambas, escorregou e bateu a testa na quina da banheira".

Enquanto improvisava um curativo, Laura Palmer se perdia em devaneios: "Bem feito", pensou, contorcendo-se em risadinhas internas.

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