27.6.09

Black or White

O melancólico fim do Rei do Pop deixou seus milhares de admiradores com aquele gosto amargo na boca e a sensação de um trabalho não finalizado da maneira como deveria ter sido.
Minha frustração infantil foi nunca ter conseguido fazer o moonwalk - nem nada parecido às acrobacias e contorcionismos deliciosos do astro.
Michael Jackson foi, para mim, aquilo de mais próximo a um ídolo alguém pode ser para uma pessoa. Eu, que não tenho ídolo algum. Durante muitos anos meu momento especial da semana acontecia aos domingos, quando não "existia" TV a cabo e quando o Fantástico era a melhor opção da televisão brasileira (faz tempo, hein? Agora perde até para o A Fazenda).
Porque existiam os clipes do Michael, anunciados à exaustão sob o título de "exclusivo". Eu simplesmente AMAVA estas ocasiões, a família reunida babando com aquele dançarino fantástico de voz tão potente e aguda, com hits que grudavam na cabeça e te faziam cantarolar por horas a fio.
Até que anunciaram um clipe considerado espetacular em matéria de efeitos especiais - vindo de MJ, devia ser verdade. Era Black or White. Pirei. Dei plantão na frente da TV durante todo o domingo, ansiosíssima. Quando o apresentador (seria a Glória Maria?) finalmente anuncia a atração... BUM! Ficamos sem energia elétrica no bairro todo. Pude ouvir, acima do meu próprio uivo de lamento, o "ahhhhhhhhhh" de tristeza vindo dos lares vizinhos. Chorei. Chorei e amaldiçoei a Celesc pela mancada (sabe-se lá o que tinha acontecido, pobre Celesc).
Coisa de 20 minutos depois, volta a energia e eu grudei na telinha na vã esperança de que o clipe ainda estivesse passando. Mamã já foi cortando o barato: "Imagina, não foi nenhum blackout nacional, o mundo continuou funcionando enquanto estávamos no escuro". Nó na garganta.
Perambulei pela sala, desacorçoada, esperando o boa-noite dos apresentadores para finalmente ir dormir. "Amanhã na escola só vão falar disso e só eu que não assisti!".
Até Glória Maria anunciar, de supetão: "Recebemos um grande número de ligações de telespectadores pedindo para exibirmos o clipe do Michael Jackson mais uma vez. Vamos a ele!".
E o programa encerrou com a carinha de MJ, já branquíssimo, transformando-se em uma mulher morena, que se transformava em um homem loiro, que se transformava em um negro, uma ruiva, uma asiática, todas as raças, todos os rostos. Neste noite eu fui muito feliz.

Diploma, talento, conhecimento

Desde que o Supremo Tribunal Federal derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, tenho acompanhado as mais indignadas manifestações, por parte de meus colegas de profissão - hoje, infelizmente, existentes em número muito maior. Felizes ou infelizes, satisfeitos ou desapontados, com ou sem o canudo, agora tão dispensável, o fato é que nós, jornalistas, temos que agora garimpar em um mercado de trabalho subitamente muito mais restrito (dado o aumento da oferta de mão de obra).
Muita calma, no entanto. Como disse Antônio Tabet, do site Kibe Loco, em visita a Shark city, onde palestrou para universitários, "talento muitos podem ter (ou achar que têm). Mas conhecimento, só quem vai em busca dele". Ânimo, portanto. Temos um diferencial, senhoras e senhores, não o subestimem.
Se você quisesse reformar sua casa - mas desejasse um serviço realmente decente - chamaria a quem? Um arquiteto ou um pedreiro?
Tabet arriscou ser freneticamente vaiado ao dizer concordar com a determinação do STF - afinal de contas, o homem falava para uma plateia de estudantes de Jornalismo, que certamente não está exatamente feliz por pagar uma fortuna mensal por um fruto que já nem vale mais estas coisas, hoje.
Ele lembrou que a obrigatoriedade do diploma foi mais uma das autoritárias imposições da Ditadura Militar, como forma de calar, de censurar, de controlar a informação. Mas, ora bolas, se hoje existe alguma espécie de órgão repressor e cerceador da liberdade de imprensa, este se chama "anunciante". E esta censura não há diploma (ou a falta dele) que possa combater. Infelizmente, diplomado ou não, o jornalista hoje aceita e se resigna às leis do mercado.
E mesmo surgindo de uma determinação tirana e parcial, ainda assim a necessidade do diploma tem sido muito útil à sociedade - não se pode desconsiderar os benefícios que um curso superior nesta área te oferece.
Há que se ter talento? Sim. Mas também há que se ter conhecimento. Quer expressar sua opinião sem seguir as instruções repassadas nos bancos universitários? Abra um blog. Problema resolvido.
Agora só nos resta torcer para que a Proposta de Emenda Constitucional que restabeleceria o diploma como condição indispensável para o exercício da minha profissão não seja só conversa fiada.

