26.7.07

I am what I am

Ao contrário de alguns colegas, eu não consigo desempenhar a proeza de inflar o peito e bradar que SOU JORNALISTA. Não que tenha vergonha da profissão que escolhi; não que me arrependa, apesar dos ultrajantes salários; simplesmente não acho legal sair espalhando esta boa-nova por aí. Sei lá. Acho engraçado um bando de gente que, às vezes, sequer tem diploma (sim, acho indispensável) arrasando no jargão jornalístico, lead pra cá, pirâmide invertida pra lá, "release", "em off" (esta é de morte), e contando vantagens mil sobre tudo o que faz e acontece em seu agitadíssimo dia-a-dia de trabalho. Expressões como "Correria, correria" ou "A gente mata um leão por dia" podem ser ouvidas por estas plagas - mesmo por quem escreve em jornal semanal, vê se pode. Que correria, cara pálida? Mesmo euzinha aqui, que trabalho em um diário regional, com relativa agitação, não posso me "gabar" de uma rotina desvairada... somos província, poucas coisas nos fazem tirar o buzanfã da redação e correr para a rua, em desespero. É fato (tanto que estou aqui, agora, redigindo este textículo, e aguardando minhas fontes me retornarem).
Mas conversando com alguns colegas têm-se a impressão de que estes já saem da cama de gravador em punho, às 5 da manhã, para entrevistas ultra-exclusivas ou para eventos absolutamente inusitados: homem morde cachorro, alienígenas fazem contato, um meteoro ruma em direção à Terra. Furos de reportagem, aos baldes, todos os dias, 24 horas por dia. E no cu do mundo do Sul catarinense. Poupem-me, colegaaaaaas!
Tem outra: não conheço profissionais de outras áreas que se gabem tanto de serem o que são como jornalistas. Nunca vi médicos, advogados ou engenheiros aproveitando qualquer oportunidade para lançarem no ar que são médicos, advogados ou engenheiros. Só o boçal do jornalista que faz isso. Horror e V.A. intensa.
Não se trata de uma inversão de valores - ser jornalista, de fato, é legal pra caramba, posso listar vários pontos positivos e ultra-incentivadores para os que encaram a profissão como uma alternativa a ser seguida, no futuro. Eu realmente adoro o que faço. Mas não sinto a necessidade de mostrar minha adoração num outdoor do Cardoso na esquina da minha rua, na frase do messenger ou no perfil do Orkut.
Também porque quem não é do métier - eu já percebi - cria altas expectativas em torno do "jornalista". Para os leigos (pelo menos alguns deles), o jornalista é uma criaturinha curiosa, que sabe de tudo e todos, e que deve, obviamente, trabalhar em um canal de TV (hahahaha). Até a minha própria família nunca entendeu de fato como eu pude me formar em jornalismo e ir trabalhar... num jornal! De papel! Aí o "glamour" criado em torno do jornalismo tal qual é apresentando pelo William Bonner vai por água abaixo quando você explica EXATAMENTE o que faz, e onde faz. Já vi tantas caras de decepção por aí...
Mas o que mais me dói no âmago do meu ser é ver gabolas metidos a besta anunciar serem "jornalistas". E serem, de fato, com diplominha na parede e tudo. E para provar que podem tudo (porque jornalista pode tudo, sabia não?), darem início e continuidade a trabalhos porcos, sujos, mal-feitos, mal escritos, mal apresentados, revisados, apurados. Lixo puro.

P.S.: às vezes tenho a impressão de que usar o título de "jornalista" pra fazer uma média seja uma característica (ridícula) desta região de meu Deus onde moro. Que em outros recantos do mundo jornalista é só mais um profissional como outro qualquer, sem auto-glamurização. Mas não sei. Preciso fazer uma pesquisinha básica. Será que minha amiguinha sumida Stellita B., Jornalista com J maiúsculo (e digo mesmo, que ela não sou eu, não estou me promovendo, oras), poderia me esclarecer?

6 comentários:

Germana Telles disse...

Eeeeeeeeitchaaaaa! Quem buliu? rs...beijos
Ah...já ia esquecendo.. "em off"..."Eu sou jornalistaaaaa"

Micheline Z. disse...

Hum, "tipo assim", eu sou jornalista!!! hahahaha... Mato um leão por dia na maior correria (aliás, não mato não, porque jamais mataria um bicho, né? hahaha) Aliás, o terminho mais anti-ecológico, cruzes!!!!
Faltou falar do "dead line"!! Adoooooooooooooooooro, afinal, a "correria" justamente acontece por causa do maldito "dead line", helloooooo!!!!
Em tempo, as "aspas" foram em homenagem a nossos "coleguinhas" jornalistas!!! hahahahahahaha
Beijocas, que depois do "dia produtivo" de hoje, esgotaram-se minhas inspirações para escrever mais!

Cíntia T. disse...

Hehehe, ninguém buliu não, Manekítia. Quer dizer, não com intenção, mas bulinam todos os dias na minha paciência e nos meus critérios de qualificação profissional (que são altíssimos, by the way). Argh.

Aliás, as duas leram a coluna de certo pinante colunista pedreréeeeerimo de sexta-feira? Céus, absurdo dos absurdos. Vou blogar a respeito depois. Só digo uma coisa: vômito na zona sul.

Caetano disse...

Oi,

Sugestão: conta do brinde da Paramount Pictures que você ganhou na última sexta.

Continue assim,

Beijo,

Caetano

Germana Telles disse...

Conta do brinde... :-)

Germana Telles disse...

quanto ao colunista, até imagino quem seja...seria o mesmo acéfalo que praticamente chamou as solteiras de caça-homens desesperadas nos embalos de sábado à noite?