26.3.10

A Pizza de Sardinha Perfeita (ou Para Eduardo)

Minha vó era uma stepmother, no melhor sentido da palavra. Era pra lá que eu corria quando me aborrecia com meus pais, era pra lá que eu rumava, mochilinha verde água nas costas, quando sentia falta de um lar "mais tranquilo". E por lá ficava durante duas, três semanas, um mês. Minha vó morreu com 80 anos incompletos, em 2007, mas já a considerava "velhinha" aos 14 anos (época em que adultos com mais de 30 passam a ser idosos). E velhinhos costumam seguir sua rotininha diária religiosamente: levantar cedinho, tomar café bem reforçado (preto, acompanhado de beijús torradíssimos), sem antes deixar de lavar bem o rosto e passar um pente (molhado) nos cabelos (nunca entendi o porquê do pente molhado, o cabelo da véia era bem fininho e macio). Como hóspede, me via na obrigação de fazer as mesmas coisas, aí tomar café da manhã era um martírio, coisa com a qual ainda não consegui me adaptar - guardo a fome para o período noturno...
Aí seguia pra escola, e - lindeza das lindezas - ela me acompanhava até o portão (ops, entrou um cisco no meu olho aqui). Meio-dia e o estômago parecia uma britadeira nervosa (claro, quem mandou só fingir que tomava café?). Era aí que tinha início algumas das minhas melhores experiências gastronômicas de todos os tempos. Porque a comida da vó era uma coisa absurda. Deliciosamente absurda. Só não era obscenamente absurda porque minha vó não era "destas coisas", uma santinha, coitada.
Teve a semana dos bolinhos. Todo dia eu entrava na cozinha, com aquele cheiro enlouquecedor de quitutes, e me deparava com uma travessa abarrotada de bolinhos. Ela já havia almoçado (gente velha come cedinho, acho que às 11h a bichinha já tava mastigando). Mas ficava de pé, bracinhos cruzados, me olhando comer. E ria, com as minhas expressões famélicas de furor estomacal.
Todo dia, ela perguntava: adivinha do que é o bolinho de hoje? Com a saliva escorrendo pelo queixo, eu tentava acertar só de olho - e nunca conseguia, para sua diversão. Num dia, os bolinhos jaziam na travessa, rechonchudos, inflados, de uma belíssima coloração verde escura. "Espinafre", contou. No outro, bolinhos lindamente brilhantes de óleo (sim, saúde era algo com que não nos preocupávamos, à época), todos bem laranjinhas. "Abóbora". No dia seguinte, bolinhos cor-de-rosa, uma vibe totally Hello Kitty. "Beterraba". Mas quando os bolinhos adquiriram a coloração verde água, eu me surpreendi mesmo. "Alface". Primeira e única vez na vida que vi (e comi) bolinhos de alface. Acho que ninguém faz bolinhos de alface, mas... que bolinhos... Meu Deus.
Não pára por aí, é claro. Minha vó era uma mulher rústica, sem refinamentos, criada na roça, mas de uma classe que eu poucas vezes vi por aí em muita granfa. Sua comidinha caseira era basicamente galinha ensopada, carne de panela, feijãozinho, coisas assim. O máximo da modernidade a que ela se permitia era a pizza. E é claro que não poderia ser uma pizza padrão, uma pizza clássica. Era a pizza da Minerva.
(Ainda mais) felizes eram os dias em que eu chegava do colégio, esverdeada de fome, e me deparava com aquela forma de pizza. Forma quadrada, gigante. Cinco dedos gordinhos de massa, e fofa. E a cobertura era a melhor sardinha em lata do mundo, temperadinha com muito amor de vó. Que pizza era aquela, Brasil? A velhinha talhava uma fatia do tamanho do mundo, cujas bordas ficavam pra fora do prato. Aí abria a geladeira e de lá tirava um pote de mostarda de 236 anos, provavelmente fora da validade, but, who cares? Um banquete.
Minha mágoa é que ela se foi e, com ela, a receita mágica da pizza de sardinha dos deuses. Se bem que, acredito, não havia receita. Minha avó era analfabeta, sua maior tristeza foi não ter aprendido a ler. Um caderno de receitas, portanto, seria um item desnecessário para a velha senhora, que armazenava todas as informações realmente importantes em sua prateada cabecinha (minha mãe, nora de Minervinha, sempre diz que, se esta tivesse a oportunidade de estudar, provavelmente seria reconhecida por seu brilhantismo no universo acadêmico, eu também acredito nesta teoria).
Familiares tentam exaustivamente achar o ponto perfeito daquela pizza filosofal, mas até agora ninguém conquistou a textura daquela massa, o tempero daqueles pequenos pedaços de peixe, a liga daquele molhinho descompromissado. Nem vão achar, apesar de desenvolverem variações deliciosas da versão original. Meu consolo é que vivi para provar daquela delícia incopiável. E transmitir a "saga da pizza de sardinha perfeita" para o máximo de pessoas possível.


24.2.10

No Surgetics (mas pelo preço de uma)

Acordar descabelada, com a cara besuntada pela secreção das minhas agitadíssimas glândulas sebáceas (nojento) e me olhar no espelho, de manhã cedinho, já não era das minhas atividades prediletas. Aí surgiu ela, a dupla dinâmica mais fdp para uma jovem madura (existe isso, jovem madura?). Refiro-me às bolsas e às olheiras, coisas horrendas que vêm me assombrando há coisa de uns dois anos, sei lá.
Bem que eu tentei alguma receitinha fácil e barata. Foi quando adquiri o micropotinho do Nivea Aqua Sensation, com míseros 15 gramas, pela pechincha de R$ 40. Foi como está escrito no rótulo: sensação de água. E efeito de água também, ou seja, totalmente ineficaz. Pior: deixou a região dos olhos ainda mais brilhosa e ensebada, eu devo merecer estes castigos pelo pecado da vaidade. Mas não desisto.
Foi aí que um milagre aconteceu.
Esta semana recebi minha encomendazinha de produtinhos básicos (perfuminho de verão, shampoo e condicionador de banana (what?), coisas assim) da Sacks. Adoro (eu jurei que não falaria mais "adoro" depois do advento DiCésar, já virou cafona).
Aí que a tentadora lojinha virtual me mandou uma desgraçada de uma amostrinha grátis de um produto da Givenchy, o Radically No Surgetics, "programa de rejuvenescimento global para os olhos". Os desgraçados devem ler meus pensamentos e adivinhar meus desejos de consumo, só pode. São dois tubinhos, um para antes de dormir, outro para o acordar.
Passei e fui dormir. No outro dia... tcharan! Juro por Deus, quando me olhei no espelho nem reparei no cabelo espevitado nem na pele ensebada (o bom da pele oleosa é que as rugas demoram mais pra aparecer, bobas). Havia rejuvenescido 10 anos. Ju-ro. E (infelizmente) nem estou ganhando comissão pra falar bem deste treco (quem me dera).
Pirei. Continuo passando, mas, já falei, trata-se de amostra grátis, ou seja, não deve durar até o fim da semana. E aí a cara meique vai despencando, né? O negocinho é danado e só dura até a hora de reaplicar (é o que me parece).
Enlouqueci. Muni-me do credit card navalha e acessei, mais uma vez, o site amigo.
Amigo my ass, como diria Charlotte C. Adivinha o preço do mimo que virou minha inspiração para viver? Adivinha nada, olhaê:




Sim, senhores, a maravilha da tecnologia dermocosmética tem seu preço. E que preço... E por apenas 20 ml do produto miraculoso!
Ahhh, confesso que lamentei profundamente minha falta de sorte por não ter vindo mais endinheiradinha nesta encarnação. Fica pra próxima, Givenchy! (ok, eu ainda não desisti, este creminho ainda há de ser meu, deixe estar...). Enquanto isso, vou arriscar a técnica das fatias de batata gelada... (putz, me senti muito pobre com este post. Já falei que o No Surgetics custa TREZENTOS E TRINTA DINHEIROS?).