21.6.09

Love is in the supermarket

Para as que não acreditam na chegada de um príncipe montado num cavalo branco - e para as que já passaram pela fase mais baladeira da vida - a busca por um par ideal é uma árdua tarefa (principalmente se voce já passou dos... cofcof... 25 anos). Mas nem pensar em desanimar, não é mesmo, minha gente? Até porque a procura é uma das partes mais emocionantes em uma relação (not!). Numa rápida ida ao supermercado, dia desses, lembrei-me dos sábios conselhos da Cosmopolitan (contém ironia). A revista-da-mulher-solteira-mais-desesperada-ever costuma trazer dicas das mais curiosas para apimentar a monótona vida das panelas sem tampa e dos sapatos velhos sem pés cansados (mmmm, deu um nojinho, agora). Uma das dicas mais hypadas incentivava as muiézinhas a tomar o rumo do angeloni mais próximo fazer comprinhas com segundas intenções. Porque, de acordo com a publicação, um supermercado, dependendo do horário, pode ser um puta de um lugar pra azaração comer solta, entre chuchus, abobrinhas e desinfetantes. Háhá.
Mui bien. Eu, bem instaladinha aqui nesta Shark city do meu coração, onde a regular single life termina obrigatoriamente aos 25, aventurei-me, dia desses, fim de tarde de domingo, ao super da esquina. E voilá! Acho que descobri a fórmula do amor! Sim, meninas e meninos de coração desocupado, existe muita sedução por entre as gôndolas. Prova disso foi o alemãozinho de olhar maroto que me abordou enquanto eu escolhia um pacote de macarrão. "Você deixou cair isso?", sacudindo um pacotinho de Vono. Não, eu respondi.
Sem falar do galantíssimo Clark Kent que pediu socorro à Lois Lane aqui para decifrar qual marca de detergente multiuso sua mamã estava se referindo. Leva o Veja, recomendei.
E o moreninho belzebu, cheio da ginga, que puxou papo lamentando pelo desaparecimento do quiosque do Mioshi. Pena, não é mesmo?, arrematei.
Sim senhores. Em meia horinha de compras, três abordagens das mais interessantes, todos sozinhos (ainda que não necessariamente solteiros, who knows?) e bastante compenetrados na arte do flerte.
Aí o problema foi comigo mesma. Desacostumada com esta vida de guerreira reprodutora, fiquei absurdamente inibida e sem graça. É, eu praticamente fui embora correndo do super, deixando o pacote de macarrão e o molho de tomate. Mas calma, tudo tem seu tempo. Eu hei de me readaptar a esta vida de romance.
Dica importante: quando partir para uma sessão de compras "in love", nada de pôr mercadorias como pacote super size de papel higiênico ou sabonete líquido íntimo canforado no carrinho, olho vivo. Bota um batonzinho nesta boca e se joga.

13.6.09

Isto é homem ou mulher?

Aquela noite foi precedida de muita expectativa. Há mais de uma semana planejávamos adentrar aquele ambiente abalando as estruturas. Afinal de contas, baladas gay não acontecem em Shark city todos os fins de semana. E é fato: mulheres hetero, solteiras e desencanadas, like me, amam uma boa baladinha gls pra desestressar.
Trouxe o amigo de Floripa, cheio das (más) intenções, alguns integrantes do bonde compraram roupas novas, foi uma sensação. E, finalmente, após duas espumantes finíssimas e generosas doses de gim com sprite (hahaha, old school), embarcamos para a balada do ano. O-ow...
Cerca de 50 adolescentes gays afetadérrimos sacaroteavam e batiam cabelo pelo salão, ao som de um djzinho bem do meia-boca, incapaz de tocar qualquer coisa de Lady Gaga. Deception... mas nosso pesadelo não parava por aí.
De repente uma criaturinha, gênero não definido, de 1,40m, babylook justérrima ressaltando seu corpinho de tronco de palmeira anã, laranja fósforo queima-retina, abraça seu partner, de 1,90m, pela cintura - com as pernoquinhas curtas - e começam a girar loucamente pelo salão.
Um jovem rapaz exibia a musculatura flácida dos bracinhos a bordo de uma regatinha preta bem cavada - temperatura da náite: 5,5 graus. Outro investiu no look xadrez: jaquetinha bege xadrez escocês, calça marrom xadrez príncipe-de-gales. Doia no coração.
Muitos abusavam dos já datados acessórios lenço palestino e chapéu fedora. Às sapatinhas, restaram os all-stars e os jeans paga-cofrinho. Todas idênticas.
Até que surge o momento auge da noite: um tresloucado invade o ambiente, faceiríssimo, gritando a plenos pulmões: "Fiz sexo no banheiro! Fiz sexo no banheiro!". Time to go home.
É claro que todos têm o direito de se expressar da maneira que bem entender, mas achei meio triste o fato de as bichinhas sharkcityanas recusarem terminantemente descolar da imagem estereotipada que os não simpatizantes fazem dos gays. Sei lá, não tinha exceção.
A pergunta que mais se ouviu ao longa da sofrida balada foi: "Isto é homem ou mulher?". Juro, era difícil identificar.

25.5.09

Casamento grego

Minha família tem algumas particularidades notáveis. No entanto, a praticidade para encarar alguns temas cavernosos é o que mais se ressalta. Aquele projeto não sai do papel? Descarte-o e inicie outro. Chateado com o emprego atual? Saia agora mesmo distribuindo currículos (essa é procê, Lô). Cansou do visual? Passe máquina zero. Não gosta da cidade onde vive? Afivele as malas que já estou chamando o caminhão do frete. Descasou? Ora, ora, case-se novamente! AGORA! 
Eu bem que gostaria de ficar no meu cantinho, sossegada e inexplicavelmente feliz com minha recente solteirice (inexplicável pros outros, não pra mim, mas ninguém me acredita...). Mas há a família. Ahhhh, esta família... promete não me dar folga enquanto eu não surgir, radiante, de aliança dourada no anular. 
Para ela (a família), não há felicidade fora dos laços sagrados do matrimônio. Mas meu problema não é exatamente este. Elas (as familiares) podem sim alimentar sonhos e devaneios envolvendo a minha pessoa, um altar, véu, grinalda, um belo noivo e uma gestação tranquila e bem-sucedida dois meses depois. Claaaro que podem. O problema é quando tentam pôr estes projetos em prática. 
Aí que minha formosa mommy surge para uma de suas hoje tão frequentes visitinhas com uma proposta "irrecusável": divorciado, um filho pequenno, engenheiro, "trabalhador" (destaque para trabalhador) e cheio de amor pra dar. Argh. 
Ela e minha adorável tia Madame Louise simplesmente não aceitam "não" como resposta. Eu devo justificar. Mas não o faço, porque não terminaria em menos de 12 horas consecutivas de violento parlatório. Aí dá-se o impasse. 
Quem já assistiu ao divertido "Casamento Grego" deve saber bem o que eu estou passando. Para desencalhar a solteirona, a família promovia um verdadeiro desfile de aberrações pela mesa do jantar, para ver se a moça se animava. É, se no fim da história eu encontrar um sujeitinho minimamente parecido com o galã do filme, dou-me por satisfeita.  
Solteiros, viúvos e divorciados da paróquia, corram! Vocês já estão sendo devidamente sondados. Bom, pelo menos por enquanto consegui driblar o engenheiro. Minha progenitora teve que admitir que ele combina mais com minha irmã...  

