29.12.09

A Lei, o Lucky e a TV Globo

Você só percebe a partícula humana existente dentro de alguns indivíduos às vésperas das festas de fim de ano. Porque sujeito pode ser o maior pau no cu da paróquia durante os 11 meses, mas basta chegar dezembro pro cara lembrar que tem família, pai e mãe, irmãos ou um peixinho solitário que necessita de carinhos. Aí é um corre-corre dos infernos, compra de passagem, presentinhos e bibelôs mimosos para os mais chegados. Gasta-se dinheiro, energia, acumulam-se dívidas, adquire-se algumas dores de cabeça, mas... e daí? O sujeito comprovou-se humano, e não um andróide do mal.
Caso de nossa heroína suprema, Charlotte C., que a despeito de todas as estripulias e travessuras aplicadas aos próximos, de janeiro a novembro, torna-se uma santa na ocasião natalina. Porque é o momento do ano em que a morena volta pra casa. Sim, senhores, nossa brejeira paulistana tem familiares na Terra da Garoa, e os ama. Ama tanto que suporta 12 suarentas horas dentro do buzão só para abraçá-los, comer lentilha e pão de mel, embolsar algum e trotar para casa correndo ("mais de três dias junto da família e já começa a feder", costuma dizer).
Foi assim que no dia 24 de dezembro a endiabrada dos cabelos escovados permanentemente deu às caras em um enxameado terminal Tietê. Faceira com a chegada e com a temperatura agradável naquela chuvosa Londres tupiniquim (Londres com alagamentos e enchentes, claro), Charlotte sartou de banda, malinha à tiracolo, e tratou logo logo de puxar um Lucky Strike, que ela não é boba nem nada. "Não fumo em casa, boba. Meus pais não sabem. Fumo há 16 anos e meus pais não sabem", confidenciou-me, lika rebel teenager.
Pois bem. O que Charlotte não esperava era a Lei. Sim, a Lei que mudou a vida dos boêmios paulistanos. Que se para nós aqui a leizinha antifumo não fede nem cheira (basta esperar o badalar da meia-noite pra acender o primeiro de vários), em São Paulo as coisas mostraram-se diferentes. "Ao descer, dei de cara com um placão falando da tal da lei antifumo. Ok, já deu medinho. Mas decidi ignorar. Procurei um cantinho afastado e acendi unzão", contou a beldade, complementando que chupou o dito com tanta volúpia e frissón que o mesmo mal durou um minutinho. "Estava há doze hora sem fumar, o que você quer?".
Mas, ao contrário de nossa pacata e complacente Shark city, em Sampa a lei impera e se faz ser cumprida. "Já me preparava pra acender outro - o primeiro nem tinha matado o bicho - quando percebo pessoas me olhando. ESCANDALIZADAS. Sim, agora é crime fumar e eu me senti uma marginal, uma pecadora, messalina, devassa, vândala dos infernos. Um homem puxou do celular e passou a dialogar, apontando para mim. Por via das dúvidas, apaguei o cigarro ainda na metade", disse a morena.
A moça escapou da saia justa com a chegada de seus pais, que vieram recepcioná-la com flores, faixas e cartazes de boas-vindas. A chegada de Charlotte C. em M'Boi Mirim, onde reside, é sempre motivo para muita comemoração por parte da comunidadji. Na segunda-feira, no entanto, Charlotte já se encontrava firme e forte no Tietezão, abanando o lencinho branco em despedida aos seus, com uma mala extra para acomodar todos os mimos adquiridos. A boca SECA para uma pitada básica.
"Foi só a mãe virar as costas e eu nem pensei: puxei um Lucky e acendi, sorvendo-o com delícia". Muitos minutos depois é que a moça foi perceber a presença de uma equipe da Globo zanzando pelo terminal, "materiazinha básica de gente que vai e que vem, sabe como é", relatou-nos a jornalista, expert em mídias impressa, falada, televisionada, eletrônica e digital.
Não é nada, não é nada, algumas horas depois, quando a jovem senhôura esticava as pernas em Registro, toca o telefone. Mamã. Sim, Charlotte C. foi exibida em rede nacional para o mundo inteiro ver, na telinha da Grobo, fumando um cigarrão enquanto revirava os olhinhos de prazer. Seu segredo de 16 anos havia sido descoberto.

10.12.09

Cera quente, suor e lágrimas

Ah, a incrivelmente árdua missão de ser mulher... Ter que batalhar de igual pra igual com as encantadoras criaturas do sexo masculino, ter que falar grosso, socar a mesa, coçar o saco, se impôr, mas tudo com a delicadeza de uma bailarina russa. E com o aspecto o mais semelhante possível ao de uma bailarina russa.
Nós, mulheres, não podemos ter cabelos brancos. Quilos a mais. Pele ruim. Odores desagradáveis (bom, ninguém deveria ter odores desagradáveis). Não podemos andar por aí com unhas descascadas nem com pêlos em profusão debaixo do braço.
Uma amiga costumava maldizer o momento em que as fêmeas resolveram pôr as manguinhas de fora e queimar sutiãs: o princípio do fim. Sim, porque antes éramos bonecas de porcelana protegidas dentro da segurança do lar e amparadas pelo provedor-mor, o marido, este sim um ser (naquela época) ultra-valorizado. Quando precisávamos retocar as raízes no coiffeur de nossa predileção, bastava bancar a Jane Jetson e esticar a mãozinha que o esposo generosamente depositava aquela quantia suficiente para limparmos as taturanas chamadas de sobrancelhas e desfilarmos com as pernas lisas e macias como as de um bebê recém-nascido.
Hoje, para estarmos belas, frescas e joviais, precisamos reservar uma parte considerável de nossos provimentos para estes gastos considerados "supérfluos" pela macharada de plantão - que pode até não notar, mas evidentemente aprova o resultado: apareça na frente dele com as virilhas enxameadas de inconvenientes pelos pubianos, pra ver só...
Além de gastarmos rios de dinheiro, há o sofrimento, este aspecto não-variável da busca infinita pela boniteza. Pois bem, meninas. Hoje me submeti a uma daquelas torturantes sessões de depilação "íntima" pós-inverno, só imaginem... Ou não.
Não bastassem a dor e as lágrimas, que me fizeram andar a Tubalcain inteira com as pernas ligeiramente abertas, há o constrangimento. Porque, ah, senhoras e senhoras, consulta ao ginecologista é água com açúcar perto de uma vigorosa sessão de depilação. Sim. A sádic... ops, a profissional te vira do avesso, te abre, te escancara, te faz sangrar, gemer e ulular - e tudo absolutamente sem qualquer espécie de conotação sexual. O talquinho salpicado ligeiramente nas partes, no momento pós-tortura chinesa, é um bálsamo colhido no Éden.
Sofremos, pois. Tudo para ficarmos dignas, limpinhas e perfumadas. E enquanto ajeito a lingerie que simplesmente colou na virilha esquerda (restos de cera, povo), marco na minha nova agenda a data do próximo martírio, em fevereiro.