17.2.10

Carnaval em Shark ou Já vi melhores

Nestes meus (ahan...) 27 anos bem vividos (a dica é diminuir um a cada ano, bobos, até ficar ridículo demais e as pessoas pararem de perguntar sua idade por puríssima Vergonha Alheia) já passei os feriadões de Carnaval em locais bastante distintos e muitíssimo agradáveis (tá pensando que eu só curtia o Carnaval no circuitinho Laguna-Camacho-Barranceira?). Foram áureos tempos, tempos estes que, acredito, estão definitivamente enterrados (ou não, mas, sabe-se lá). Nos últimos anos minha rotina carnavalesca era o combo DVDs - junk food - alguma obra literária encalhada na prateleira. Desta vez não foi muito diferente, dado o fato de meu partner de ocasião não ser lá muito devoto dos festejos de Momo. O truque ficou por conta dos Gritos Carnavalescos no bar de nossa predileção (que contou com a presença de prestigiadíssimas figuras públicas), da companhia das meninas mais queridas da titia aqui (Nina e Juka) e de um inenarrável DESFILE DE ESCOLAS DE SAMBA EM SHARK CITY. Disse inenarrável? Vou tentar reverter isso...
O negócio é que havia uma criança em meus domínios, e o jeito foi levá-la de um lado ao outro para que a pequena não se aborrecesse (ainda mais). Aí rolou a ideia de acompanhar o portentoso desfilinho sharkcitiano. Até agora eu não sei dizer se odiei ou se foi o melhor Carnaval da minha vida, pra você sentir o impacto do acontecimento.
Nem vou observar quanto aos aspectos burocráticos tipo desvio de verba pública (a pobreza na estrutura das "escolas" deixa isso bem claro, acho que eu faria um tantinho mais com R$ 150 mil), desorganização generalizada e atraso de duas horas pro samba comer.
Mas foi engraçado descobrir a verve debochada do povo desta Cidade Azul ao contemplar carros "repetidos" ("Ahahaha, aproveitaram o carro de cobra do ano passado!", confidenciaram-me duas habitués), porta-bandeira de gogó avantajado e peito peludo (juro), um rei Momo capenga que deixava cair o cetro de três em três minutos, uma baiana que surtou e abandonou a ala correndo com as saias levantadas e a inegável vibe Elenita (BBB) de boa parte das passistas ("Olha que lheeeeeeendas...", satirizavam duas distintas senhouras, já não se fazem mais velhinhas bondosas como antigamente).
Foi tudo tão tosco e enjambrado que parecia piada (e não era?), não me restando outra alternativa a não ser aplaudir a tudo retardadamente, enquanto me afogava em lágrimas de riso reprimido.
Mas a bateria era bem animadinha. E, no fim das contas, a menina da madrinha saiu simplesmente maravilhada com tudo. "O que eu mais gostei foi do carro de cobra", afirmou. Eu concordei.

21.1.10

A colecionadora

Há tempos trancafiada em seu flat à beira-rio, a moça, aquela (que pediu para não ter seu nome revelado), finalmente aceitou o convite de amigos e foi badalar em uma importante buátchi de nossa Capital insular.
Cabelos impecáveis, modelito descoladíssimo, vertiginosos saltos Louboutin, make-up perfeito, perfume francês aspergido na nuquinha, nossa heroína dançou até esfregar o pinguelo no chão, muito da faceira, enquanto degustava, aos golinhos, um Cospomolitan.
Depois de dançar no queijinho, ameaçar um streap-tease sobre a mesa, beijar muitas bocas, sarrar muito esfregando-se na parede com tipinhos dos mais variados, repassar seu número de telefone (falso, é claro) para inúmeros pedintes, chegou a vez de ir embora.
Foi aí que ela deslizou. Habituada ao clima de "sinta-se em casa" dos náiteclubes sharkcitianos, a moça sucumbiu à tentação e embolsou o delicado copinho de cristal que acomodava seu Cosmo.
Não contava, no entanto, com o segurança, que, ao pedir para ver a comanda (gasto total de R$ 212, fora uma carteira de Lucky Strike, na rebarba), também visualizou o copinho com o logo da buátchi, envolvido precavidamente no Hermés que a moça sempre mantém na bolsa, para emergências.
"Este copo é da casa", sentenciou o leão de chácara.
"QUEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE??????????????????", chiou a honesta mulher, já antevendo certa malícia na afirmação do funcionário. "Não fui eu que coloquei aqui, hein? Deve ter sido um daqueles moleques", e apontou para um discretíssimo grupinho de butterflies borboleteando ao som de Lady Gaga.
"Droga, perdi um ótimo modelo para minha coleção", comentou, em casa, enquanto espanava sua prateleira com 82 tipos diferentes de "troféus", entre flutes e tulipas, canecos e shots de tequila.

12.1.10

Aprendendo com a vida (ou com a vizinhança)

Não que eu queira parecer repetitiva, mas há que se destacar a importância da vizinhança na vida do ser humano. Digo repetitiva pois, há alguns meses, meu assunto predileto neste bloguinho fofuxo e cor-de-rosa era o imbecil do meu (graças a Deus) ex-vizinho adolescente que curtia um fio terra e que apanhava da namorada (vide arquivo).
Vizinhos são a (des)graça da vida em comunidade, são o que faz sua vida valer a pena ou o que te leva à beira do abismo do desespero por um caminhão de mudança. O cinema está aí pra comprovar, e não é à toa que o filme Janela Indiscreta (Rear Window), do Hitchcock, serve de inspiração até hoje para centenas de produções.
O adolescente desocupou o apê aqui debaixo há alguns meses, tempo este de alegrias e tranquilidade. Mas este tempo findou-se com a chegada das novas moradoras. Amigos, devo dizer que gosto muito do lugar onde moro, gosto mesmo, acho bem localizado, com espaço interessante para sua única moradora (e para sua cachorrinha), seguro, com valor não-exorbitante, enfim, seria um local perfeito para residir não fosse o responsável pelo aluguel do apê logo abaixo, esta mansão de Amityville em forma de conjugado, um incrível filho da puta. Sim, porque o cara não tem o menor critério. Para ele, pagando o aluguel (mais ou menos) em dia, tá valendo.
Anyway, é importante ressaltar a capacidade de aprendizado do ser humano. Porque sempre há o que se aprender. Com a chegada de minhas duas queridas novas vizinhas, tenho recebido verdadeiras lições de vida todos os dias, depois da uma da tarde, horário em que as belas despertam de seu sono reparador.
Por exemplo, com as moças aprendi muito sobre moda e estilo. Já no segundo dia no prédio, desci para uma voltinha com a minha pet quando esbarro com uma delas conduzindo um tipinho crack style escada abaixo: seminua. Sim, senhores, é verão, moramos num país tropical abençoado por Deus e nada melhor do que um pijaminha puído, safado e transparente para refrescar a perseguida, não é mesmo?