19.5.09

Mendicância

Era uma terça-feira de outono, de um longíquo ano de 1996, e eu me encontrava confortavelmente sentada em uma das janelas do edifício Portinari, na residência que me abrigou no primeiro ano de vida universitária, em Florianópolis. Esperava minhas adoráveis roomates para, juntas, assistirmos a novelinha das sete na nossa big TV de plasma (contém múltiplas ironias, como podem perceber). 
De repente, batem à porta. Dona G., hoje uma linda e jovem mamãe, chegava na companhia de dois desconhecidos, abraçados a uma garrafa do importadíssimo "Sanguê du Boá" e de uma colorida e apetitosa embalagem de Doritos "sabor pizza", que, evidentemente, tornou-se nossa janta da noite (universitários não têm lá grandes preocupações com índices nutricionais). Naquele momento entravam em nossas já animadas vidinhas Giu e Clarissa. 
Apresentações feitas, decidimos abrir o vinho, que foi delicadamente apreciado em nossas taças de cristal da marca Vigor (ou Parmalat, se não me falha a memória). Como éramos seis - destes, cinco mulheres afogueadíssimas e loucas para sair da rotina - a bebida não obteve sobrevida muito longa. Partimos para o Sanguê du Boá que repousava em nossa adega, este também rapidamente consumido. Aí surgiu a dúvida: o que beberemos daqui pra frente, que a noite é longa? 
Recolhidas moedas de todos os recantos e bolsos, partimos eu e Giu para o super-Amigo ao lado do prédio, na Esteves Júnior. Lá dentro, o perhaps. Possuíamos o suficiente para três garrafas e 3/4. Faltava-nos alguns meros centavos para trazermos, triunfantes, a quarta garrafinha do precioso líquido importado de Bento Gonçalves. 
Conversa vai, conversa vem, de repente, um "senhor" (hoje imagino que o homem deveria ter menos de 40, mas para meninas de 18 incompletos...) nos interrompe e, apressado, despeja moedinhas suficientes para o "troco de bala". 
Não chegamos a pedir, mas certamente nossas conversas já alteradas no corredor e nossas mãozinhas estendidas, contando moedas, inspiraram o generoso homem a fazer sua contribuição ao alcoolismo juvenil. Saímos faceiros como andarilhos que ganham o suficiente para mais um trago de Velho Barreiro. 
Os vinhos foram consumidos como encontrados nas prateleiras do super - temperatura ambiente - e aí você calcula uns 20, 22 graus. Ganhamos a noite. 
Não vou nem relatar o momento em que Giu, incentivado pelas meninas, surgiu montado com a mini-mini-minissaia de Janete. E nem quando, semi-inconscientes, rumamos para o bar mais ilhéu da Ilha (hein?). Nunca uma esmolinha foi tão bem aproveitada... 

12.5.09

TPM, esta maldita (ou Carefree é frescor)

Dores por todo o corpo, enxaqueca, humor canino, irritabilidade, nervos à flor da pele, choro incontido. Não é fácil ser mulher, senhores, definitivamente. M. contou-me que no fim de semana chorou de soluçar e arrumou briga com o noivo, "este santo homem", só porque deu vontade. "TPM, nega", confidenciou-me. Eu já havia adivinhado. Charlotte, aquela diaba, já bateu boca com o caixa do supermercado (sempre ele), xingou um mendigo folgado na rua, chutou cachorro para em seguida cair em prantos abraçada ao pobre animal, não foi a festas, pediu dispensa do trabalho, tudo por conta dela, o terror de 85 entre 100 mulheres (chute baixo), a Tensão Pré Menstrual. 
A medicina não confirma, mas é muito provável que mulheres saltitem à beira do abismo da loucura crônica durante estes intermináveis dias. Basta um escorregãozinho, facilitado pelo salto 15, para se atirar de vez no universo da insanidade total. "Na TPM, sou bipolar", ouvi por aí, dia desses. 
Tem gente que exagera. Ou porque sofre de menstruação desregulada ou porque simplesmente usa a TPM como justificativa para suas pequenas loucurinhas do dia-a-dia (desconfio seriamente disso). Tem também as que morrem de medo dos maléficos efeitos desta tensão maldita que vivem de absorvente e à base de Ponstan praticamente o mês inteiro. 
Caso dela, a vítima number one desta praga feminina: Charlotte, a morenaça belzebu. Dia desses combinamos uma sessão mesa de bar básica para pormos assuntos em dia. De repente lá vem ela, afobada, seca para agarrar seu copo de cerveja, já previamente servido (que ela não gosta de esperar nem de pedir). 
A paranóia menstrual, no entanto, vinha estampada na cara - ou melhor, no bolso. Do bolsinho do casaqueto preto de cashmere da fina brotava um pacotinho branco bastante suspeito. Ela fala, cumprimenta, beija, confraterniza, bebe, parabeniza pela passagem do meu aniversário, e o pacotinho lá, praticamente saltando na nossa cara. Não resisto: "Um modess", declaro, pescando-o com a pontinha dos dedos. "Ai, guria, tô na TPM. Tá pra vir. Encerra este assunto", exige ela, pedindo que eu esconda o carefree providencial na minha bolsa. 

3.5.09

É o fim (ou Como recompor um coração partido)

E depois de (quanto?) cinco longos anos, acabou. Acabou assim, relativamente fácil, relativamente rápido, quase que indolor. Sem discussão, gritos, pranto incontido, sem desespero. Porque finalmente concordamos que já não era possível continuar juntos; porque o amor transformou-se em qualquer outra coisa entre a amizade e o bem-querer; porque já passava da hora de trilharmos caminhos diferentes. 
Restei eu neste apartamento - agora tão grande - e não pude reprimir uma lágrima furtiva quando vi que sua escova de dentes já não repousava mais no armário do banheiro. 
Foram muitas as histórias, muitos os "momentos mágicos", quando pensávamos que não podíamos ser mais felizes, muitos os planos, risadas, carinho, companheirismo, troca de confidências, jantares, cafés da manhã, briguinhas, brigonas, enfim, tudo aquilo que faz com que casais enamorados sejam pessoas tão especiais - e que simplesmente desaparece quanto acaba o sentimento. 
Eu agora estou profundamente triste. Triste porque meus planos fracassaram, porque não consegui fazer funcionar. Mas passa - e devo ressaltar minha poderosa capacidade de recuperação. Eu hei de me reerguer. 
Ainda ontem quis ouvir música e dancei freneticamente, sozinha, por horas a fio, na minha sala de estar - inconscientemente, já tentando afastar meus demônios e espantar uma tristeza pesada que já vinha se estabelecendo muito antes do fim propriamente dito. 
Eu queria chorar, mas estou muito frustrada para isso. Ironicamente, amanhã "comemoro" mais um aniversário. Sozinha, após cinco bons anos. E antes de me acabar em melancolia, recorro ao mantra mágico "Vai passar, vai passar, vai passar..."