26.11.09

Nina ou Um redemoinho em minha vida

Nos meus sonhos mais dourados eu me visualizava bem-sucedida, rica, solteira mas bem amada, dona e proprietária de um apartamento lindo, tendo como companhia constante um gatinho manso e preguiçoso de bigodes espetados, um fã incondicional de uma boa soneca 18 horas por dia. Mas nem tudo acontece do jeito que a gente sonha - o que não é de todo mau, vamos e venhamos.
Aí que me vi entre a cruz e a caldeirinha quando a colega, chorosa, informou-me que seu novo senhorio proibia a presença de animais domésticos no prédio. Desta maneira, teria ela que se livrar da Nina.
A Nina eu conheci desde bebezinho - o que não é grande coisa, visto que ela só tem quatro meses. Costumava visitá-la uma vez por semana, festinhas na cabeça e na barriga por uns dez minutos e só. Encorajada pela cerveja gelada, tomei as dores da amiga e decidi, do alto da minha embriaguez: "Eu fico com a Nina!", disse, enquanto entornava mais um copo. Que decisão impactante, povo...
Trouxe a menina pra casa e, em menos de 12 horas, percebi que não poderia comportar aquele mini diabinho da Tasmânia em meu pequeno apartamento. Tapete, sofá, lençol, chinelo, perfex, esponja, tudo o que ela podia alcançar sofreu alguma consequência digamos que... desagradável.
No segundo dia de convivência eu já estava decidida a repassar a pequenina pra outra família mais paciente. A amiga aborreceu-se, mas prometeu buscar um dono suficientemente desapegado de seus bens para suportar o pequeno serzinho.
Terceiro dia, e eu às turras com Nina, destruidora de lares, Gremlim cruel, monstro devorador de: borracha, madeira, estofados, tecidos, cimento (!), couro e o que vier pela frente. Fim da tarde e toca o telefone. Era minha suposta salvadora, com a notícia redentora: "Arrumei uma dona pra Nina, ela vai te ligar daqui a pouco pra combinar de vir buscá-la".
Desligo o telefone e me vejo afogada numa poça de lágrimas e soluços.
Eu amava a Nina. Sim, eu amava aquele demoniozinho peludo e de presas afiadas que tão inconsequentemente roía meus parcos pertences.
Desespero. A futura dona em potencial ligou. Não atendi. Deixei para resolver esta dura pendência no dia seguinte. No dia seguinte, ela ligou de novo. Não atendi. E tomei a árdua decisão (desta vez pra valer): A Nina é minha e ninguém tasca. Com chinelo destruído, bolsa nova arrebentada e óculos de grife mastigado.
Como explicar um amor assim?
Cuidar da Nina é praticamente um trabalho full time. A bichinha exige atenção, chamegos, brincadeiras, exige seu lugar de honra no sofá e na cama, exige ventilador ligado, água gelada, janela aberta. Exige perfex limpinhos e novinhos para serem destruídos e terem suas entranhas espalhadas pelo sofá. Biscoitos Scooby, ração molinha da lata, água com gás, Activia, vacina cara, tosa e lacinho na cabeça (ok, isso ela não exige, mas achei de bom tom).
Apesar do prejuízo financeiro e do pouco tempo que agora me resta ao longo do dia para o cumprimento de outras atividades "menos relevantes" (como trabalho e diversão, por exemplo), ela tornou-se minha alegriazinha de viver. E como diz minha mãe: "Não tem como a depressão chegar perto com uma coisa assim". É verdade. Por mais que eu me aborreça e me perturbe com acontecimentos da vida, tudo vai por água abaixo ao olhar naqueles olhinhos de jabuticaba madurézima e sentir o poder de seus dentinhos pontiagudos na polpa da minha mão.
Tudo vale a pena por ela. Até mesmo isso:


Haste do óculos de sol e cara de culpada.

Peça do jogo americano colorido.

Pé da Havaiana.

Zíper da bolsa nova-sem-nenhuma-prestação-paga-ainda.

Quina do móvel.

Cenário de destruição.

A boneca da mãe.

3.11.09

Presentes gregos

Todo mundo gosta de ganhar presentes, certo? Não necessariamente... alguns presentes acabam se tornando incrivelmente gregos, e aí, queridos, há muito pouco o que fazer. Não dá pra remediar o estrago quando você presenteia a amiga com aquele seu perfume favorito - mas que para ela tem cheiro de cadáver. Não se tem muito o que fazer quando o amigo secreto olhou torto para aquela calça jeans número 42 - sendo que ele veste 55 e você, é claro, só foi notar tardiamente. Não há nada pior que a cara daquela tia antipática ao abrir seu presente comprado com tanto sacrifício e se deparar com xícaras made in China, com aquele decalque adesivo colado e tudo, sendo que a fina só usa porcelana eslovaca.
Eu, por exemplo, que até ontem me achava um poço de bom gosto e sofisticação, senso e sensibilidade, amarguei horrores com um ex-namorado ultra-exigente. Acho que o pobre nunca ganhou um presente que realmente gostasse de moi aqui (foi por isso que terminamos, não sabiam?). Num Natal fiquei faceira ao comprar, em segredo, um MP3 (dos baratinhos, eu confesso). A cara de raiva que o moço fez quase me fez regurgitar o peru.
Charlotte já passou por situação semelhante - mas como vítima. Nossa querida heroína, ultimamente voltada ao universo acadêmico, esperou ansiosa pelo tão importante Dia do Professor - afinal, era muito provável que rolasse um algo a mais que maçãs importadas do Angeloni. E rolou.
Fim do expediente e a morenaça dos cabelos de fios de aço escovado mais aloprada da paróquia do São Judas Tadeu foi surpreendida pela chefa, na porta de sua sala de aula, enquanto embalava os fichários, boletins e Trabalhos de Conclusão de Curso dos aluninhos. "Oiiii... tem uma surpresa pra ti na minha sala!". Os olhos de Charlotte, que não dispensa nem injeção no baço se for de graça, brilharam alucinadamente de alegria e expectativa. Mas, ao adentrar o recinto da big boss...
"Um beta? Um peixe? É isso mesmo?", retrucou, sempre muito polida e diplomática.
"É. Um peixe. Achei que seria legal pra te fazer companhia, já que tu moras sozinha...", alfinetou a autoridade.
"Mas um peeeeixeeeee??? Eu já tive peixe. Eu mato peixes. Não me dou com peixes. Não quero esse peixe", argumentava Charlotte, tentando discretamente dispensar o mimo.
"Mas guria, você é uma jovem que trabalha na área da educação, disciplinando, educando, preparando. Conviver com um bichinho em casa vai facilitar seu relacionamento com as pessoas".
Charlie pensou em agarrar um machado e decepar o crânio da atrevida, mas fingiu-se convencer e, contendo um resmungo, botou o aquário (daquelas redondos, de 1,99!, contava depois, indignada), debaixo do braço, com o beta vermelhinho dentro, e bóra pra casa comer bolacha.
"Ainda se fosse um azul... o vermelho eu já tive, morreu...". Pobre peixinho vermelho.