Também aprendi sobre consumo e controle de qualidade na hora de desembolsar meu rico dinheirinho - uma verdadeira aula de economia. Dia desses as duas roomates conversavam animadamente sobre aquilo que toda mulherzinha ama conversar: compras. Liguei as anteninhas. "O certo era pegar R$ 100 e ir lá no Jonas, cara. Dá 100 gramas. A maconha do Jonas é excelente, vale a pena", sentenciou uma delas. Ficadica.

Outra rica lição absorvida pela espectadora aqui foi quanto ao amor devotado ao trabalho. Senhores, devemos, acima de tudo, de salários, carga horária, coleguismos ou inimizades, AMAR de fato aquilo que fazemos para botar comida na mesa. Semana passada uma das moças cantava, divertida, enquanto se arrumava para o trabalho. "Essa noite eu quero DAR, DAR, DAAAAAR" (para os entendidos, cantar no ritmo da música I gotta a feeling, do Black Eyed Peas). Dedicação ao que se faz é importante para o sucesso na carreira.

Dicas de beleza não faltam no repertório de minhas animadas vizinhas. Como por exemplo uma sugestão sensacional para deixar os cabelos arrasantes. "Ai, guria, aquele salão ali perto do Castelinho* é óóóóóótimo!!!", disse uma. "Éééééé, eu sei, já fui lá uma vez. A manicure também é boa", concordou a outra, com ênfase.

Aprendi também que, independente de raça, credo ou time de futebol, somos todos filhos de Deus, iguais diante do Todo-Poderoso. Enquanto se besuntam de hidratante Paixão, queimam um baseado e conversam amenidades, as meninas se distraem cantando hinos do tipo "Entra na minha casa, entra na minha vida, mexe com minha estrutura, sara todas as feridas...". Achei fino. Achei luxo. Achei Maria Madalena feelings.

* pra quem não conhece Shark city e suas peculiaridades, digamos que Castelinho seja um point... hum... não recomendável para menores de 18 anos.

7.1.10

O ovo ou a galinha?

Não negue: na virada do ano você lançou mão daquela calcinha amarela comprada às pressas nas Americanas, e/ou mastigou sete grãos de uva, ou pulou ondinhas, guardou sementes de romã, comeu porco, enfim, é típico do brasileiro perder tempo com certas mandingas para que o ano que se inicia seja melhor do que o que finda, simples assim.
Convenhamos, nada mais otimista do que um bom brinde, entre seus entes queridos, desejando good vibes para os doze meses seguintes, é fato. Se não surte resultados efetivos, pelo menos nos deixa com a prazerosa sensação de que os próximos números da Mega-Sena serão os nossos, ou de que sua alma gêmea estará naquela esquina, semana que vem.
Pois bem. Nossa heroína de dois mundos, Charlotte C., protagonizou mais uma daquelas historinhas dignas de filme pastelão - importante salientar que a morenaça belzebu tem a capacidade extraordinária de vivenciar fatos que só vemos na tela grande, eu já não acho mais nada inverossímel neste mundo de meu Deus.
Soterrada por convites para tentadoras festas de fim de ano, ao longo de todo o belo litoral catarina, a balzaca paulistana arrumou a trouxinha e aportou na Zimba, em casa de alguns amigos. Sempre muito benquista, foi recebida com honras de primeiro-ministro, com direito a discursos emocionados, pedidos de autógrafo e poses para fotos.
A família anfitriã era o que se pode chamar do mais puro e autêntico retrato do povo brasileiro: gente honesta, trabalhadora e decente - mas com um plus: basta a aproximação dos últimos dias de dezembro para começar um verdadeiro ritual de purificação. Velas e incensos são espalhados por toda a casa, santos e anjos, espalhados pelos cantinhos, em todos os cômodos e em todas as janelas, a palavra de ordem é "misticismo". "Místicos. MÍSTICOS. É isso que eles são", definiu Charlotte, em poucas palavras. No dia da virada todos se jogam no vestidón branco e nas oferendas à Iemanjá, espiritualidade é tudo neste mundo, e haja estoque de arruda e sal grosso.
A ceia é das mais gloriosas: na mesa, frutas tropicais, lombinho bem temperado, a popular maionese, farofinha, tudo muito digno e limpinho. Charlotte, que não arcou nem com as lentilhas, nem pôde. Refestelou-se ao ponto de abrir o botãozinho de seu sumário short jeans branco, que revelava suas voluptuosas formas. "Comi. Comi que me acabei", contou-me, em segredo.
Na casa onde estava hospedada encontravam-se desde o tio beberrão à avó octagenária, passando pela tia solteirona, pelas priminhas periguetes e pelo cunhado inconveniente, todos muito curiosos a respeito da vida atribulada desta profissional mezzo jornalista/ mezzo doutora em línguas.
Sempre atenta e antenada, Charlotte acompanhou os inúmeros hábitos supersticiosos dos residentes, todos muito unidos, rezando de mãos dadas, pulando num pezinho só ao badalar da meia-noite e banhando-se em água benta, especialmente preparada para a ocasião. "Estava terminando minha lentilha quando recebi um jorro de água benta na cara. Mal não vai fazer, né?".
Até que chegou a hora da sobremesa.
Todos de alma lavada pela chegada no simbólico ano de 2010, barriguinhas estufadas, sentidos alterados pela ingestão de honestas taças de espumante, dividiram-se entre as duas opções oferecidas no buffet: pudim de queijo e sorvete caseiro. Charlote lançou um olhar maroto aos quitutes e lembrou de sua prendada mãezinha, cuja receita do sorvete, de família, é guardada a sete chaves no cofre dos Pragas. "Então, moça, vai querer pudim ou sorvete?", perguntou uma tia solícita. Todos os olhares voltaram à ela. Momentos de tensão. "Não vou querer nada não, obrigada...", dispensou, tímida. Pra que? Os ânimos se esquentaram. "Não vai querer??? Por que?", questionou meia dúzia de parentes, levemente enfurecidos (o pudim de queijo foi delicadamente preparado pela matriarca da família anfitriã, de 85 anos, uma ofensa dispensá-lo sem uma boa desculpa).
"Cara, eu não sabia o que fazer. Todo mundo parou o que estava fazendo, largaram os garfinhos com os quais deliciavam os doces, repousaram suas flutes na mesa e fixaram os olhos em mim, esperando a resposta. Pensei em dieta, mas não ia colar, né? Já tinha comido lentilha e lombo feito uma porca, que porra que dieta, que nada", a morenaça quebrou a cabeça por longos segundos.
Quem conhece Charlotte C. sabe do que estou falando. Sob pressão o resultado pode ser dramático. Você, caro leitor, que porventura terá a honra de conhecê-la, futuramente, fique avisado: não a pressione jamais, as consequências podem ser das mais terríveis.
"Juro que tentei desconversar, mudar de assunto, partir pra outra. Mas não deu. Todo mundo ficou esperando. Tive que contar". Com cãimbra nos músculos faciais, Charlotte revelou sua resistência às guloseimas. "Sabe o que é? Este sorvete... leva ovo?", questionou.
"Sim, leva ovo", respondeu a responsável pelo doce, já bufando de indignação pela rejeição da convidada.
"Então... ceia de Réveillon, né? Todo mundo aqui, reunido, comendo porco, que fuça pra frente, dispensando frango, que cisca pra trás... Ninguém come frango numa hora dessas, né?".
"Sim", responderam os familiares, em uníssono.
"Então... o ovo vem da onde?".
Longos minutos de silêncio.