26.4.09

Uma biografia

É fato: mulheres adoram testes. Até aqueles publicados em revistas femininas, de profundidade digna de uma poça de lama, como "Você é uma boa namorada?" ou "Você é ciumenta?" ou "Ele é seu príncipe encantado?". Desde meus doces tempos de revista Capricho que dedico alguns minutos de meus turbulentos dias (haha) para completar testes de múltipla escolha e ler resultados (muitas vezes medíocres) que teoricamente definiriam a minha personalidade (como se eu mesma não pudesse fazer isso).
Mas encontrei, no blog da Renata, um daqueles testes porretas que nos deliciam por nos mostrar exatamente o que queríamos ouvir (ou ler). A trívia indica, após algumas perguntinhas, qual livro nacional você seria. Este foi o meu resultado:

Você é... "Carmen – Uma biografia", de Ruy Castro



Boa história é com você mesmo. Adora ouvir, contar, recontar. As de pessoas interessantes e revolucionárias são as suas preferidas. Tem gente que liga para você só para saber das últimas fofocas. E confesse: com seu jeitinho manso e detalhista, você dá aos fatos um sabor todo especial. Além disso, não se contenta em reproduzir o que já foi dito. Por isso, se fosse um livro, você só poderia ser uma boa biografia, daquelas que faz os leitores deitarem na rede do fim de semana e se entregarem às peripécias de uma grande personagem. Aliás, você já pensou na profissão de repórter? Ou de escritor? "Carmen – Uma Biografia" (2005), sobre Carmen Miranda, é uma das aclamadas biografias publicadas por Ruy Castro, também jornalista e tradutor, considerado um dos maiores biógrafos brasileiros.

Eu adorei. Quer fazer o teste? Clique aqui.

13.4.09

Papanicolau

Final de tarde de uma belíssima quarta-feira ensolarada e decido descer, cruzar a rua e buscar alguns quitutes da padaria. Súbito, entre a pequena multidãozinha que locupleta as calçadas de Shark city na hora do rush (na minha rua são duas escolas, ou três, sei lá, além do portentoso comércio que é marca registrada por estas plagas), uma vozinha se sobressai, dirigindo-se à minha pessoa. "Ei, Cintia!", chamou-me.
Olhamos eu mais quinze passantes, não que se chamassem Cintia, mas pela mera curiosidade inerente ao nosso cotidiano de província. A dona da voz, uma simpática senhora, continua: "Teu nome é Cintia, né?". Eu confirmo, num menear tímido de cabeça. Os expectadores já eram em maior número. Ela acrescentou: "Marquei teu preventivo, tá? Terça-feira, ali no postinho!". E para deixar bem claro, frisou: "Teu PREVENTIVO, lembra que tu pediu para eu marcar?".
Percebi um ou outro risinho sarcástico, "háhá, tá coçando a bacurinha, é?", que, dignamente, tentei ignorar. A senhora em questão é minha mui querida agente de saúde, para quem não sabe integrante deste fabuloso grupo de trabalhadoras do serviço público brasileiro que batem de porta em porta pregando práticas para uma vida saudável e incentivando o povaréu a procurar atendimento médico, quando necessário. Ocasionalmente recebo sua visita para um checkup rápido: tudo certinho? Menstruação ok? Grávida? Alguma doença? Felizmente, até então tudo tem estado na mais perfeita ordem. Percebi, no entanto, certo desapontamento quando revelei possuir plano de saúde. "Mas quando precisares, já sabes, é só agendar comigo", insistia a senhora.
Na ocasião da última visita, tonta devido ao soninho da tarde, impulsivamente aceitei visitar seu QG para um examezinho básico - mesmo tendo passado menos de seis meses de minha última visita ao gineco, o material aqui está zeradíssimo, by the way. Com fortes tendências hipocondríacas, no entanto, cedi aos apelos: "Ok, pode marcar". E esqueci imediatamente do compromisso.
O resto vocês já sabem. E como se não bastasse meu constrangimento público, a querida agente de saúde ainda conclui com esta: "Tem sentido alguma ardência, alguma coceira?". Céus.

9.4.09

Sushi, teu nome é tomate seco

E com esta flexibilidade de horários que Deus me deu estava zapeando a TV por volta das quatro da tarde quando me deparo com o programa A Tarde É Sua. Mais tarde vim a descobrir que a hostess é a Sônia Abrão, daí tu tiras.

Era uma "reportagem". A repórti (vergonha alheia mode ON) entrevistava os convidados para a "festa de inauguração da nova cobertura de Cléber Bambam". Há. A mulher tagarelava com uma criatura para mim totalmente desconhecida. Bom, TODOS na festa eram desconhecidos e faziam fila para serem entrevistados. O entrevistado da vez era de uma dupla sertaneja. Mais tarde vim a descobrir que era ou o Bruno ou o Marrone, juro por Deus que até conheço "Dormi na Praça", mas nunca tinha tido a grata oportunidade de olhar naquelas carinhas. O cara contou que curte Big Brother e que se emocionava com os participantes. "Chorei muito na final", segredou.

Entre os desconhecidos, célebres desconhecidos, como a assistente de palco da Gimezes, something Limonge; Carlão (ex-BBB, hahaha, horas pra lembrar de onde eu conhecia aquele careca marrento) e mais uns dois que me lembraram alguém - é, o programa dá tanta importância pra este segmento profissional (celebridades do B) que acredita piamente serem todos suficientemente populares para não merecerem legenda.