O maior espetáculo da Terra?

Até lembro da bolsa que eu usava: uma vermelhinha, linda, onde guardei algum dinheiro para comprar quitutes. Tinha sete anos e foi minha primeira experiência no circo. Não lembro de ter gostado - ou não - mas naquela época o Vostok era O circo e não podíamos desperdiçar a oportunidade. E o maior espetáculo da Terra vinha completo: malabares, equilibristas, mágicos, palhaços anões, leões, tigres, macacos (possivelmente maltratadíssimos, mas ninguém ligava) e até Globo da Morte, experiência traumática pra mim, que não pude com aquele furdunço - deve ser por isso que tenho pavor de ronco de motocicleta, coisa de pobre farofeiro que financia a CG em 42 meses.
Mas havia a proximidade: a casa da avó era ao lado do local onde circos (e parques de diversões - Tupã, invariavelmente) montavam acampamento. E a visitação era permitida, sempre. Anos depois vi uma das cenas mais deprimentes da vida, um elefante acorrentado pela patinha. Digo patinha porque era uma patinha mesmo, difícil reconhecer aquela criaturinha magérrima e sofrida, mais um dog alemão do que o nobre gigante da Savana. E ele chorava. Sobre a pele empoeirada do rosto corria uma lágrima grossa, coisa que me fez soluçar de angústia (sabe-se lá se não era apenas pra lubrificar os olhos). Aí passei a odiar circo com apresentação de animais de todo o coração. Horror, repulsa. E, please, poupem-me dos discursinhos pró-mundo circense, pode-se fazer muito melhor, Cirque du Soleil taí pra confirmar.
Mas aí veio a sobrinha e suas inúmeras vontades. Quando anunciaram que os Backyardigans fariam uma apresentação em minha querida Shark city, não pensei duas vezes em levar a pequena. E esta apresentação, vejam só, era num circo - sem animais, pelo menos.
Mais de vinte anos após minha primeira experiência circense, pude perceber a tão propalada "falência" desta modalidade de entretenimento e
cultura. Os artistas hoje são em número reduzido - e executam tarefas múltiplas. O vendedor de pipocas e algodão doce aparece, minutos depois, dançando no picadeiro, girando no Globo da Morte (maldita CG) e, outra vez, vendendo bugigangas (que certamente é o que garante a sobrevivência da trupe - o comércio de quinquilharias e guloseimas mil).
Para encanto da menina, o palhaço Batatinha (Renato Aragão e Praça É Nossa não sabem o que estão perdendo) surge momentos após sua divertidíssima (not!) apresentação vendendo batatas chips, daquelas encharcadas de óleo re-re-reutilizado.
O engraçado era ver a galerinha - maioria absoluta composta por jovens dos 20 aos 30 - do palhaço à contorcionista, passar faceira vendendo coisinhas e deixando um rastro de marofa pra trás, hahahaha... A vida no circo deve ser curiosíssima.

Mas não se pode negar a magia e o encantamento exercidos pelo circo: meu acompanhante de ocasião, por exemplo, mostrou-se tão deslumbrando com a vida mambembe que se dispôs a largar a dura jornada de jornalista e cair na estrada encarnando o Tyrone e a dança com varas em chamas. "Isso eu sei fazer", garantiu o sujeito.



Tyrone é muito bem tratado no Circo Italiano...

6.10.09

O bom companheiro

Parece até uma daquelas amiguinhas da adolescência, com quem cruzávamos a cidade de braços dados, olhando vitrine, e com quem passávamos horas a fio penduradas no telefone após uma manhã toda lado a lado da sala de aula (né, Lô?). A diferença é que agora somos pessoas maduras e bem resolvidas, ricas e com carro imaginário na garagem. Também falamos muito mais sobre sexo - e com mais conhecimento de causa. Quer dizer, falamos uma vírgula: ELE fala. Fala muito. Tudo deriva do sexo e ruma pro sexo. Uma putaria só.
No início confesso que estranhei. No meu universinho até então praticamente todo composto por amiguinhos do sexo feminino, V. chegou destoando. Porque não tem falsos pudores e moralismos vãos. Mas isso só fui perceber depois. E quando se percebe, meus amores, V. se torna indispensável em qualquer vidinha que precise urgentemente sair da monotonia.
Tornou-se meu parceirinho para o que der e vier. Jura que vai me fazer encontrar o príncipe encantado (e é exigente, só considera homens loiros, olhos azuis e com mais de 1,80m, como se eu estivesse podendo tanto, haha). Por via das dúvidas - e para nos blindarmos contra a solidão, programamos casório: em cinco anos, se nada de bom acontecer, iremos unir os trapinhos. Queira Deus que um sapo qualquer me despose até lá.
Em nosso último encontro, uma de suas hilariantes tiradas. A amiga sugere que ele se apresente ao novo vizinho (que tem namorado, mas "não dá nada").
"Você bate na porta com uma xícara na mão e diz: Moço, tens açúcar?"
Rápido e rasteiro, e sempre muito prático, ele sugere outra abordagem: "Que nada. Melhor bater na porta com uma camisinha na mão e perguntar: Moço, tens um pau?". Este é V., em sua mais puríssima essência.