Charlotte foi levada rapidamente por uma amiga ao bar mais próximo, onde degustou 32 latinhas de Skol bem gelada. Mas a imagem da avozinha octagenária vomitando o sorvete recém-comido sobre o prato, do tiozinho cuspindo os restos da massa gelada no chão e das lágrimas de tristeza e decepção nos olhos de todos os presentes permanecerão forever em sua mente. "Cara, eu desejo tudo o que há de bom pra esta família. Porque se acontecer qualquer merda ao longo de 2010 na vida deles, a culpa será minha", admite a (anti-) heroína.

5.1.10

Em festa de rodeio...

Finalmente pude dar o ar da graça num destes balneários de nosso querido e rico sul-catarinense, neste feriadão de fim de ano - aliás, festcheenhas mais chatas estas de fim de ano, não é mesmo? Variações sobre um mesmo tema. Enfim, bastou por meus lindos pezinhos de esmalte orange power mega blaster na areia do Farol de Santa Marta para dar início às lamentações.
Primeiro, que aquilo lá virou um lixão a céu aberto. Lugar tão bonitinho, vibe tão alto astral, gente tãããããããooooo bonita (calma, guria), e tudo absurdamente negligenciado, sacolões gigantescos de lixo viraram cartão postal, ofuscando o monumento que dá nome à praia.
Ok. O segundo ponto a ser destacado é uma ligeira alteração no perfil dos frequentadores daquele paradisíaco monte de lixo. Se antes surfistões sarados e platinadas ratas de praia tomavam conta, agora são empurrados covardemente para o costão por caminhonetes gigantescas que estacionam na areia e deixam rolar, no talo, de Calypso a Bruno e Marrone (e aí vale de tudo quanto é bandinha de sertanejo/forró/genéricos universitários existentes neste país de meu Deus, tenho mais paciência pra isso não).
Coisa mais ridícula foi tentar tostar na praia do Cardoso ouvindo coisas do tipo "ei, pissiu, beijo, me liga..." ou "chupa, chupa, chupa que é de uva" (sim, eu sei, "sucesso" antiguinho, mas o povo gostcha). Constrangedor, pra dizer o mínimo.
Aí que casou bem com a historinha que ouvi do colunista Cacau Menezes, na tv, na hora do almoço. Disse ele que neste findi uma bombadézima casa noturna de Floripa teve a honra de receber um cliente endinheiradérrimo. O bonzão não pediu apenas uma, e sim DUAS garrafas de champagne Cristal (cada uma custando a bagatela de SETE MIL REAIS, vê se pode, e eu me achando com minhas Aurora Moscatel). Aí que nesta boate, quem pede uma Cristal tem direito a uma música (argh, que coisa cafona). E o ricão, como mandou ver duas garrafinhas, ganhou duas musiquinhas, à sua escolha. Pela excentricidade do sujeito, não podia ser diferente: o moço exigiu a execução de duas modinhas sertanejas, imagina a cara do povo.
Então é o seguintchi: ou morre torrando em casa ou adere ao style chapéu de cowboy e shortinho enfiado e cai na festa, né? Passo...

29.12.09

A Lei, o Lucky e a TV Globo

Você só percebe a partícula humana existente dentro de alguns indivíduos às vésperas das festas de fim de ano. Porque sujeito pode ser o maior pau no cu da paróquia durante os 11 meses, mas basta chegar dezembro pro cara lembrar que tem família, pai e mãe, irmãos ou um peixinho solitário que necessita de carinhos. Aí é um corre-corre dos infernos, compra de passagem, presentinhos e bibelôs mimosos para os mais chegados. Gasta-se dinheiro, energia, acumulam-se dívidas, adquire-se algumas dores de cabeça, mas... e daí? O sujeito comprovou-se humano, e não um andróide do mal.
Caso de nossa heroína suprema, Charlotte C., que a despeito de todas as estripulias e travessuras aplicadas aos próximos, de janeiro a novembro, torna-se uma santa na ocasião natalina. Porque é o momento do ano em que a morena volta pra casa. Sim, senhores, nossa brejeira paulistana tem familiares na Terra da Garoa, e os ama. Ama tanto que suporta 12 suarentas horas dentro do buzão só para abraçá-los, comer lentilha e pão de mel, embolsar algum e trotar para casa correndo ("mais de três dias junto da família e já começa a feder", costuma dizer).
Foi assim que no dia 24 de dezembro a endiabrada dos cabelos escovados permanentemente deu às caras em um enxameado terminal Tietê. Faceira com a chegada e com a temperatura agradável naquela chuvosa Londres tupiniquim (Londres com alagamentos e enchentes, claro), Charlotte sartou de banda, malinha à tiracolo, e tratou logo logo de puxar um Lucky Strike, que ela não é boba nem nada. "Não fumo em casa, boba. Meus pais não sabem. Fumo há 16 anos e meus pais não sabem", confidenciou-me, lika rebel teenager.
Pois bem. O que Charlotte não esperava era a Lei. Sim, a Lei que mudou a vida dos boêmios paulistanos. Que se para nós aqui a leizinha antifumo não fede nem cheira (basta esperar o badalar da meia-noite pra acender o primeiro de vários), em São Paulo as coisas mostraram-se diferentes. "Ao descer, dei de cara com um placão falando da tal da lei antifumo. Ok, já deu medinho. Mas decidi ignorar. Procurei um cantinho afastado e acendi unzão", contou a beldade, complementando que chupou o dito com tanta volúpia e frissón que o mesmo mal durou um minutinho. "Estava há doze hora sem fumar, o que você quer?".
Mas, ao contrário de nossa pacata e complacente Shark city, em Sampa a lei impera e se faz ser cumprida. "Já me preparava pra acender outro - o primeiro nem tinha matado o bicho - quando percebo pessoas me olhando. ESCANDALIZADAS. Sim, agora é crime fumar e eu me senti uma marginal, uma pecadora, messalina, devassa, vândala dos infernos. Um homem puxou do celular e passou a dialogar, apontando para mim. Por via das dúvidas, apaguei o cigarro ainda na metade", disse a morena.
A moça escapou da saia justa com a chegada de seus pais, que vieram recepcioná-la com flores, faixas e cartazes de boas-vindas. A chegada de Charlotte C. em M'Boi Mirim, onde reside, é sempre motivo para muita comemoração por parte da comunidadji. Na segunda-feira, no entanto, Charlotte já se encontrava firme e forte no Tietezão, abanando o lencinho branco em despedida aos seus, com uma mala extra para acomodar todos os mimos adquiridos. A boca SECA para uma pitada básica.
"Foi só a mãe virar as costas e eu nem pensei: puxei um Lucky e acendi, sorvendo-o com delícia". Muitos minutos depois é que a moça foi perceber a presença de uma equipe da Globo zanzando pelo terminal, "materiazinha básica de gente que vai e que vem, sabe como é", relatou-nos a jornalista, expert em mídias impressa, falada, televisionada, eletrônica e digital.
Não é nada, não é nada, algumas horas depois, quando a jovem senhôura esticava as pernas em Registro, toca o telefone. Mamã. Sim, Charlotte C. foi exibida em rede nacional para o mundo inteiro ver, na telinha da Grobo, fumando um cigarrão enquanto revirava os olhinhos de prazer. Seu segredo de 16 anos havia sido descoberto.