No "buffet", quilos de sushi. Desfaleci. Porque há coisa de cinco, dez anos, sushi ainda era considerado hype. Aí chegou aos ouvidos (e às papilas gustativas) da plebe rude e virou a nova coxinha. Sushi é a rúcula com tomate seco dos anos 90. Lembram? Tudo o que continha "tomate seco" era tido como sofisticado. É o strogonoffe com batata palha dos 80, o melão com presunto dos 70. Porque vou te contar: depois que Cleber Bambam dá festcheenha oferecendo buffet de sushi, meu amor, nem mesmo se o Mioshi se oferecesse pra me alimentar de graça... (mentira)

QI - Triste do povo que tem como referencial de "inteligência" alguém como Priscila do Big Brother. Como assim, Bial, Priscila é inteligente? Não é porque a boa-moça-de-família é mais "vivida" (ou, como diria minha mãe, curtida) que pode ser assim, facinho, classificada como criatura intelectualmente privilegiada. É, mas foi o que ouvi do povo por aí - e de apresentadores de TV também - nas últimas semanas.

7.4.09

O cliente sempre tem razão

A moça, aquela brunette esfuziante, já entrou no supermercAdo de sua preferência chutando o balde - afinal de contas, ela é a responsável pelo pagamento de pelo menos um funcionário, tamanho seu fluxo de compras no estabelecimento.
Resolveu não ser boazinha desta vez. Rumou convicta em direção aos ovos de Páscoa e, lá, descobriu que, na compra de dois, o cliente ganharia uma linda necessaire com o logo da marca, Menino.
Mas dois ovos daquele tamanho (vintão) não caberiam em seu orçamento. "A demonstradora era uma imbecil", sentenciou. "Não sei como selecionam alguém assim, no mundo já não há mais lugar para incompetentes".
Consumidora voraz dos produtos Menino, não se convenceu, no entanto, com a proposta. "DOOOOOIS ovos número 20? Era só o que faltava! A vida toda comprei chocolate desta marca, eu tenho direitos. A necessaire É MINHA!". Foi aí que deu-se início o furdunço.
A demonstradora, já impaciente, resmunga qualquer coisa ininteligível e vira as costas com a chegada de uma colega, representante da marca L, concorrentes na teoria, boas amigas de corredor, na prática. "Ignorou-me sobremaneira. Senti-me um lixo. E o pior: a moça da marca L já chegou dizendo pra reservar uma necessaire pra ela. A MINHA NECESSAIRE! Protestei".
Introduzindo seu corpo esguio (só Charlotte, a morenaça belzebu, pode se dar ao luxo de se entupir de chocolates sem acrescentar grama alguma à cinturita de pilão) entre as funcionárias, que já papeavam animadamente. A paulistana tresloucada gritou: "Como é que é? E eu?".
Enquanto a concorrente dava no pé, assustada, a Menino's girl tratava de desfazer o mal entendido.
Comprando uma única barrinha de Talento, das pequenas, Charlotte saiu do supermercAdo sobraçando sua tão cobiçada necessaire. "A idiota ainda sugeriu que eu escondesse o trequinho do segurança, para não pegar mal. Ah, faça-me o favor! Não tô roubando...".

31.3.09

Espelho, espelho meu...

Na última semana tosei a cabeleira, que estava longuésima, até pouco abaixo dos ombros. Teimosia pura (o modelo é recorrente, quando eu RESOLVO cortar o cabelo), já que este corte exige certa habilidade no manejo da escova, para que as pontinhas fiquem voltadas para fora, exibidas. A moça aqui, no entanto, que até se esforça para aperfeiçoar suas habilidades domésticas, é um zero a esquerda quando se trata de auto-cuidado pessoal. Não sei escovar, não tenho chapinha, não faço as unhas nem em caso de emergência e não sei lidar com a pinça - Claudinho é quem me salva todos os meses para que a borboleta aqui não vire taturana.
Já disse em outras ocasiões que nasci para ser rica - o que, unfortunatelly, não aconteceu (mas bóra tentando...). Porque para ficar minimamente apresentável preciso da assessoria integral de cabeleireiras, manicures, maquiadoras, fazedores de sobrança, sou uma completa incapaz (sei passar perfume, vale?).
Todo este enorme preâmbulo para ressaltar a que ponto vai a vaidade de algumas mulheres (mulheres comuns, não vamos fazer referência às biônicas que moram em clínicas de estética, aka Angela Bismarchi). Claaaaro que é legal estar sempre bonitinha, na adolescência eu acordava um tantinho mais cedo para acertar no "book" (para os não iniciados, topete preso com passadeirinha, moda nos 90's). Mas certas coisas beiram o ridículo: 7h30 da manhã de uma terça-feira, um calor tropico-infernal, e, no banheiro do shopping que acomoda minha academia e um colégio, duas adolescentes deslizavam cuidadosamente a chapinha pelos cabelos (mal) pintados de vermelho - e cada uma com a sua prancha de estimação, não tem esta de repartir não.
Pior que isso só a moreninha de 38 quilos da academia (já falei dela, está cada vez mais magra), que, antes de suar a bacurinha em bicas pedalando a ergométrica e saltitando no jump, alisa os vários cachinhos um por um com a chapinha que carrega permanentemente na mochila.


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Ontem lavei os cabelos e fui dormir com eles molhados. Deu uma pregui de pegar no secador...

25.3.09

De melissa a crocs

Nasci e fui criada numa cidade onde diversidade de estilos nunca foi marca registrada. Meninos podiam ser mauricinhos - babylook (sim, na minha época babylook não era patrimônio gay) e calças de sarja coloridas, do amarelinho canário ao vermelho cardeal.

Ou podiam ser "largadões" - ostentando o maldito triunvirato boné, bermudão-quase-calça e correntes no pescoço. Sendo que, com o passar dos anos, estes adereços foram ganhando peso. Bonés ganharam o capuz do moleton por cima. Calças e bermudas, bolsos e passamanarias suficientes para deixarem meio rabo do sujeito à mostra. Correntes de pescoço passaram a ser adquiridas nas docas.