22.9.09

Vida e morte

Contando assim até pode não parecer, mas é claro que ela é a melhor pessoa do mundo. Generosa, um coração de ouro, dedicada aos seus e aos outros - às vezes mais aos outros que aos seus. Foi por isso que acabou sendo "descoberta".
Há alguns anos foi convidada a cuidar de uma idosa que agonizava no hospital. Carinhosa, comunicativa, não demorou para conquistar a todos - os familiares e a própria moribunda. Fervorosamente católica (mas com pretensões espíritas, se é que dá pra entender), sabia perfeitamente como amenizar aquela atmosfera de dor e despedida, cantarolando seu repertório variadíssimo, que vai de Padre Marcelo ao Fábio de Mello, passando pelo Zezinho.
Após o falecimento da velha, sua fama já havia corrido o mundo. O telefone nunca mais parou. Desde então acompanhou as mais diversas personalidades em seus últimos momentos na Terra, transmutando a tristeza de amigos e parentes em resignação, confortando e tranquilizando com palavras doces e serenas.
Até a semana passada. Acontece que ela jamais consegue dizer não. E foi assim que aceitou acompanhar uma senhora em fase terminal de um câncer. Passaram-se dois, três dias, e a senhora, já em seus estertores, teimava em se agarrar a esta tão desgraçada dimensão.
"A velha não morre!", desabafou, em visita à filha. "E amanhã é a inauguração da paróquia. E com o padre Edison!", antevia, deslumbrada pelo evento do ano.
Dez horas da noite e a filha é surpreendida pela campainha estridente. Pelo olho mágico, enxergou o sorriso de felicidade da mãe. Abriu a porta e nem teve tempo: "A velha morreu!", comemorava, faceira. Sua presença na missa-estreia estava garantida.


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Já falei, e não minto: ela é realmente a melhor pessoa do mundo, e se teve a frieza de comemorar a morte de uma pobre velhinha é porque sabia que ela seria mais feliz partindo desta para uma melhor.
Antes de ir embora, lembrou do marido da recém-falecida, também tratando-se de um agressivo câncer. "Ao receber a notícia da morte, desabou numa cadeira e chorou copiosamente, cobrindo o rosto encovado com as mãos".
Subitamente séria, revelou-me: "Quando a família a trouxe ao hospital ela ainda estava bem, falante. Despediu-se do marido dizendo: volto logo, meu amore!", contou-me, enquanto secava uma lagrimazinha travessa que cismava em escapar por debaixo dos óculos.


Zapping

Eu definitivamente não nasci para passar uma noite de sexta-feira trancada em casa - mas eventualmente esta se torna sua única opção, quando todos os seus amigos arranjam coisas melhores para fazer, como chat line, dormir ou "ficar no meu cantinho".
Aí eu abri uma cerveja, enrolei-me no cobertor azul e dei início a uma saudável zapeação desenfreada. Foi quando meu pesadelo começou.
A primeira opção, no AXN, não teria sido tão ruim caso eu não tivesse assistido A Balada do Pistoleiro umas quatro vezes.
Queria ver um filmaço, um blockbuster recordista de bilheteria em algum momento da história do cinema, com bons efeitos, bom roteiro, bom elenco. Passei para o FX e... Jurassik Park. Argh.
Aí de repente pensei em uma comediazinha romântica leve, adocicada, besta, deste gênero com o qual não tenho a menor afinidade, mas que abriria uma honrosa exceção naquela fria e solitária noite de sexta. Pulei para a Warner e encontrei Ben Stiller choramingando em Quero Ficar com Polly. Putz.
Decidi então que queria assistir apenas uma comédia, sem romance, sem água e açúcar. Queria rir, desopilar o fígado, abstrair. Passei para a Sony e quase vomitei: Terapia de Choque. Adam Sandler e Jack Nicholson em fim de carreira? No chance.
Aí fiquei melancólica, carente, manhosa. Queria uma bela história de amor. Na Fox Life rolava O Casamento do Meu Melhor Amigo. E bem na hora que o Rupert Everett começa a cantar a minha música preferida:
"I'm the morning I wake up
before I put on my makeup
I say a little prayer for you..."
Percebi que não seria o melhor remédio e passei para o Fox Life. Sim, sou fã incondicional dos trash, mas uma Sexta-feira 13 com um Jason que surge no meio de jogos de realidade virtual não rola. Coisa mais podre ever, e sem ser engraçado, o que é lamentável.
Ainda tentei o A&E (Men in Black) e a Warner, mais uma vez (O Professor Aloprado, hahaha).
Finalmente recuperei a sanidade e lembrei que existem outras coisas no mundo além da programação da TV. Não pensou em internet, né?
Então fui lá e retomei meu Virgínia Woolf. Quinze minutos depois, estava dormindo.

10.9.09

The Other side

Pois bem. Como nada na vida é por acaso, aproveitei minha ida à Shark City para retornar ao blog imediato. Amei a cidade, amei mesmo, linda, linda. Gostei tanto que em breve me mudarei para assumir o posto de Secretária de Assistência Social. Sério...de onde saiu tanto pedinte? Aqui em Joinvils city, existe a lenda de um delegado que recolhia todos os andarilhos da cidade para os desovar na Serra de Curitiba. Acho que nas terras tubaronenses alguém deve ter feito o mesmo, só que na cabeceira da Ponte Heriberto Hulse. Quanto à vingança, sim, tenho planos para a cara parceira blogueira conhecer a Cidade dos Príncipes, mas isso é papo para outro post. Este não é um bom incentivo para continuar esta história Imediata?

8.9.09

As Imediatas: o reencontro

A TV não cansa de mostrar, em filmes, séries e afins, aqueles eventos em que se promove o encontro de uma turma de colégio/faculdade muitos anos após a formatura. Homer Simpson já esteve em um; Peter Griffin too. Até a Globo já fez minissérie baseada nesta premissa, a Queridos Amigos.
Invariavelmente, cabe a estes colegas provar o quanto se tornaram ricos, bem sucedidos, bem empregados, vitoriosos e prósperos. Às mulheres, há de se ter filhos, uma bela casa própria, carreira de sucesso (a faculdade serviu pra que?); aos homens, a obrigação de ter fisgado a mais gostosa do quarteirão - gostosa e honesta, o que é bastante relevante. Carro do ano, joias, uma eventual estola de vison dependurada nos ombros, caso faça frio. Bons dentes, ausência de cabelos brancos, o que se quer é impressionar, sejamos francos.
Os que não conquistaram tudo isso ou vão mentir ou faltar ou ainda irão comparecer e vagar pelos cantos, torcendo para não serem vistos e interrogados.
Claro, tudo isso aí de acordo com o imaginário castrador, implacável e capitalistamente selvagem de Hollywood. No Brasil estes encontros sempre acabam em festa, cachaçada, ricos se misturam aos pobres, uns pedem emprego aos outros e o pagode se estende até as oito da manhã.
Neste fim de semana promovi um mini-encontro entre moi e uma grande amiga dos dourados anos universitários.
Éramos ambas incrivelmente jovens, bestas e imaturas, e perdemos grande parte da diversão sendo fiéis e dedicadas aos nossos namorados (jovens, não namorem durante a faculdade, fikadika). Naquela época nossos fantásticos planos para o futuro se resumiam em 1) trabalhar na Marie Claire (hahahahahaah) e 2) casar antes dos 25, com nossos respectivos companheirinhos.
Mesmo com a (relativa) distância, Stellita B. e eu mantivemos os laços de amizade e demos início a este bloguinho cor-de-rosa e abusado. Sim, ela é a outra imediata que dá título ao blog, apesar de suas esparsas contribuições (não posso deixar de alfinetar, néam?).
Após nove longos anos, nos reencontramos, finalmente, em terras sharkcitianas. Não pude conter a lembrança (e é esta a razão do longo nariz de cera) dos "bailes de reencontro da turma de 1984", que a gente vê na TV. Porque se a falta de um super emprego como editora da Revista Piauí, a ausência de filhos ou ainda de um marido rico, lindo e apaixonado não me constrangem, outras ocorrências contribuíram para que eu escondesse meu rico pescocinho na areia.
Em dois dias pela cidade, Stellita foi abordada por sete andarilhos sedentos de atenção, conheceu alguns de nossos admiráveis pontos turísticos, como pontes Nereu Ramos e Heriberto Hülse - além da pênsil, que é luxo e alegoria (e eu falo sério, adoro), viu a cidade coberta de bosta do início ao fim da M.M.Cabral (maldito desfile de 7 de Setembro!), comeu no Hard Dog (yeah!) e ainda assistiu show com Kátia Cega (depois posto foto). Também degustou um churras safado e saboreou uma casquinha na sorveteria mais badalada da city (onde foi devidamente xavecada pelo proprietário, solteiro e deslumbrante).
Além de tudo isso, ainda levou impressionantes OITO HORAS para chegar em território seguro (Joinville, onde mora): feriadão com sol é a maldição dos catarinenses viajandões.
Mas valeu toda a pena (pelo menos para mim). Apesar dos inúmeros momentos de constrangimento, conseguimos botar pelo menos uns quatro anos de fofocas acumuladas em dia. Só temo pelo dia em que resolver visitá-la na Terra dos Príncipes: qual será sua vingativa programação especial?