10.12.09

Cera quente, suor e lágrimas

Ah, a incrivelmente árdua missão de ser mulher... Ter que batalhar de igual pra igual com as encantadoras criaturas do sexo masculino, ter que falar grosso, socar a mesa, coçar o saco, se impôr, mas tudo com a delicadeza de uma bailarina russa. E com o aspecto o mais semelhante possível ao de uma bailarina russa.
Nós, mulheres, não podemos ter cabelos brancos. Quilos a mais. Pele ruim. Odores desagradáveis (bom, ninguém deveria ter odores desagradáveis). Não podemos andar por aí com unhas descascadas nem com pêlos em profusão debaixo do braço.
Uma amiga costumava maldizer o momento em que as fêmeas resolveram pôr as manguinhas de fora e queimar sutiãs: o princípio do fim. Sim, porque antes éramos bonecas de porcelana protegidas dentro da segurança do lar e amparadas pelo provedor-mor, o marido, este sim um ser (naquela época) ultra-valorizado. Quando precisávamos retocar as raízes no coiffeur de nossa predileção, bastava bancar a Jane Jetson e esticar a mãozinha que o esposo generosamente depositava aquela quantia suficiente para limparmos as taturanas chamadas de sobrancelhas e desfilarmos com as pernas lisas e macias como as de um bebê recém-nascido.
Hoje, para estarmos belas, frescas e joviais, precisamos reservar uma parte considerável de nossos provimentos para estes gastos considerados "supérfluos" pela macharada de plantão - que pode até não notar, mas evidentemente aprova o resultado: apareça na frente dele com as virilhas enxameadas de inconvenientes pelos pubianos, pra ver só...
Além de gastarmos rios de dinheiro, há o sofrimento, este aspecto não-variável da busca infinita pela boniteza. Pois bem, meninas. Hoje me submeti a uma daquelas torturantes sessões de depilação "íntima" pós-inverno, só imaginem... Ou não.
Não bastassem a dor e as lágrimas, que me fizeram andar a Tubalcain inteira com as pernas ligeiramente abertas, há o constrangimento. Porque, ah, senhoras e senhoras, consulta ao ginecologista é água com açúcar perto de uma vigorosa sessão de depilação. Sim. A sádic... ops, a profissional te vira do avesso, te abre, te escancara, te faz sangrar, gemer e ulular - e tudo absolutamente sem qualquer espécie de conotação sexual. O talquinho salpicado ligeiramente nas partes, no momento pós-tortura chinesa, é um bálsamo colhido no Éden.
Sofremos, pois. Tudo para ficarmos dignas, limpinhas e perfumadas. E enquanto ajeito a lingerie que simplesmente colou na virilha esquerda (restos de cera, povo), marco na minha nova agenda a data do próximo martírio, em fevereiro.


26.11.09

Nina ou Um redemoinho em minha vida

Nos meus sonhos mais dourados eu me visualizava bem-sucedida, rica, solteira mas bem amada, dona e proprietária de um apartamento lindo, tendo como companhia constante um gatinho manso e preguiçoso de bigodes espetados, um fã incondicional de uma boa soneca 18 horas por dia. Mas nem tudo acontece do jeito que a gente sonha - o que não é de todo mau, vamos e venhamos.
Aí que me vi entre a cruz e a caldeirinha quando a colega, chorosa, informou-me que seu novo senhorio proibia a presença de animais domésticos no prédio. Desta maneira, teria ela que se livrar da Nina.
A Nina eu conheci desde bebezinho - o que não é grande coisa, visto que ela só tem quatro meses. Costumava visitá-la uma vez por semana, festinhas na cabeça e na barriga por uns dez minutos e só. Encorajada pela cerveja gelada, tomei as dores da amiga e decidi, do alto da minha embriaguez: "Eu fico com a Nina!", disse, enquanto entornava mais um copo. Que decisão impactante, povo...
Trouxe a menina pra casa e, em menos de 12 horas, percebi que não poderia comportar aquele mini diabinho da Tasmânia em meu pequeno apartamento. Tapete, sofá, lençol, chinelo, perfex, esponja, tudo o que ela podia alcançar sofreu alguma consequência digamos que... desagradável.
No segundo dia de convivência eu já estava decidida a repassar a pequenina pra outra família mais paciente. A amiga aborreceu-se, mas prometeu buscar um dono suficientemente desapegado de seus bens para suportar o pequeno serzinho.
Terceiro dia, e eu às turras com Nina, destruidora de lares, Gremlim cruel, monstro devorador de: borracha, madeira, estofados, tecidos, cimento (!), couro e o que vier pela frente. Fim da tarde e toca o telefone. Era minha suposta salvadora, com a notícia redentora: "Arrumei uma dona pra Nina, ela vai te ligar daqui a pouco pra combinar de vir buscá-la".
Desligo o telefone e me vejo afogada numa poça de lágrimas e soluços.
Eu amava a Nina. Sim, eu amava aquele demoniozinho peludo e de presas afiadas que tão inconsequentemente roía meus parcos pertences.
Desespero. A futura dona em potencial ligou. Não atendi. Deixei para resolver esta dura pendência no dia seguinte. No dia seguinte, ela ligou de novo. Não atendi. E tomei a árdua decisão (desta vez pra valer): A Nina é minha e ninguém tasca. Com chinelo destruído, bolsa nova arrebentada e óculos de grife mastigado.
Como explicar um amor assim?
Cuidar da Nina é praticamente um trabalho full time. A bichinha exige atenção, chamegos, brincadeiras, exige seu lugar de honra no sofá e na cama, exige ventilador ligado, água gelada, janela aberta. Exige perfex limpinhos e novinhos para serem destruídos e terem suas entranhas espalhadas pelo sofá. Biscoitos Scooby, ração molinha da lata, água com gás, Activia, vacina cara, tosa e lacinho na cabeça (ok, isso ela não exige, mas achei de bom tom).
Apesar do prejuízo financeiro e do pouco tempo que agora me resta ao longo do dia para o cumprimento de outras atividades "menos relevantes" (como trabalho e diversão, por exemplo), ela tornou-se minha alegriazinha de viver. E como diz minha mãe: "Não tem como a depressão chegar perto com uma coisa assim". É verdade. Por mais que eu me aborreça e me perturbe com acontecimentos da vida, tudo vai por água abaixo ao olhar naqueles olhinhos de jabuticaba madurézima e sentir o poder de seus dentinhos pontiagudos na polpa da minha mão.
Tudo vale a pena por ela. Até mesmo isso:


Haste do óculos de sol e cara de culpada.

Peça do jogo americano colorido.

Pé da Havaiana.

Zíper da bolsa nova-sem-nenhuma-prestação-paga-ainda.

Quina do móvel.

Cenário de destruição.

A boneca da mãe.