Meninas variavam ainda menos. Havia as patricinhas e as patricinhas wannabe. As primeiras, poucas, usavam roupinhas transadas e caras das boutiques de Shark. As outras contentavam-se em imitar as riquinhas comprando peças similares nos outlets de BR que abundam na região.

O básico: camisetinha (barriga à mostra), mini jeans e mega plataformas. É assim até hoje, mas as saias perderam terreno para o famigerado legging.

Eu me achava de vanguarda (hahahaha). Eu e Lô, que não me deixa mentir. Guiadas pela bíblia das teenagers dos anos 90, a revista Capricho, cismamos de ressuscitar a sandália Melissa. E fomos encontrá-la, aquele modelinho retrô, baixinha, em um único lugar da cidade, o Mercadão Público - devo observar que o mercado público de Shark não é semelhante a tantos MP existentes no país, cheios de vida, música, chopp gelado e peixinho frito. Ah, nem queira saber...

O look era o "máximo": jeans, camisetinha branca comprada em loja de criança (tinha que ser pequena) e a Melissa - muitas vezes usada com meia - nos pés.

É foda morar na roça. Olhares horrorizados nos devastavam por onde andássemos. Mas, seis meses depois (ou um ano?), todas as meninas haviam adotado as sandalinhas de plástico - ainda que muitas delas na versão "tropicaliente", com um saltão medonho de juta falsa.



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Hoje devo admitir que, de maneira geral, o povo de Shark e adjacências já manda muito melhor no figurino. O que a globalização não faz, não é mesmo, minha gente? Arriscam mais, brincam mais, coordenam peças com mais ousadia e, com frequência, acabam acertando.

É que hoje, além das "patricinhas" (termo em desuso, mas não achei substituto), dos "playboyzinhos", dos riponguinhos e dos pagode stylers (help!), temos que conviver com os (pseudo) emos. Pseudo porque certamente nenhum deles conhece ou segue a "causa" emo - se é que emos têm causa (hahahahahah, morri!) a não ser usar franjão e lápis no olho e parecer melancólico (é lógico que ser "emo" é a desculpa adolescente para sair do armário, mas não vem ao caso).

Aí que, dia desses, circulando pela cosmopolita Marcolino Cabral, cruzo com uma criatura ímpar. Franjão, lapisinho no olho (mas bem de leve, era dia), camiseta com estampa descolada, jeans e, nos pés, crocs. Laranjas. O proprietário do look era um menino, deixo claro. Na hora tive ímpetos de me atirar ao chão e rolar de rir, ninguém merece croc. Muito menos laranja. Mas depois lembrei-me de mim e Lô aos 16, exibindo, nos pés, o que meio mundo deveria considerar "esquisitos trecos de plástico". Aí fiquei comovida com o esforço fashion do moçoilo - é bem possível que daqui a alguns meses surja uma horda de teens batendo crocs coloridas pelas calçadas de nossa big city.

Eu comprei uma destas pra minha sobrinha. Branca, da Hello Kitty. A menina tem sete anos, mas já acha meio cafona.

23.3.09

Tópicos típicos

  • Eu definitivamente prefiro o inverno. Principalmente se alojada neste Sul catarina do meu coração (hohoho). Porque o Sol é massa, calorzinho é gostoso, verão é bonito de se ver, mas nada mais civilizado do que um termômetro indicando menos de 18 graus.
    Porque temos as roupas bonitas. E os cachecóis. As botas. E tem as comfort foods. Né?, porque, fala sério, salada é saudável, sorvete é tudo, mas uma sopinha fervilhando num dia frio de trincar os ossos é muito reconfortante. E vinho.
  • O que é você sustentar bem uma montação, não é mesmo? Assistindo a episódios de Sex and the City no Fox Life, sempre me surpreendo com Carrie Bradshaw. Sempre. Porque ela carrega dignidade de qualquer jeito, seja usando um tubinho preto de jersey ou um trapo furado e esfarrapado. Mesmo que este trapo esfarrapado for Roberto Cavalli. A roupa era tão feia, a Sarah Jessica Parker é o cão chupando manga, mas, ah, reles mortais... o conjunto da obra é sempre fantástico. Estilo: ou você tem ou você não tem. Seja com Roberto Cavalli esfarrapado ou com regatinha de R$ 9,99 da Renner.
  • Preferia ter lido algo a respeito de Watchmen antes de assistir sua versão para o cinema - até porque viajei horrores nos primeiro 30 minutos. Aí depois foi esquentando - principalmente quando Dr. Manhattan aparecia como veio ao mundo - só que azulzinho. Sim, taradas (os) de plantão, Watchmen tem nu frontal masculino! Ainda não é o suficiente para conduzi-lo ao cinema? Ok, é um bom filme de ação (bons efeitos, mocinhos vilões, zzzz...).
  • Você sabe que tem tudo para recuperar aqueles quilos que custosamente perdeu quando já se enche da academia na primeira semana... Anyway, não quero nada de Páscoa mesmo... nada comível, deixo claro. Um sapato luxo com salto de cone invertido iria bem...
  • A velhice chega para todos, não há como escapar. Mas para Shannon Doherty ela foi mais cruel. Vide a velha e boa (?) Brenda Walsh, na nova versão de Beverly Hills 90201. Com direito a queixo duplo e tudo.
  • E que venha o inverno. Que eu tô louca pra usar meu casaqueto vermelho.
  • Eu já contei que quase me afoguei no rafting? (dããããã...)