Saindo da rotina

Deve ser por isso que levo tanto tempo para voltar à minha Ilha predileta - esta capacidade inata de me envolver em confusões - ou de, pelo menos, presenciá-las.
Cheguei lá no fim da tarde de sexta-feira e o amigo-anfitrião deixou-me abandonada, mala, cuia e cofrinho à mostra, por mais de uma hora no Rita Maria. Juro que tive ímpetos de (re) tomar o caminho da roça (nada mais justo que roça, quando se trata de Shark city).
Mas persisti e finalmente o motorista veio me buscar, de limo (tash tolo que ando de outra coisa em Floripa?).
Depois de algumas flutes bem geladas, para esfriar meus ânimos, tomamos o rumo do meu bar favorito ever - e fomos barrados pelo gentil pelotão de fuzilamento do clube, denominados seguranças e recepcionistas.
Todo o sofrimento valeu a pena ao rever amigos queridos e flagrar nossa pequena deusa egípcia do amor abocanhar mais uma vít... digo, mais um coração.
Mas foi no outro dia que o pau pegou (hahahahah). Inspirados pelo hilariante Brüno, saímos saltitantes pela selvagem vida noturna mané. Serei discreta, mas confesso que presenciamos cenas do filme sendo repetidas, ao vivo e a cores. Pânico na Rio Branco.
Aí no domingo foi preciso recobrar as energias, com um almoço tranquilo num belíssimo lugar. Eu viveria disso sem o menor peso na consciência.
O findi terminaria razoavelmente bem não fosse a Santo Anjo ter enviado minha mala (e minhas novas aquisições) para Porto Alegre. Mas isso fica para outro dia.

18.8.09

O hábito que faz a monga

É fato, todos nós temos nossos velhos e bons (ou terríveis) hábitos, dos quais sequer nos esforçamos para nos livrar. Dormir de meias, comer um doce depois do almoço, fumar um cigarro antes de ir para a cama, conferir os emails logo que inicia o computador, todo mundo, de maneiras diferentes, segue um protocolo particular ao longo do dia. Deixar estes hábitos (ou manias, ou esquisitices) de lado é sair da rotina - o que, muitas vezes, pode até parecer desagradável.
Li dia desses, num dos blogs que acompanho (não lembro qual, mals aê), a história da menina que era tão habituada ao uso de sutiã que, belo dia, percebeu-se debaixo do chuveiro com a peça, já irremediavelmente molhada.
Uso óculos desde a mais tenra idade e, ao contrário do que poderia parecer, sei exatamente quando me livrar do bichinho: não consigo, nunca, dormir com ele na cara. Também nunca entro com o danado no banho. Nem propositalmente. Tanto é que tive que fazer um esforço hercúleo pra levá-lo pra baixo do chuveiro. Explico: ganhei um liquidozinho limpador muito do eficiente, na ótica, e antes de aplicá-lo deveria lavar o óculos com água e sabão. Nada melhor do que inaugurar meu chuveiro recém-consertado (yes! eu tenho água quente!) levando meu querido comigo. Mas quem diz que eu consigo? Parece um bloqueio, algo quase físico.
Existem hábitos dos quais a gente não consegue se livrar, amigos. E é triste, às vezes. Ontem, fim de tarde, desci com o lixo (coisa que frequentemente esqueço de fazer). E bem na frente do prédio dou de cara com um tipinho fofo, todo arrumadinho, tipo "estou saindo do escritório agora e vou pra um happy hour now". Ele me olha da cabeça aos pés. E antes de entrar em seu joguinho de sedução, percebo que estou usando meias e Havaianas. MEIAS E HAVAIANAS.
Morri.

16.8.09

Banho de água fria

Era 2001 e eu morava em Recife, fazendo sabe-se lá o que. Tínhamos uma doméstica, indicada pelo porteiro (a senhora era a sua mãe), que limpava e cozinhava. Humilde, a mulherzinha vinha trabalhar todos os dias, bem cedinho, de pés descalços. O único par de sapatos era reservado para os cultos da igreja que frequentava. Era "inverno", naquela região do país (hahahaha), e os termômetros registravam agradáveis 27 graus. Sim, muita gente andava de cacharrelzinha de lã, tiritando de frio, enquanto a moçoila aqui suava em bicas a regatinha (eu disse regaTinha, com T).
Belo dia e a senhora, cabisbaixa, faz um pedido inusitado: queria permissão para tomar banho de chuveiro "elétrico". Com mais de 50 anos de idade, ela nunca havia tomado banho de água quente. E, como estávamos "no inverno"...