3.11.09

Presentes gregos

Todo mundo gosta de ganhar presentes, certo? Não necessariamente... alguns presentes acabam se tornando incrivelmente gregos, e aí, queridos, há muito pouco o que fazer. Não dá pra remediar o estrago quando você presenteia a amiga com aquele seu perfume favorito - mas que para ela tem cheiro de cadáver. Não se tem muito o que fazer quando o amigo secreto olhou torto para aquela calça jeans número 42 - sendo que ele veste 55 e você, é claro, só foi notar tardiamente. Não há nada pior que a cara daquela tia antipática ao abrir seu presente comprado com tanto sacrifício e se deparar com xícaras made in China, com aquele decalque adesivo colado e tudo, sendo que a fina só usa porcelana eslovaca.
Eu, por exemplo, que até ontem me achava um poço de bom gosto e sofisticação, senso e sensibilidade, amarguei horrores com um ex-namorado ultra-exigente. Acho que o pobre nunca ganhou um presente que realmente gostasse de moi aqui (foi por isso que terminamos, não sabiam?). Num Natal fiquei faceira ao comprar, em segredo, um MP3 (dos baratinhos, eu confesso). A cara de raiva que o moço fez quase me fez regurgitar o peru.
Charlotte já passou por situação semelhante - mas como vítima. Nossa querida heroína, ultimamente voltada ao universo acadêmico, esperou ansiosa pelo tão importante Dia do Professor - afinal, era muito provável que rolasse um algo a mais que maçãs importadas do Angeloni. E rolou.
Fim do expediente e a morenaça dos cabelos de fios de aço escovado mais aloprada da paróquia do São Judas Tadeu foi surpreendida pela chefa, na porta de sua sala de aula, enquanto embalava os fichários, boletins e Trabalhos de Conclusão de Curso dos aluninhos. "Oiiii... tem uma surpresa pra ti na minha sala!". Os olhos de Charlotte, que não dispensa nem injeção no baço se for de graça, brilharam alucinadamente de alegria e expectativa. Mas, ao adentrar o recinto da big boss...
"Um beta? Um peixe? É isso mesmo?", retrucou, sempre muito polida e diplomática.
"É. Um peixe. Achei que seria legal pra te fazer companhia, já que tu moras sozinha...", alfinetou a autoridade.
"Mas um peeeeixeeeee??? Eu já tive peixe. Eu mato peixes. Não me dou com peixes. Não quero esse peixe", argumentava Charlotte, tentando discretamente dispensar o mimo.
"Mas guria, você é uma jovem que trabalha na área da educação, disciplinando, educando, preparando. Conviver com um bichinho em casa vai facilitar seu relacionamento com as pessoas".
Charlie pensou em agarrar um machado e decepar o crânio da atrevida, mas fingiu-se convencer e, contendo um resmungo, botou o aquário (daquelas redondos, de 1,99!, contava depois, indignada), debaixo do braço, com o beta vermelhinho dentro, e bóra pra casa comer bolacha.
"Ainda se fosse um azul... o vermelho eu já tive, morreu...". Pobre peixinho vermelho.

O maior espetáculo da Terra?

Até lembro da bolsa que eu usava: uma vermelhinha, linda, onde guardei algum dinheiro para comprar quitutes. Tinha sete anos e foi minha primeira experiência no circo. Não lembro de ter gostado - ou não - mas naquela época o Vostok era O circo e não podíamos desperdiçar a oportunidade. E o maior espetáculo da Terra vinha completo: malabares, equilibristas, mágicos, palhaços anões, leões, tigres, macacos (possivelmente maltratadíssimos, mas ninguém ligava) e até Globo da Morte, experiência traumática pra mim, que não pude com aquele furdunço - deve ser por isso que tenho pavor de ronco de motocicleta, coisa de pobre farofeiro que financia a CG em 42 meses.
Mas havia a proximidade: a casa da avó era ao lado do local onde circos (e parques de diversões - Tupã, invariavelmente) montavam acampamento. E a visitação era permitida, sempre. Anos depois vi uma das cenas mais deprimentes da vida, um elefante acorrentado pela patinha. Digo patinha porque era uma patinha mesmo, difícil reconhecer aquela criaturinha magérrima e sofrida, mais um dog alemão do que o nobre gigante da Savana. E ele chorava. Sobre a pele empoeirada do rosto corria uma lágrima grossa, coisa que me fez soluçar de angústia (sabe-se lá se não era apenas pra lubrificar os olhos). Aí passei a odiar circo com apresentação de animais de todo o coração. Horror, repulsa. E, please, poupem-me dos discursinhos pró-mundo circense, pode-se fazer muito melhor, Cirque du Soleil taí pra confirmar.
Mas aí veio a sobrinha e suas inúmeras vontades. Quando anunciaram que os Backyardigans fariam uma apresentação em minha querida Shark city, não pensei duas vezes em levar a pequena. E esta apresentação, vejam só, era num circo - sem animais, pelo menos.
Mais de vinte anos após minha primeira experiência circense, pude perceber a tão propalada "falência" desta modalidade de entretenimento e
cultura. Os artistas hoje são em número reduzido - e executam tarefas múltiplas. O vendedor de pipocas e algodão doce aparece, minutos depois, dançando no picadeiro, girando no Globo da Morte (maldita CG) e, outra vez, vendendo bugigangas (que certamente é o que garante a sobrevivência da trupe - o comércio de quinquilharias e guloseimas mil).
Para encanto da menina, o palhaço Batatinha (Renato Aragão e Praça É Nossa não sabem o que estão perdendo) surge momentos após sua divertidíssima (not!) apresentação vendendo batatas chips, daquelas encharcadas de óleo re-re-reutilizado.
O engraçado era ver a galerinha - maioria absoluta composta por jovens dos 20 aos 30 - do palhaço à contorcionista, passar faceira vendendo coisinhas e deixando um rastro de marofa pra trás, hahahaha... A vida no circo deve ser curiosíssima.

Mas não se pode negar a magia e o encantamento exercidos pelo circo: meu acompanhante de ocasião, por exemplo, mostrou-se tão deslumbrando com a vida mambembe que se dispôs a largar a dura jornada de jornalista e cair na estrada encarnando o Tyrone e a dança com varas em chamas. "Isso eu sei fazer", garantiu o sujeito.



Tyrone é muito bem tratado no Circo Italiano...

6.10.09

O bom companheiro

Parece até uma daquelas amiguinhas da adolescência, com quem cruzávamos a cidade de braços dados, olhando vitrine, e com quem passávamos horas a fio penduradas no telefone após uma manhã toda lado a lado da sala de aula (né, Lô?). A diferença é que agora somos pessoas maduras e bem resolvidas, ricas e com carro imaginário na garagem. Também falamos muito mais sobre sexo - e com mais conhecimento de causa. Quer dizer, falamos uma vírgula: ELE fala. Fala muito. Tudo deriva do sexo e ruma pro sexo. Uma putaria só.
No início confesso que estranhei. No meu universinho até então praticamente todo composto por amiguinhos do sexo feminino, V. chegou destoando. Porque não tem falsos pudores e moralismos vãos. Mas isso só fui perceber depois. E quando se percebe, meus amores, V. se torna indispensável em qualquer vidinha que precise urgentemente sair da monotonia.
Tornou-se meu parceirinho para o que der e vier. Jura que vai me fazer encontrar o príncipe encantado (e é exigente, só considera homens loiros, olhos azuis e com mais de 1,80m, como se eu estivesse podendo tanto, haha). Por via das dúvidas - e para nos blindarmos contra a solidão, programamos casório: em cinco anos, se nada de bom acontecer, iremos unir os trapinhos. Queira Deus que um sapo qualquer me despose até lá.
Em nosso último encontro, uma de suas hilariantes tiradas. A amiga sugere que ele se apresente ao novo vizinho (que tem namorado, mas "não dá nada").
"Você bate na porta com uma xícara na mão e diz: Moço, tens açúcar?"
Rápido e rasteiro, e sempre muito prático, ele sugere outra abordagem: "Que nada. Melhor bater na porta com uma camisinha na mão e perguntar: Moço, tens um pau?". Este é V., em sua mais puríssima essência.