18.3.09

Miguelito, o anti-arcanjo

Ele já chegou causando. Nem havia pisado na empresa e já provocava polêmica. Foi só dar uma olhadela básica no currículo extraordinário do moço para um funcionário mais esperto já apontar: picareta. Mas os chefes preferiram não concordar com o pré-conceito. E contrataram a polêmica criatura. Por mais de um ano, Pablo Miguelito "La Garantía Soy Yo" Herrera divertiu seus colegas de trabalho com as mais bizarras situações.
Para ele não havia tempo ruim. Qualquer terça-feira era boa para reunir a galera em suas luxuosas dependências, onde oferecia cerveja gelada, uísque importado, paella, tacos, guacamole e doses generosas dos produtos colombianos "tipo exportação". A vida era uma bela e colorida festa.
No Carnaval, marcou época em Shark city ao desfilar abraçado a sete vampiras traficantes lésbicas. Na campanha eleitoral, encheu a burra de money, money, money vendendo a alma a Deus, ao diabo, anjos, santos, íncubos, súcubos e quem mais se interessasse. Mas não votou: seu título é de Pedro Juan Caballero.
Virou figurinha fácil em lojas de móveis e eletrodomésticos, redecorando seu flat com o típico bom gosto paraguajo. LCD de 49 polegas, sofás de couro, chaise de camurça fina, tapetes, cortinas, esculturas. Obras de arte das mais variadas, luxo e ostentação.
Aos que o visitavam em suas dependências, tudo. Filés de linguado, camarões gigantes na manteiga, lagosta ao termidor, prosecco geladíssimo. E entre garfadas de risoto de açafrão e golinhos de vinho, estalava a linguinha marota e exibia fotos de sua intimidade com a adorável esposa. "Numa delas a bichinha abocanhava até o talo. Depois tentaram dizer que era um brinquedinho de borracha, mas, ah, meu bem, de pau eu entendo", revela D., testemunha das orgias gastro-sexuais de Miguelito.
Se com a esposa o sexo parecia tão ardente, sem ela o panorama era de filme pornô. Bastava a bichinha ir embora visitar familiares distantes e era aquele desfile de criaturas-que-fazem-da-calçada-local-de-trabalho.
Os vizinhos, na (vã) tentativa de preservar a moral e os bons costumes, pediam para que ele não posasse tão ostensivamente, nu, balagandãs à mostra, apalpando coxas, bundas e peitos, em frente à janela com vista para o playground, às 11 da manhã. Para sua fúria, que jamais permitiu ser cerceado em suas vontades.
Só muito tempo depois foi que perceberam o rombo. Tentaram interceptá-lo, mas não houve tempo hábil. Háhá, amadores...
No meio da madrugada Miguelito evaporou com todos os seus recém-adquiridos pertences não-pagos. E dívidas, muitas. No rent-a-car, na Fatia de Baguete, lanchonete de Shark, na rotisserie, na locadora, na padaria, imobiliária... enfim, ainda gastou a última gota de sua lábia invejável para levar, na faixa, um equipamento fotográfico de última geração.
Pânico em Shark city.
A polícia foi acionada, autoridades comunicadas, mas já era tarde. Na parede do apartamento vazio, um recado desaforado dirigido a todos os seus "desafetos" - e escrito com o conteúdo da uma fralda bem cheia da filha mais nova...

10.3.09

Little black underpant

Quem trabalha ou já trabalhou em uma redação (de jornal, de TV, rádio, blog, portal de notícias, whatever) sabe o quanto pode ser divertido e proveitoso lidar com agências e assessorias de imprensa diversas. Primeiro porque, obviamente, estes profissionais podem realmente te quebrar os maiores galhões ever nos conturbados horários de fechamento.
Segundo - e aí reside a magia - porque eventualmente você recebe pérolas como esta abaixo, que me foi enviada por um povo amigo que trabalha na portentosa press sharkcitiana.

Uma agência (do Rio) enviou, como sugestão de pauta, um pacote onde relaciona o hit "Você não vale nada (?????)" com uma personagem da novela O Clon... ops, Caminho das Índias. Coitadinha da Dira Paes, que figura como protagonista no meio dessa cafonice... Sente o drama (as observações em itálico, entre parênteses, não vieram no release, evidentemente):

Melô da boa: Forró 'Você Não Vale Nada', tema de personagem de Dira Paes, é o maior sucesso da novela 'Caminho das Índias'!!! (as exclamações são luxo e alegoria)
'Você não vale nada mas eu gosto de você!' Toda vez que Norminha (Dira Paes) aparece em 'Caminho das Índias', o forró cantado pela banda Calcinha Preta (yep!) marca os olhares e o requebrado da fogosa mulher do guarda Abel (Anderson Muller). Nem a exótica abertura da novela de Glória Perez faz tanto sucesso com o público. É um sucesso entre as mulheres.
A Agência XXX oferece esta matéria especial composta por texto e imagens, no valor de: R$ 120,00 (caí pra trás: não é que eles COBRAM por isso?).
Mas o mais impressionante ficou pro final. Junto do release, algumas fotinhos como "aperitivo" (tipo, o ovo colorido que antecede o banquete de coxinha com molho farrapo). Além da imagem de Dira Paes e do marido "guarda" (hahahahah, guarda...), três criaturas que se denominam os integrantes do Calcinha Preta. Vamos a elas?
Essa é a basiquinha da turma. Peitinho murcho, mas com dignidade, macacãozinho fiiiino de risca-de-giz e cintão branco adornando a cinturita de pilão. Gamei na franjinha estrategicamente cobrindo meia testa. E o relógio?

...
Nem sei o que dizer. Tipo, sei lá, meio que virou tendência o cara se bandear pro seu salão de beleza (ou instituto, ou coiffeur) predileto e pedir pela escova progressiva amiga. Mas esse aí passou do padrão Charlotte Belzebu e exagerou no formol. Exagerou pesado. E isso que devemos considerar sua descendência tupi-guarani, que mesmo sem chapinha já lhe garantiria fios ultra-lisos. Pra que tanto?


Heheheh... mas isso é Brasil, meu povo! Olha o piRci no umbiguinho! Olha o macacãozinho sedutoramente aberto até o púbis! Olha o franjão! Ela deve frequentar o mesmo saloon onde seu colega de banda faz a progressiva.
Não é uma delícia abrir seu email DO TRABALHO e se deparar com uma pérola destas? É o que eu digo, jornalistas são os que mais se divertem...