Desde sexta-feira tenho encarado o chuveiro em sua versão mais cruel, principalmente para os padrões sul-catarinenses: frio. Ele não explodiu, não se incendiou, nem fez aquele barulhinho pavoroso indicando que a resistência já era. A água simplesmente ficou gelada. E eu não fujo de minha herança tupi-guarani, senhores: enfrento o chuveirinho assim mesmo, de peito aberto (quer dizer, bem encolhidinha, pra falar a verdade), que minha porção portuguesa é absolutamente irrelevante para me convencer a ficar sujinha.
E ao contrário de alguns conhecidos, eu não tenho a menor habilidade para reparos gerais: mal sei trocar uma lâmpada; botijão de gás, nem a pau (medo de deixar vazar), há meses venho sofrendo com um vazamento ridículo na pia do banheiro. Nem ouso esticar a mãozinha pra mudar a temperatura do chuveiro (e se levar choque?).
Felizmente, tenho pessoas jeitosas na família que, queira Deus, poderão livrar-me deste infortúnio. Espero que o socorro venha logo, já estou sentindo uma incômoda pontada no pulmãozinho...



15.8.09

Dia dos Solteiros (ou Sem pânico no sábado à noite)

Sair sem hora pra voltar, flertar com todos os tipinhos interessantes da balada sem levar beliscão no braço, bebericar mais de dois drinks sem a pressão de uma cara feia do seu lado, almoçar uma pizza inteira e jantar um tomate; ou nem almoçar ou jantar, pintar o cabelo de loiro, carregar na maquiagem, curtir sua TPM sem grandes consequências, usar com tranquilidade aquela calcinha bege (!) de elástico frouxo, dormir com a cara coberta de creme, atrasar a depilação... tem coisas que só a solteirice faz por você.
Hoje (15/08) é o Dia dos Solteiros. A questão é que ser solteira (o) com dignidade é uma arte - porque não há nada pior do que um solteiro desesperado, convenhamos. O sujeito que atira para todos os lados, a gata que arrasa no decote vertiginoso pra chamar a atenção da galera, o mocinho que ganha inspiração (para fins nada éticos) fuçando perfis de Orkut alheios, fofuchas que adicionam até o Papa no emeésseene na esperança de rolar um algo a mais.
Tem gente que até cria um código de conduta pra catar alguém: beber o suficiente para ficar alegrinha, mas não ao ponto de revelar a data de nascimento; comprar roupa nova a cada balada, arrasar na chapinha todo santo dia, publicar fotos "sensuais"no site de relacionamentos e deixar o álbum aberto ao grande público, pregar a estatuetinha de Santo Antônio de ponta-cabeça até o pobrezinho providenciar um marido, ir pra cama com todos que se aproximam, ou nunca ir com ninguém porque "não é o momento certo".
De fato, ser solteira é uma delícia - ainda que muitos solteiros não concordem com isso. Aliás, meu desafio diário, atualmente, é tentar fazer com que alguns amigos realmente acreditem numa vida de luz e magia fora dos laços sagrados. É claro que não pretendo terminar meus dias tão solitária a ponto de conversar com as paredes, e acredito que em algum lugar do mundo meu príncipe encantado ruma em minha direção (provavelmente sem cavalo branco, portanto, a demora). Mas há que se ter paciência e curtir todas as vastas possibilidades oferecidas por este período de liberdade. Até porque - e aí, você, que é casadão (ona), tem que admitir - não há comprometidos na face da Terra que não cobicem a vida de solteiro (pelo menos em algum momento do dia). Aproveite esta fase.


Tá felizona solteira e pretende ficar assim por anos a fio? Ótimo. Ou não vê a hora de conhecer aquelezinho que fará seu coração bater mais rápido? Ok. Só faça um grande favor à humanidade: queime a calcinha bege e agende uma depilação urgente!


13.8.09

Pandemia (ou O Lado Bom do Toque de Recolher)

Tendências macabras à parte, a gente meio que sempre esperou por um momento desses. Não bastassem produções hollywoodianas como Resident Evil, Extermínio, Epidemia e Eu sou a Lenda, que plantaram no inconsciente coletivo imagens devastadoras do que seria a epidemia de um vírus letal, há alguns anos (em 2005, se não me falha a memória) a imprensa brasileira alardeava a possibilidade da chegada, em território nacional, de uma doença que "devastaria 1/3 da população mundial até o fim do ano" (Revista Veja, 2005), a Gripe Aviária.
Eu e as alopradas a quem chamo de amigas passamos uma noite inteirinha divagando a respeito, e chegamos à terrível conclusão de que pelo menos uma pessoa naquela mesa de bar não estaria viva em 2006. Houve choro e ranger de dentes.
Sobrevivemos, no entanto. A Aviária não veio, mas eis que surge a Suína, trazendo com ela o pânico, a insegurança e a paranoia. Parece até mentira, mas esta pacata cidadezinha que escolhi para viver, este pedacinho de terra cortado por nosso bucólico Shark river, é considerada hoje o olho do furacão da Gripe A, com algumas mortes registradas e dezenas de casos suspeitos.
Aulas foram suspensas, festas, cinema e até missas e cultos estão sendo cancelados. A palavra de ordem agora é "álcool gel". Beijos, abraços e cumprimentos mais efusivos estão proibidos. E desta vez eu não estou exagerando.
É como um toque de recolher, que foi submissamente aceito pela população amedrontada. Estabelecimentos comerciais já lamentam a brusca queda nos lucros. Até as fatídicas formaturas, tão em voga por estas plagas, foram transferidas, pra se ter uma ideia mais concreta do drama.
Existem aqueles que estão arrancando os cabelos, banhando-se em álcool gel e instalando tranca dupla na porta de casa (vai que o vírus tenta entrar na marra?); outros (e muitos) invadiram os supermercados locais para estocar comida em casa - guerra biológica não é mole, não, amigos. Muita gente já desfila com a fatídica mascarazinha na cara: a hora é de prevenção.
A boa notícia (para mim) ficou por conta do cancelamento de um evento posto em prática uma vez por mês, nesta megalópole de meu Deus, quando o comércio abre suas portas durante o sábado. Para bombar as vendas em datas "especiais" (como no Dia dos Pais), a câmara dos dirigentes lojistas daqui fecha a avenida e monta um cirquinho musicado bem no miolo do centro da cidade.
Com a perigosa gripe, no entanto, o evento foi cancelado, no último sábado, ficando eu aqui livre das incômodas apresentações de muóda sertaneja (tudo muito ao gosto dos meus queridos conterrâneos, né, Guigui?). Ok, prefiro sofrer com "um fio de cabelo no meu paletó" a ter que me trancar no banheiro para poder tossir à vontade.

