3.11.09

O maior espetáculo da Terra?

Até lembro da bolsa que eu usava: uma vermelhinha, linda, onde guardei algum dinheiro para comprar quitutes. Tinha sete anos e foi minha primeira experiência no circo. Não lembro de ter gostado - ou não - mas naquela época o Vostok era O circo e não podíamos desperdiçar a oportunidade. E o maior espetáculo da Terra vinha completo: malabares, equilibristas, mágicos, palhaços anões, leões, tigres, macacos (possivelmente maltratadíssimos, mas ninguém ligava) e até Globo da Morte, experiência traumática pra mim, que não pude com aquele furdunço - deve ser por isso que tenho pavor de ronco de motocicleta, coisa de pobre farofeiro que financia a CG em 42 meses.
Mas havia a proximidade: a casa da avó era ao lado do local onde circos (e parques de diversões - Tupã, invariavelmente) montavam acampamento. E a visitação era permitida, sempre. Anos depois vi uma das cenas mais deprimentes da vida, um elefante acorrentado pela patinha. Digo patinha porque era uma patinha mesmo, difícil reconhecer aquela criaturinha magérrima e sofrida, mais um dog alemão do que o nobre gigante da Savana. E ele chorava. Sobre a pele empoeirada do rosto corria uma lágrima grossa, coisa que me fez soluçar de angústia (sabe-se lá se não era apenas pra lubrificar os olhos). Aí passei a odiar circo com apresentação de animais de todo o coração. Horror, repulsa. E, please, poupem-me dos discursinhos pró-mundo circense, pode-se fazer muito melhor, Cirque du Soleil taí pra confirmar.
Mas aí veio a sobrinha e suas inúmeras vontades. Quando anunciaram que os Backyardigans fariam uma apresentação em minha querida Shark city, não pensei duas vezes em levar a pequena. E esta apresentação, vejam só, era num circo - sem animais, pelo menos.
Mais de vinte anos após minha primeira experiência circense, pude perceber a tão propalada "falência" desta modalidade de entretenimento e
cultura. Os artistas hoje são em número reduzido - e executam tarefas múltiplas. O vendedor de pipocas e algodão doce aparece, minutos depois, dançando no picadeiro, girando no Globo da Morte (maldita CG) e, outra vez, vendendo bugigangas (que certamente é o que garante a sobrevivência da trupe - o comércio de quinquilharias e guloseimas mil).
Para encanto da menina, o palhaço Batatinha (Renato Aragão e Praça É Nossa não sabem o que estão perdendo) surge momentos após sua divertidíssima (not!) apresentação vendendo batatas chips, daquelas encharcadas de óleo re-re-reutilizado.
O engraçado era ver a galerinha - maioria absoluta composta por jovens dos 20 aos 30 - do palhaço à contorcionista, passar faceira vendendo coisinhas e deixando um rastro de marofa pra trás, hahahaha... A vida no circo deve ser curiosíssima.

Mas não se pode negar a magia e o encantamento exercidos pelo circo: meu acompanhante de ocasião, por exemplo, mostrou-se tão deslumbrando com a vida mambembe que se dispôs a largar a dura jornada de jornalista e cair na estrada encarnando o Tyrone e a dança com varas em chamas. "Isso eu sei fazer", garantiu o sujeito.



Tyrone é muito bem tratado no Circo Italiano...

Um comentário:

Guilherme Corrêa disse...

Parque Tupã, i miss u so badly! Passava o dia todo no parque, girando no enterprise até ficar tonto. E eu nem sempre tenho boas experiências com circos. Quem sabe porque tenho um medo fudido de palhaço. Bando de assassinos em série.