22.9.09

Vida e morte

Contando assim até pode não parecer, mas é claro que ela é a melhor pessoa do mundo. Generosa, um coração de ouro, dedicada aos seus e aos outros - às vezes mais aos outros que aos seus. Foi por isso que acabou sendo "descoberta".
Há alguns anos foi convidada a cuidar de uma idosa que agonizava no hospital. Carinhosa, comunicativa, não demorou para conquistar a todos - os familiares e a própria moribunda. Fervorosamente católica (mas com pretensões espíritas, se é que dá pra entender), sabia perfeitamente como amenizar aquela atmosfera de dor e despedida, cantarolando seu repertório variadíssimo, que vai de Padre Marcelo ao Fábio de Mello, passando pelo Zezinho.
Após o falecimento da velha, sua fama já havia corrido o mundo. O telefone nunca mais parou. Desde então acompanhou as mais diversas personalidades em seus últimos momentos na Terra, transmutando a tristeza de amigos e parentes em resignação, confortando e tranquilizando com palavras doces e serenas.
Até a semana passada. Acontece que ela jamais consegue dizer não. E foi assim que aceitou acompanhar uma senhora em fase terminal de um câncer. Passaram-se dois, três dias, e a senhora, já em seus estertores, teimava em se agarrar a esta tão desgraçada dimensão.
"A velha não morre!", desabafou, em visita à filha. "E amanhã é a inauguração da paróquia. E com o padre Edison!", antevia, deslumbrada pelo evento do ano.
Dez horas da noite e a filha é surpreendida pela campainha estridente. Pelo olho mágico, enxergou o sorriso de felicidade da mãe. Abriu a porta e nem teve tempo: "A velha morreu!", comemorava, faceira. Sua presença na missa-estreia estava garantida.


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Já falei, e não minto: ela é realmente a melhor pessoa do mundo, e se teve a frieza de comemorar a morte de uma pobre velhinha é porque sabia que ela seria mais feliz partindo desta para uma melhor.
Antes de ir embora, lembrou do marido da recém-falecida, também tratando-se de um agressivo câncer. "Ao receber a notícia da morte, desabou numa cadeira e chorou copiosamente, cobrindo o rosto encovado com as mãos".
Subitamente séria, revelou-me: "Quando a família a trouxe ao hospital ela ainda estava bem, falante. Despediu-se do marido dizendo: volto logo, meu amore!", contou-me, enquanto secava uma lagrimazinha travessa que cismava em escapar por debaixo dos óculos.


Zapping

Eu definitivamente não nasci para passar uma noite de sexta-feira trancada em casa - mas eventualmente esta se torna sua única opção, quando todos os seus amigos arranjam coisas melhores para fazer, como chat line, dormir ou "ficar no meu cantinho".
Aí eu abri uma cerveja, enrolei-me no cobertor azul e dei início a uma saudável zapeação desenfreada. Foi quando meu pesadelo começou.
A primeira opção, no AXN, não teria sido tão ruim caso eu não tivesse assistido A Balada do Pistoleiro umas quatro vezes.
Queria ver um filmaço, um blockbuster recordista de bilheteria em algum momento da história do cinema, com bons efeitos, bom roteiro, bom elenco. Passei para o FX e... Jurassik Park. Argh.
Aí de repente pensei em uma comediazinha romântica leve, adocicada, besta, deste gênero com o qual não tenho a menor afinidade, mas que abriria uma honrosa exceção naquela fria e solitária noite de sexta. Pulei para a Warner e encontrei Ben Stiller choramingando em Quero Ficar com Polly. Putz.
Decidi então que queria assistir apenas uma comédia, sem romance, sem água e açúcar. Queria rir, desopilar o fígado, abstrair. Passei para a Sony e quase vomitei: Terapia de Choque. Adam Sandler e Jack Nicholson em fim de carreira? No chance.
Aí fiquei melancólica, carente, manhosa. Queria uma bela história de amor. Na Fox Life rolava O Casamento do Meu Melhor Amigo. E bem na hora que o Rupert Everett começa a cantar a minha música preferida:
"I'm the morning I wake up
before I put on my makeup
I say a little prayer for you..."
Percebi que não seria o melhor remédio e passei para o Fox Life. Sim, sou fã incondicional dos trash, mas uma Sexta-feira 13 com um Jason que surge no meio de jogos de realidade virtual não rola. Coisa mais podre ever, e sem ser engraçado, o que é lamentável.
Ainda tentei o A&E (Men in Black) e a Warner, mais uma vez (O Professor Aloprado, hahaha).
Finalmente recuperei a sanidade e lembrei que existem outras coisas no mundo além da programação da TV. Não pensou em internet, né?
Então fui lá e retomei meu Virgínia Woolf. Quinze minutos depois, estava dormindo.

10.9.09

The Other side

Pois bem. Como nada na vida é por acaso, aproveitei minha ida à Shark City para retornar ao blog imediato. Amei a cidade, amei mesmo, linda, linda. Gostei tanto que em breve me mudarei para assumir o posto de Secretária de Assistência Social. Sério...de onde saiu tanto pedinte? Aqui em Joinvils city, existe a lenda de um delegado que recolhia todos os andarilhos da cidade para os desovar na Serra de Curitiba. Acho que nas terras tubaronenses alguém deve ter feito o mesmo, só que na cabeceira da Ponte Heriberto Hulse. Quanto à vingança, sim, tenho planos para a cara parceira blogueira conhecer a Cidade dos Príncipes, mas isso é papo para outro post. Este não é um bom incentivo para continuar esta história Imediata?

8.9.09

As Imediatas: o reencontro

A TV não cansa de mostrar, em filmes, séries e afins, aqueles eventos em que se promove o encontro de uma turma de colégio/faculdade muitos anos após a formatura. Homer Simpson já esteve em um; Peter Griffin too. Até a Globo já fez minissérie baseada nesta premissa, a Queridos Amigos.
Invariavelmente, cabe a estes colegas provar o quanto se tornaram ricos, bem sucedidos, bem empregados, vitoriosos e prósperos. Às mulheres, há de se ter filhos, uma bela casa própria, carreira de sucesso (a faculdade serviu pra que?); aos homens, a obrigação de ter fisgado a mais gostosa do quarteirão - gostosa e honesta, o que é bastante relevante. Carro do ano, joias, uma eventual estola de vison dependurada nos ombros, caso faça frio. Bons dentes, ausência de cabelos brancos, o que se quer é impressionar, sejamos francos.
Os que não conquistaram tudo isso ou vão mentir ou faltar ou ainda irão comparecer e vagar pelos cantos, torcendo para não serem vistos e interrogados.
Claro, tudo isso aí de acordo com o imaginário castrador, implacável e capitalistamente selvagem de Hollywood. No Brasil estes encontros sempre acabam em festa, cachaçada, ricos se misturam aos pobres, uns pedem emprego aos outros e o pagode se estende até as oito da manhã.
Neste fim de semana promovi um mini-encontro entre moi e uma grande amiga dos dourados anos universitários.
Éramos ambas incrivelmente jovens, bestas e imaturas, e perdemos grande parte da diversão sendo fiéis e dedicadas aos nossos namorados (jovens, não namorem durante a faculdade, fikadika). Naquela época nossos fantásticos planos para o futuro se resumiam em 1) trabalhar na Marie Claire (hahahahahaah) e 2) casar antes dos 25, com nossos respectivos companheirinhos.
Mesmo com a (relativa) distância, Stellita B. e eu mantivemos os laços de amizade e demos início a este bloguinho cor-de-rosa e abusado. Sim, ela é a outra imediata que dá título ao blog, apesar de suas esparsas contribuições (não posso deixar de alfinetar, néam?).
Após nove longos anos, nos reencontramos, finalmente, em terras sharkcitianas. Não pude conter a lembrança (e é esta a razão do longo nariz de cera) dos "bailes de reencontro da turma de 1984", que a gente vê na TV. Porque se a falta de um super emprego como editora da Revista Piauí, a ausência de filhos ou ainda de um marido rico, lindo e apaixonado não me constrangem, outras ocorrências contribuíram para que eu escondesse meu rico pescocinho na areia.
Em dois dias pela cidade, Stellita foi abordada por sete andarilhos sedentos de atenção, conheceu alguns de nossos admiráveis pontos turísticos, como pontes Nereu Ramos e Heriberto Hülse - além da pênsil, que é luxo e alegoria (e eu falo sério, adoro), viu a cidade coberta de bosta do início ao fim da M.M.Cabral (maldito desfile de 7 de Setembro!), comeu no Hard Dog (yeah!) e ainda assistiu show com Kátia Cega (depois posto foto). Também degustou um churras safado e saboreou uma casquinha na sorveteria mais badalada da city (onde foi devidamente xavecada pelo proprietário, solteiro e deslumbrante).
Além de tudo isso, ainda levou impressionantes OITO HORAS para chegar em território seguro (Joinville, onde mora): feriadão com sol é a maldição dos catarinenses viajandões.
Mas valeu toda a pena (pelo menos para mim). Apesar dos inúmeros momentos de constrangimento, conseguimos botar pelo menos uns quatro anos de fofocas acumuladas em dia. Só temo pelo dia em que resolver visitá-la na Terra dos Príncipes: qual será sua vingativa programação especial?