Fio-terra

Bom demais para ser verdade... após meses de paz e tranquilidade sem a presença do meliante pós-adolescente que reside logo embaixo de meu flat, eis que a criatura volta mostrando a que veio. Relembrando: o menino e a mãe viviam às turras, brigas violentas every day. Até que o filhote chutou o balde e bandeou-se, mala e cuia, para casa de papá, em terras gaúchas. Para desespero de sua mãe e minha alegria, que já não aguentava tantos berros, uivos e gemidos. Aliás, os gemidos continuaram, em outra escala, dada a profissão de minha cara vizinha...
Pois bem, volta o menino e, desta vez, acompanhado por uma garota, a namorada. Aí que, noite de sábado, a mãe provavelmente "trabalhando duro" no Little Castle, e o rala-e-rola dos mais calientes pôde ser ouvido em minhas dependências. Dos mais calientes vírgula, porque sexo adolescente - ainda que pós-adolescente - me soa tão aflito, angustiado, tão ejaculação precoce que eu relembrei porque é bom ser adulta e se relacionar com seres adultos.
Aí foram aqueles ruídos sôfregos, nervosos, grunhidos de ambas as partes, uma coisa gutural. E os tapas... Ah, minha gente, era schlep daqui, schlep dali, uma espancação hard core. Fiquei alerta pensando que o bruto estaria machucando a pobre menininha, mas, qual!, de repente escuto a voz dele, abafada, implorando para que ela pegasse mais leve: "Devagar aí!", dizia o garoto, pedindo água. A menina gargalhava, perversazinha.
Uns dez minutos de esfregação e gozo depois, e o silêncio. Pensei que minha experiência sexual auditiva tinha chego ao fim quando escuto o menino pedindo mais. Ela recusa, regateia, faz beicinho. Aí o guri fecha com chave de ouro: "Se tu não queres mais, então tira o dedo do meu cu!".

Humpf... já não se fazem adolescentes românticos como antigamente...

3.3.09

BBB



Nossa... esta eu não perco de jeito nenhum. É, já ultrapassei a barreira da vergoinha por estar acompanhando o BBB. E para os iniciados: continuo meio que fã da catarina retardada, mas o Ralf não é nada mais do que a versão carolinística de calças. Ou sunga branca, whatever.
Update: Peninha do Ralf... mas bem-feito pra vaca da Milena e pro (semi) enrustido do Flávio. Nojentos. (você descobre que chegou ao fim da linha em matéria de reality shows quando sabe os nomes dos participantes de cor).

1.3.09

Mitômana

Ela já chegou chamando atenção - não por ser terrivelmente feia nem por radiantemente bela, mas por falar alto. Só alto não, praticamente aos berros, uma coisa horrorosa. Estavamos embarcando no bus em POA, rumo a Sharkcity, e os agudos (mais graves que agudos, devo admitir) da rapariga fizeram com que eu desviasse os olhos das palavras cruzadas um bocado de vezes, ao longo do trajeto.

Juro que ainda tentei seguir indiferente, mas percebi que todo o blablablá e a postura overreacting da gritona poderiam me render horas de puro deleite. Pois bem.

Mal se acomodou em sua poltrona e a mulherzinha vociferou para sua partner de viagem: "Vim a trabalho. Trabalho em Porto Alegre mas tenho casa em Garopaba, aí já viu, né? Tive que vir, tinha um monte de projetinho atrasado. Mas deixei minha filhota com a avó. Coisa booooa, né? Ter alguém pra cuidar da filhona assim...". Estranhei o tom de "gabância" do comentário. Casa em Garopaba, a meca litorânea dos gaúchos, muitos projetos, sinal de dinheiro entrando... decidi continuar bem atenta.

Quando ela comunicou, em seguida, que preferiu não vir com seu automóvel (um Omega GLS), resolvi analisar o visú da gata. Camiseta do time do (meu) marido (no Rio Grande do Sul simpatizei com o Grêmio, justificou), daquelas encontradas penduradas em série na barraca do camelô; jeans "corsário" (afff) e sandálias de salto colossal de madeira, cobertas com camurça puída; bolsa adquirida, provavelmente, no mesmo lugar onde encontrou a camiseta. E as bagagens, inúmeras, socadas com força na parte superior de sua poltrona, entre bolsões sintéticos e gigantescas sacolas plásticas repletas de badulaques. Foi quando desconfiei da incapacidade da menina de falar a verdade.

Ela mentia, juro que mentia. Mas mentia com tanto orgulho e sinceridade que certamente levava sua interlocutora a acreditar. Contou dos projetos que desenvolveria (móveis de mdf); da filha liiinda de enormes olhos verdes; das belezas, atrações e deficiências de TODAS as cidades por onde passávamos. Ah, fala sério, ninguém sabe nada de Maquiné a não ser que lá tem um restaurante de beira de estrada que vende bala de banana. De Sharkcity, ela fez apenas comentários supérfluos, en passant.

Cansei de tanta lorota e abstraí por algumas horas. Na paradinha para um xixi básico, mais mitomania. "Agora a gente pára aqui pra comer um sanduíche natural e um chocolate quente", instruia ela, exatamente o lanche eleito pelo inconsciente popular coletivo como sendo "fino", hahaha, não sei de onde saem estas coisas. Um calorão fdp e a guria foi seca no "chocolate quente" (nescau), pose é tudo neste mundo.

Só fui me deter na criaturinha novamente pouco antes de desembarcarmos. Havia despirocado. Marcava um encontro com sua companheira de viagem, levaria a linda filha de olhos verdes para conhecê-la. Disse que havia retornado, há pouco, de Buenos Aires, e que já se programava para fazer um tour ligeiro pelo Uruguai (adoro fazer compras lá). Também falou da possibilidade de um cruzeiro, teria amigos em Fernando de Noronha, para onde costumava ir com regularidade.

Não ouvi o motivo de ela ter desembarcado em Shark, já que, originalmente, seu destino era Garopaba. Ainda antes de descer, perguntou para as paredes (ou janelas da Santo Anjo) se seria melhor ligar e pedir para a família vir buscá-la ou chamar um táxi. Optou por ligar.

No orelhão, telefonou a cobrar e convenceu alguém a vir buscá-la alertando para os diversos presentes que havia trazido (imagino que acondicionados na sacolona de plástico paraguaia). Percebi certa relutância do outro lado da linha, já que chovia, mas como tinha presentes na jogada, em pouco mais de dez minutos uma humilde senhora, pilotando uma bicicleta, com uma menininha encardida na garupa, chegou para receber nossa protagonista. A rapidez teve explicação óbvia: quem conhece a geografia de Shark, sabe que a localidade de Capão Cagado fica logo ali atrás da rodô.