21.3.08

Barata

Durante toda a minha vida meu maior terror era me tornar um Barata. E não, não estamos adentrando temas kafkanianos. Dia desses, durante minha boa e santa caminhada (não tão) diária, cruzei com Barata e sua mãe, dona S., conversando no meio da rua. O Barata, na minha opinião, é a mais exata definição, em carne e osso, de fracasso. De deprimência, de vazio, de não-vida. O Barata é uma não-pessoa. Horrível, isso. Fiquei pensando no Barata durante minha caminhada e vi que isso poderia me render um post. É foda aproveitarmos das mazelas alheias para entreter o público cativo (hahaha). Mas o tema Barata, subitamente, tornou-se irresistível - para uma blogagem.
O Barata já era exatamente desse jeitinho de hoje desde que eu era criança. Cabelos arruivados, mas daquele tipão meio queimado, seco; pele embexigada, cheia de cicatrizes profundas de acne. Nem alto nem baixo; nem magro nem gordo. Certa pança de cerveja. O look básico é camiseta (com destaque para as de campanha eleitoral), bermudões que derivaram de uma calça jeans já desgastada. E havaianas. Não das novas, descoladas, e sim das antigas, brancas de tira azul. Às vezes eu penso que Barata jamais se desfez destas havaianas. Se falassem, as havaianas do Barata poderiam relatar toda a sua vida. O que não quer dizer grande coisa.
Penso (não tenho certeza) que Barata nunca casou. Ainda há tempo, sempre há tempo, Barata não deve ter muito mais do que 40 anos. Quando eu era adolescente soube que ele arrumou uma namorada, não lembro o nome dela, mas a moça era considerada a idiota do bairro, pobrezinha. Por idiota, tomem retardada. Foi uma paixão fulminante que acabou, se não estou enganada, devido a uma traição da parte dele. Céus, eu pensei, alguém quis ser a segunda do Barata!
Não sei do que vive o Barata - aliás, acabei de lembrar do nome do moço, que junto com o irmão daria uma dupla sertaneja fantástica, pela sonoridade, mas não convém escrever por aqui - acho que Barata vive de bicos, faz as vezes de eletricista, encanador, pedreiro e funções do gênero.
Além das havaianas, acho que B. (vamos resumir) nasceu com uma bicicleta. Montado nela. Acredito que Barata não sabe andar, só pedalar. Ele jamais teve carro, moto ou outro meio de locomoção que não a magrela.
Soube que, durante algum tempo, B. teve problemas com drogas. E/ou álcool, whatever. O que interessa é que a (sub)vida de B. me aterrorizou por muito tempo, e ainda me traz certo pavor. Ele jamais conquistou nada, não tem nada do que se orgulhar, do que mostrar aos outros; sua mãe certamente jamais sentiu o peito inflar de orgulho pelo filhinho; seus filhos (se é que tem filhos, I don´t think so) não teriam disposição de apontá-lo, com gosto, e dizer: este é o meu pai. Barata não tem lá muita história para contar, além de fracassos e decepções.
Quando passei por dona S. e Barata, no dia da caminhada, destinei um olhar de reconhecimento à dupla (fomos vizinhos por anos). Barata correspondeu, com um sorriso. Feliz.

Um comentário:

Elaine disse...

kkkkkkkk, esqueceu de citar das camisetas de times q ele usa(não deve ter um definido, mas acredito q seja a do "framengo" e com aquele cheirinho básico porque não sai do couro!)
E acho q ainda flerta com a D. baratinha dele lá de antigamente, tbem soube q ja pegou a (Mirtz, aquela da vila q só anda com uma bolça a tira colo e fala gritando com todo mundo, tu deve saber quem é.