Saindo da rotina

Deve ser por isso que levo tanto tempo para voltar à minha Ilha predileta - esta capacidade inata de me envolver em confusões - ou de, pelo menos, presenciá-las.
Cheguei lá no fim da tarde de sexta-feira e o amigo-anfitrião deixou-me abandonada, mala, cuia e cofrinho à mostra, por mais de uma hora no Rita Maria. Juro que tive ímpetos de (re) tomar o caminho da roça (nada mais justo que roça, quando se trata de Shark city).
Mas persisti e finalmente o motorista veio me buscar, de limo (tash tolo que ando de outra coisa em Floripa?).
Depois de algumas flutes bem geladas, para esfriar meus ânimos, tomamos o rumo do meu bar favorito ever - e fomos barrados pelo gentil pelotão de fuzilamento do clube, denominados seguranças e recepcionistas.
Todo o sofrimento valeu a pena ao rever amigos queridos e flagrar nossa pequena deusa egípcia do amor abocanhar mais uma vít... digo, mais um coração.
Mas foi no outro dia que o pau pegou (hahahahah). Inspirados pelo hilariante Brüno, saímos saltitantes pela selvagem vida noturna mané. Serei discreta, mas confesso que presenciamos cenas do filme sendo repetidas, ao vivo e a cores. Pânico na Rio Branco.
Aí no domingo foi preciso recobrar as energias, com um almoço tranquilo num belíssimo lugar. Eu viveria disso sem o menor peso na consciência.
O findi terminaria razoavelmente bem não fosse a Santo Anjo ter enviado minha mala (e minhas novas aquisições) para Porto Alegre. Mas isso fica para outro dia.

18.8.09

O hábito que faz a monga

É fato, todos nós temos nossos velhos e bons (ou terríveis) hábitos, dos quais sequer nos esforçamos para nos livrar. Dormir de meias, comer um doce depois do almoço, fumar um cigarro antes de ir para a cama, conferir os emails logo que inicia o computador, todo mundo, de maneiras diferentes, segue um protocolo particular ao longo do dia. Deixar estes hábitos (ou manias, ou esquisitices) de lado é sair da rotina - o que, muitas vezes, pode até parecer desagradável.
Li dia desses, num dos blogs que acompanho (não lembro qual, mals aê), a história da menina que era tão habituada ao uso de sutiã que, belo dia, percebeu-se debaixo do chuveiro com a peça, já irremediavelmente molhada.
Uso óculos desde a mais tenra idade e, ao contrário do que poderia parecer, sei exatamente quando me livrar do bichinho: não consigo, nunca, dormir com ele na cara. Também nunca entro com o danado no banho. Nem propositalmente. Tanto é que tive que fazer um esforço hercúleo pra levá-lo pra baixo do chuveiro. Explico: ganhei um liquidozinho limpador muito do eficiente, na ótica, e antes de aplicá-lo deveria lavar o óculos com água e sabão. Nada melhor do que inaugurar meu chuveiro recém-consertado (yes! eu tenho água quente!) levando meu querido comigo. Mas quem diz que eu consigo? Parece um bloqueio, algo quase físico.
Existem hábitos dos quais a gente não consegue se livrar, amigos. E é triste, às vezes. Ontem, fim de tarde, desci com o lixo (coisa que frequentemente esqueço de fazer). E bem na frente do prédio dou de cara com um tipinho fofo, todo arrumadinho, tipo "estou saindo do escritório agora e vou pra um happy hour now". Ele me olha da cabeça aos pés. E antes de entrar em seu joguinho de sedução, percebo que estou usando meias e Havaianas. MEIAS E HAVAIANAS.
Morri.

16.8.09

Banho de água fria

Era 2001 e eu morava em Recife, fazendo sabe-se lá o que. Tínhamos uma doméstica, indicada pelo porteiro (a senhora era a sua mãe), que limpava e cozinhava. Humilde, a mulherzinha vinha trabalhar todos os dias, bem cedinho, de pés descalços. O único par de sapatos era reservado para os cultos da igreja que frequentava. Era "inverno", naquela região do país (hahahaha), e os termômetros registravam agradáveis 27 graus. Sim, muita gente andava de cacharrelzinha de lã, tiritando de frio, enquanto a moçoila aqui suava em bicas a regatinha (eu disse regaTinha, com T).
Belo dia e a senhora, cabisbaixa, faz um pedido inusitado: queria permissão para tomar banho de chuveiro "elétrico". Com mais de 50 anos de idade, ela nunca havia tomado banho de água quente. E, como estávamos "no inverno"...

Desde sexta-feira tenho encarado o chuveiro em sua versão mais cruel, principalmente para os padrões sul-catarinenses: frio. Ele não explodiu, não se incendiou, nem fez aquele barulhinho pavoroso indicando que a resistência já era. A água simplesmente ficou gelada. E eu não fujo de minha herança tupi-guarani, senhores: enfrento o chuveirinho assim mesmo, de peito aberto (quer dizer, bem encolhidinha, pra falar a verdade), que minha porção portuguesa é absolutamente irrelevante para me convencer a ficar sujinha.
E ao contrário de alguns conhecidos, eu não tenho a menor habilidade para reparos gerais: mal sei trocar uma lâmpada; botijão de gás, nem a pau (medo de deixar vazar), há meses venho sofrendo com um vazamento ridículo na pia do banheiro. Nem ouso esticar a mãozinha pra mudar a temperatura do chuveiro (e se levar choque?).
Felizmente, tenho pessoas jeitosas na família que, queira Deus, poderão livrar-me deste infortúnio. Espero que o socorro venha logo, já estou sentindo uma incômoda pontada no pulmãozinho...