1.3.09

Mitômana

Ela já chegou chamando atenção - não por ser terrivelmente feia nem por radiantemente bela, mas por falar alto. Só alto não, praticamente aos berros, uma coisa horrorosa. Estavamos embarcando no bus em POA, rumo a Sharkcity, e os agudos (mais graves que agudos, devo admitir) da rapariga fizeram com que eu desviasse os olhos das palavras cruzadas um bocado de vezes, ao longo do trajeto.

Juro que ainda tentei seguir indiferente, mas percebi que todo o blablablá e a postura overreacting da gritona poderiam me render horas de puro deleite. Pois bem.

Mal se acomodou em sua poltrona e a mulherzinha vociferou para sua partner de viagem: "Vim a trabalho. Trabalho em Porto Alegre mas tenho casa em Garopaba, aí já viu, né? Tive que vir, tinha um monte de projetinho atrasado. Mas deixei minha filhota com a avó. Coisa booooa, né? Ter alguém pra cuidar da filhona assim...". Estranhei o tom de "gabância" do comentário. Casa em Garopaba, a meca litorânea dos gaúchos, muitos projetos, sinal de dinheiro entrando... decidi continuar bem atenta.

Quando ela comunicou, em seguida, que preferiu não vir com seu automóvel (um Omega GLS), resolvi analisar o visú da gata. Camiseta do time do (meu) marido (no Rio Grande do Sul simpatizei com o Grêmio, justificou), daquelas encontradas penduradas em série na barraca do camelô; jeans "corsário" (afff) e sandálias de salto colossal de madeira, cobertas com camurça puída; bolsa adquirida, provavelmente, no mesmo lugar onde encontrou a camiseta. E as bagagens, inúmeras, socadas com força na parte superior de sua poltrona, entre bolsões sintéticos e gigantescas sacolas plásticas repletas de badulaques. Foi quando desconfiei da incapacidade da menina de falar a verdade.

Ela mentia, juro que mentia. Mas mentia com tanto orgulho e sinceridade que certamente levava sua interlocutora a acreditar. Contou dos projetos que desenvolveria (móveis de mdf); da filha liiinda de enormes olhos verdes; das belezas, atrações e deficiências de TODAS as cidades por onde passávamos. Ah, fala sério, ninguém sabe nada de Maquiné a não ser que lá tem um restaurante de beira de estrada que vende bala de banana. De Sharkcity, ela fez apenas comentários supérfluos, en passant.

Cansei de tanta lorota e abstraí por algumas horas. Na paradinha para um xixi básico, mais mitomania. "Agora a gente pára aqui pra comer um sanduíche natural e um chocolate quente", instruia ela, exatamente o lanche eleito pelo inconsciente popular coletivo como sendo "fino", hahaha, não sei de onde saem estas coisas. Um calorão fdp e a guria foi seca no "chocolate quente" (nescau), pose é tudo neste mundo.

Só fui me deter na criaturinha novamente pouco antes de desembarcarmos. Havia despirocado. Marcava um encontro com sua companheira de viagem, levaria a linda filha de olhos verdes para conhecê-la. Disse que havia retornado, há pouco, de Buenos Aires, e que já se programava para fazer um tour ligeiro pelo Uruguai (adoro fazer compras lá). Também falou da possibilidade de um cruzeiro, teria amigos em Fernando de Noronha, para onde costumava ir com regularidade.

Não ouvi o motivo de ela ter desembarcado em Shark, já que, originalmente, seu destino era Garopaba. Ainda antes de descer, perguntou para as paredes (ou janelas da Santo Anjo) se seria melhor ligar e pedir para a família vir buscá-la ou chamar um táxi. Optou por ligar.

No orelhão, telefonou a cobrar e convenceu alguém a vir buscá-la alertando para os diversos presentes que havia trazido (imagino que acondicionados na sacolona de plástico paraguaia). Percebi certa relutância do outro lado da linha, já que chovia, mas como tinha presentes na jogada, em pouco mais de dez minutos uma humilde senhora, pilotando uma bicicleta, com uma menininha encardida na garupa, chegou para receber nossa protagonista. A rapidez teve explicação óbvia: quem conhece a geografia de Shark, sabe que a localidade de Capão Cagado fica logo ali atrás da rodô.

7 comentários:

Anônimo disse...

Já estava à beira da cama quando lembrei que tinha marcado compromisso de passar por aqui. Pois bem.
Depois de ler o trecho:
"jeans "corsário" (afff) e sandálias de salto colossal de madeira, cobertas com camurça puída; bolsa adquirida, provavelmente, no mesmo lugar onde encontrou a camiseta"

Não me restaram dúvidas: Cíntia T. are a woman!
hahaha
beijoo
Lucas (com preguiça de fazer login)

Anônimo disse...

Retificando,
"is a woman"

Marcos Dalmoro disse...

Que mulherzinha mais "arrotadeira" kkkkkkkkk
o que eh eu, aqui, me mordendo, tentando imaginar os prensentinhos dela... hahahaha

Bju!

Cíntia Teixeira disse...

Lucas, isso que eu não falei dos brincos... pai do céu.
Marquitos, os presentinhos ela deve ter comprado todos na lojinha onde adquiriu a camiseta do Grêmio. Beijos!

CABELLONE disse...

Cíntia... Gostei do Blog... Depois de anos, vim aqui conferir... Gostei, interessante e divertido...

Beijocas...

PAA.

Phil disse...

Peraí, entre o capão e a rodoviária existe a Rua Roberto Zumblick que é a Aduana de Tubarão. To pensando em entrar com um projeto de lei para colocar um posto fiscal, moral e mental ali. Aposto que os fiscais falariam muito "não vai subir ninguém!" dado a quantidade de maluco que vejo subir da rodoviária em busca de fama e fortuna em Shark City.
Há, uma vez também ouvi um cara falando no ônibus sobre as belezas naturais e a origem dos nomes de cada cidade em que passava. E sobre Tubarão ele falou uma que não se ensina na escola (pelo menos na minha não). Tubarão se chama tubarão pq uma vez, a muito tempo atrás, tinha um Tubarão morando no rio, entre as duas pontes, e a cidade ficou conhecida pelo peixe sedento de sangue. Eu não sei, mas gosto mais dessa versão que a do índio velho que mandava no pedaço. Eles mentem e a gente se diverte. Seria no mínimo um pouco mais tedioso sem eles.

Maite Lemos disse...

PQP!
Fui obrigada a entrar aqui para fazer um comentáriozinho "de leve" sobre o Capão Cagado quando... para minha surpresa... quem encontro?
Philippão chegou primeiro!
Então não tenho mais nada a dizer. Apenas parabenizar pelo texto.
Ah! E sobre a versão do tubarão no rio, eu aprendi isso na escola sim.
Não uma verdade absoluta. Mas como uma versão que representava uma possibilidade remota.
Mas o moço aí de cima se recusa a acreditar.
Então tá, né.

bjnho