Mágoa de cabocla

Aconteça o que acontecer, queridos, jamais se desentendam com seus profissionais de beleza. Reservem a estes nobres trabalhadores todo o amor, a amizade, a disposição e o calor humano possíveis. Respeite-os, considere-os, mostre que sentiu saudades. E nunca, nunca descarte seus serviços sem uma explicação (minimamente convincente) prévia.
Minha ex-manicure era uma boa moça. Profissional razoável, honesta, limpinha, conversadeira. Mas meu coração tomou outro rumo e eu traí. Sim, amigos, abandonei nossa relação tão estável e parti para os braços (ou o alicate) de outra manicure. Estamos juntas, eu e minha amante das unhas, até hoje, mas...
A ex(manicure), por sua vez, quando percebeu que as garrinhas afiadas aqui estavam sendo cuidadas por outra lixa, armou-se do mais alto desprezo. A moça simplesmente passou a me ignorar. E dá-lhe nariz torcido e cara feia, quando eventualmente nos encontrávamos na mesma calçada. Mágoa.
Ainda tentei contornar a situação e confesso que fui canalha e cara-de-pau o suficiente para procurá-la mais uma vez, meio que forçando uma reconciliação. Foi inútil e penoso: raivosa, a mocinha tirou-me um bife.

Dia desses, na balada, chacoalhava as madeixas pra lá e pra cá quando meus olhinhos hipermétropes reconhecem, ao longe, meu querido ex-cabeleireiro, um excelente profissional que deixei de procurar apenas por mudança de endereço.
Corri para o abraço, saltitante e já devidamente embalada por algumas batidinhas do capeta, gritando "Elijahhhh!!!!" (fictício). Ele me afasta com as pontinhas dos dedos e faz cara de "a gente se conhece?". Eu ainda me esforcei: "Rapaz, há quanto tempo! Ué, não lembra mais de mim?".
E ele: "Não". Saiu, dando-me as costas sem mais delongas.
Ex profissionais de beleza podem ser cruéis desafetos.

27.7.09

Foot Spa e o ralador de cenoura


Quis o destino, este irônico contumaz, que a escritorinha aqui fosse parar, por alguns (e bons) anos, na residência de sua mais ilustre consanguínea, Madame Louise. Vivendo e aprendendo, caros amigos, e só assim mesmo para descobrirmos coisas fascinantes a respeito da vida, da morte e de tudo o que há neste meio. Foi com Madame que aprendi a dar as ordens exatas à empregada para que esta não lavasse minhas roupas de baixo e meus vestidos de noite a seco, para que ela (a empregada) não perdesse o ponto do suflê de salmão e para que não confundisse o Chardonnay com o Merlot, na hora do jantar. Foi com Madame que também aprendi a ser econômica (entre um sovina e um perdulário, case com o primeiro e seja a amante do segundo, recomendava-me); prendada (é só saber os endereços certos: da boa costureira, da quituteira de mão cheia, da faxineira eficiente); e caprichosa com minhas próprias vontades (Quer comprar aquela roupa? Compre! Mulher tem que andar bem arrumada, sempre. E ponha um brinco maior!, recomendava-me).
Nesta busca incessante pela beleza, fui presenteada com os mais valiosos conselhos, que me fizeram detentora das chaves dos portões do frescor e da juventude eternos (hehehe, vide post anterior, para notar a controvérsia). E se Mada
me nada num mar sem fim de dinheiro, sabe muito bem como preservar sua fortuna pessoal usando e abusando de recursos caseiros para manter-se sempre enxuta e gostosa pra caralho. "Quando o shampoo estiver no finalzinho, mistura com água. Rende e faz bastante espuma. Com o perfume também dá pra fazer isso. Se o baton estiver acabando, cutuca o resto com um cotonete, dá pra passar mais um monte de vezes. Com o esmalte, é só jogar um tantinho de acetona dentro que ele vira novo". Sabedoria, caros, não tem preço.
Num belo dia, levo um namorado para jantar nas
luxuosas dependências de Madame. Querendo mostrar meu lado mulherzinha-dona do lar, empunho o aventalzinho e, colher de madeira a postos, assumo o fogão. Para acompanhar a pasta que preparava com tanto carinho, decidi fazer uma requintada salada, e lá vai procurar um ralador para desfiar a cenoura.
Após o delicioso rega-bofe, o namorado segue até a pérgula da piscina de Madame desfrutar de um bom Marlboro quando se depara com uma c
ena memorável: Madame friccionava, com muito vigor, seus delicados calcanhares nada mais nada menos com o RALADOR da minha cenoura, nesta hora já devidamente degustada. O bofe achou estranho, mas preferimos não comentar o incidente. Como já disse, receitas caseiras para preservar a beleza feminina são o ponto forte de Madame Louise, e quem somos nós para discutir.

...

Muito tempo se passou e a escritorinha aqui tornou-se uma mulher de posses (hahahaha, agora vem a ficção). Zapeando pelo mundo mágico da TV, deparo-me com o anúncio do Foot Spa Ultimate, "mais uma exclusividade Polishop".
Foot Spa é a maravilha do mundo moderno. Uma verdadeira pedicure em casa, ao alcance de qualquer mãozinha inexperiente no manejo de lixas e alicates. Foot Spa, uma banheirinha para os pés, oferece "cinco sessões de relaxamento, pedra pome especial, limpa e massageia, alivia tensões, oferece bolhas relaxantes (???) e é considerado um pedicuro inteligente", olha que coisa linda de Deus.
Com a carteira recheada das mais verdinhas,
mando ver o aparelhinho requintado e presenteio minha querida tia e mentora, que se alegra com o regalo, deixando os pezinhos de molho quase que imediatamente. Vou-me embora feliz, na certeza de ter satisfeito mais um capricho da sofisticada Madame.
Uma semana depois, em visita surpresa, flagro Madame a lixar os pés vorazmente com, ora, vejam só, o ralador de cenoura. Alguns hábitos são simplesmente impossíveis de serem abandonados. Vai um parmesão aí?



Panela velha

Não é fácil retomar a prática na arte da paquera. Também não é moleza para jovens senhôuras recentemente solteiras encontrar perfis minimamente encaixáveis no modelito “futuro marido”. Aí dá-se início a uma série de erros: demos ouvidos a amigos, seguimos conselhos duvidosos ao pé da letra, aceitamos até um blind date com o primo solteirão daquele casal de conhecidos, cujo apelido é Milium e cuja ficha policial é mais extensa do que seu curriculum vitae.
Cinara bem que tentou ignorar o assédio virtual. Solteira, mas digna, jamais adicionava perfis de desconhecidos no Orkut e desprezava solenemente convites para o messenger vindo de estranhos. Dia desses e ela simplesmente dispensou o próprio chefe por conta de seu endereço de email duvidoso - com asteriscos, underlines e letras repetidas. Um amigo - tão solteirão quanto a própria - xingou: "Qual é o grande problema de adicionar alguém no msn? Se não gostar da conversa, é só bloquear", aconselhou o sábio.
Em princípio a moça não levou o papo a sério, mas aquela dúvida corroeu seu coraçãozinho: e se eu dispenso o cara que poderia vir a ser minha alma gêmea virtual? É de se pensar...
Até que surgiu um convite: rafaelsobrenomecertinhosemmiguxês@hotmail. É a minha deixa, pensou a moça, adicionando o rapaz à sua lista de contatos.
No sábado, o mocinho dá o ar da graça: "Oi, gatinha? Vc tc de onde?". Ela já não gostou de tanta abreviação. Mas continuou firme: SC. Rafael falava da Bahia. Do interior da Bahia. Beeeem interior. Céus, como este Brasil é pequeno.
Papo vai, papo vem e nossa heroína já havia descartado o baianinho como seu futuro namorado quando resolve perguntar a idade - é, foi ela quem começou. "21", conta o menino, candidamente. A balzaca ri, e decidi ser honesta quando é questionada. "30", diz.
Foi quando veio o primeiro banho de água fria: "Não dá nada. Eu gosto mesmo é das coroas", o guri teve a audácia. Coroas. COROAS. Co-ro-as.
A enfurecida mulher de 30 sobe nas tamancas, mas resolve manter a classe e a elegância que lhe são marca registrada: "Coroooooa? Nossa, você pegou pesado". E ele fecha a conversa com chave de ouro: "Panela velha é que faz comida boa. Me adiciona no Orkut, GATINHA".
Depois de correr pro banheiro dar aquela vomitada, e bloquear o inconveniente com força, nossa pequena deusa do amor foi retocar o creme antirrugas.

16.7.09

Alice e a solidão eterna

O fato é que nesta vida ninguém quer ser sozinho - pelo menos não a vida inteira. As pessoas querem se apaixonar, querem ser amadas, querem romance, flores, cineminha, sexo a qualquer hora do dia. Os mais afoitos exigem aliança, véu, grinalda, bolo com os noivinhos on top. Os mais sossegados querem companhia, alguém para enxugar os pratos e rir junto assistindo a uma maratona de Scrubs. Os ardentes querem, pelo menos, o "homem da manutenção" (ou a mulher, depende do caso), para aquelas horas em que a solidão parece tão avassaladora. Os tradicionais querem perpetuar a espécie e povoar o mundo com seus pequenos clones.
Mas Alice não teve nada disso. Nada. Alice nunca foi beijada. Alice nunca deu uns malhos, tirou um sarro, desceu na boquinha da garrafa, nunca sequer pegou na mão de algum jovem mancebo.
O tempo foi passando e os irmãos de Alice foram se acasalando e reproduzindo, deixando a pobre solteirona para o caritó, cercada de sobrinhos fofinhos e sorridentes. Mas ela não aceitou tão facilmente esta condição. A solidão tornou-a amarga, anti-social, e aos poucos ela foi se afastando do mundinho familiar que a cercava.
Aos 80 e tantos anos, Alice foi encontrada morta, em sua residência, onde morava, é claro, sozinha - apesar das tentativas dos irmãos de contratar uma governanta, a velha senhora, sempre ríspida e cruel, tratava de espantar toda e qualquer candidata ao cargo de acompanhante. Nem um gato, sequer um cachorro havia para alertar a vizinhança ou mesmo devorar seus restos mortais.
Com o evento do passamento de Alice, a enorme família reuniu-se, irmãos, primos e sobrinhos vindos de todos os recantos catarinenses. Mais do que uma despedida, o velório tornou-se uma festa. Reencontros, zilhões de fofocas postas em dia, telefones e endereços trocados para futuras visitas. Na missa, o clima era de Carnaval. Risadas descontroladas, histórias divertidas sendo relatadas nos mínimos detalhes, segredos outrora inconfessáveis sendo agora postos às claras. Alegria, alegria.
Todos rumavam abraçados para fora da igreja, alguns combinando um café na casa mais próxima, quando o padre, também ele contente por reencontrar velhos conhecidos, lembra de um detalhe: "Acho que estamos esquecendo de algo".
Era o caixão, que jazia, solitário, no altar. No enterro, nenhuma lágrima foi derramada.

14.7.09

Cinderela e as CGs assassinas

A moça não andava com sorte, ultimamente. Há pouco menos de um ano havia sido arremessada do veículo de seu motoboy favorito, voando sobre um carro e esborrachando em plena beira-mar (é, Charlotte, tem motoboy na história, mas hoje o conto não é sobre a senhorita, sorry). Na semana passada a globeleza mais manezinha ever, integrante da Unidos da Coloninha ("Nasci na comunidadji", conta, orgulhosa), rumava célere para o trabalho quando, ao atravessar uma movimentadíssima Gama D'Eça, do alto de seus saltinhos berinjela, foi colhida, já na calçada, por uma outra motocicleta (como diria Davis, "o que que o pobre passa?"). É, poderia ser um dos importados que invadiram a querida Ilha da Magia, mas os incidentes de Rubinha têm paixão por CGs turbinadas.

O voo foi longo e doloroso. "Quase batsi de cabeça na quina da eshcada", relatava, detalhista ao extremo. Curiosos foram se aproximando e a vítima ainda conseguia ouvir, esticadinha na calçada, como estava, comentários do tipo: "Ah, só pode ter morrido". Não morreu não, que seu santo é bombado. Foi carregada ao hospital e, meia hora depois, rumou novamente (e um tanto mais cuidadosa) ao trabalho, que Rúbia não faz corpo mole jamás.

O fato é que só após o atendimento a moça percebeu que havia perdido um de seus lindos sapatinhos berinjela. Catou uma havaiana qualquer e não se deu por vencida, mas no dia seguinte foi lá bater na frente da crime scene fuçando sarjetas e lixeiras. Perguntou ao porteiro: "Alguém por aí viu um sapatsinho?". Não, ninguém havia visto.

O par desamparado ficou pendurado em sua bancada de trabalho, triunfante, prova cabal de sua resistência às vicissitudes da vida. Quinze dias se passaram e a morenaça mais alisada de Imaruí (hahaha) ainda alimentava uma chaminha de esperança em seu belo coraçãozinho, sonhando em encontrar o calçado desaparecido. Não deu outra: seguindo, sempre no mesmo horário, para cumprir com suas obrigações trabalhistas, foi avidamente chamada pelo porteiro (nesta hora, já amigaço íntimo): "Ei, moça! Moça! Tu não ésh a moça atropelada pela moto? Então, achamos teu sapatinho!!!".

Ipi, ipi, urras de felicidade, abracinhos e lágrimas furtivas. O berinjela afivelado repousava, calmamente, sobre uma árvore. Sabe lá Deus como chegou lá em cima.