29.12.09

A Lei, o Lucky e a TV Globo

Você só percebe a partícula humana existente dentro de alguns indivíduos às vésperas das festas de fim de ano. Porque sujeito pode ser o maior pau no cu da paróquia durante os 11 meses, mas basta chegar dezembro pro cara lembrar que tem família, pai e mãe, irmãos ou um peixinho solitário que necessita de carinhos. Aí é um corre-corre dos infernos, compra de passagem, presentinhos e bibelôs mimosos para os mais chegados. Gasta-se dinheiro, energia, acumulam-se dívidas, adquire-se algumas dores de cabeça, mas... e daí? O sujeito comprovou-se humano, e não um andróide do mal.
Caso de nossa heroína suprema, Charlotte C., que a despeito de todas as estripulias e travessuras aplicadas aos próximos, de janeiro a novembro, torna-se uma santa na ocasião natalina. Porque é o momento do ano em que a morena volta pra casa. Sim, senhores, nossa brejeira paulistana tem familiares na Terra da Garoa, e os ama. Ama tanto que suporta 12 suarentas horas dentro do buzão só para abraçá-los, comer lentilha e pão de mel, embolsar algum e trotar para casa correndo ("mais de três dias junto da família e já começa a feder", costuma dizer).
Foi assim que no dia 24 de dezembro a endiabrada dos cabelos escovados permanentemente deu às caras em um enxameado terminal Tietê. Faceira com a chegada e com a temperatura agradável naquela chuvosa Londres tupiniquim (Londres com alagamentos e enchentes, claro), Charlotte sartou de banda, malinha à tiracolo, e tratou logo logo de puxar um Lucky Strike, que ela não é boba nem nada. "Não fumo em casa, boba. Meus pais não sabem. Fumo há 16 anos e meus pais não sabem", confidenciou-me, lika rebel teenager.
Pois bem. O que Charlotte não esperava era a Lei. Sim, a Lei que mudou a vida dos boêmios paulistanos. Que se para nós aqui a leizinha antifumo não fede nem cheira (basta esperar o badalar da meia-noite pra acender o primeiro de vários), em São Paulo as coisas mostraram-se diferentes. "Ao descer, dei de cara com um placão falando da tal da lei antifumo. Ok, já deu medinho. Mas decidi ignorar. Procurei um cantinho afastado e acendi unzão", contou a beldade, complementando que chupou o dito com tanta volúpia e frissón que o mesmo mal durou um minutinho. "Estava há doze hora sem fumar, o que você quer?".
Mas, ao contrário de nossa pacata e complacente Shark city, em Sampa a lei impera e se faz ser cumprida. "Já me preparava pra acender outro - o primeiro nem tinha matado o bicho - quando percebo pessoas me olhando. ESCANDALIZADAS. Sim, agora é crime fumar e eu me senti uma marginal, uma pecadora, messalina, devassa, vândala dos infernos. Um homem puxou do celular e passou a dialogar, apontando para mim. Por via das dúvidas, apaguei o cigarro ainda na metade", disse a morena.
A moça escapou da saia justa com a chegada de seus pais, que vieram recepcioná-la com flores, faixas e cartazes de boas-vindas. A chegada de Charlotte C. em M'Boi Mirim, onde reside, é sempre motivo para muita comemoração por parte da comunidadji. Na segunda-feira, no entanto, Charlotte já se encontrava firme e forte no Tietezão, abanando o lencinho branco em despedida aos seus, com uma mala extra para acomodar todos os mimos adquiridos. A boca SECA para uma pitada básica.
"Foi só a mãe virar as costas e eu nem pensei: puxei um Lucky e acendi, sorvendo-o com delícia". Muitos minutos depois é que a moça foi perceber a presença de uma equipe da Globo zanzando pelo terminal, "materiazinha básica de gente que vai e que vem, sabe como é", relatou-nos a jornalista, expert em mídias impressa, falada, televisionada, eletrônica e digital.
Não é nada, não é nada, algumas horas depois, quando a jovem senhôura esticava as pernas em Registro, toca o telefone. Mamã. Sim, Charlotte C. foi exibida em rede nacional para o mundo inteiro ver, na telinha da Grobo, fumando um cigarrão enquanto revirava os olhinhos de prazer. Seu segredo de 16 anos havia sido descoberto.

10.12.09

Cera quente, suor e lágrimas

Ah, a incrivelmente árdua missão de ser mulher... Ter que batalhar de igual pra igual com as encantadoras criaturas do sexo masculino, ter que falar grosso, socar a mesa, coçar o saco, se impôr, mas tudo com a delicadeza de uma bailarina russa. E com o aspecto o mais semelhante possível ao de uma bailarina russa.
Nós, mulheres, não podemos ter cabelos brancos. Quilos a mais. Pele ruim. Odores desagradáveis (bom, ninguém deveria ter odores desagradáveis). Não podemos andar por aí com unhas descascadas nem com pêlos em profusão debaixo do braço.
Uma amiga costumava maldizer o momento em que as fêmeas resolveram pôr as manguinhas de fora e queimar sutiãs: o princípio do fim. Sim, porque antes éramos bonecas de porcelana protegidas dentro da segurança do lar e amparadas pelo provedor-mor, o marido, este sim um ser (naquela época) ultra-valorizado. Quando precisávamos retocar as raízes no coiffeur de nossa predileção, bastava bancar a Jane Jetson e esticar a mãozinha que o esposo generosamente depositava aquela quantia suficiente para limparmos as taturanas chamadas de sobrancelhas e desfilarmos com as pernas lisas e macias como as de um bebê recém-nascido.
Hoje, para estarmos belas, frescas e joviais, precisamos reservar uma parte considerável de nossos provimentos para estes gastos considerados "supérfluos" pela macharada de plantão - que pode até não notar, mas evidentemente aprova o resultado: apareça na frente dele com as virilhas enxameadas de inconvenientes pelos pubianos, pra ver só...
Além de gastarmos rios de dinheiro, há o sofrimento, este aspecto não-variável da busca infinita pela boniteza. Pois bem, meninas. Hoje me submeti a uma daquelas torturantes sessões de depilação "íntima" pós-inverno, só imaginem... Ou não.
Não bastassem a dor e as lágrimas, que me fizeram andar a Tubalcain inteira com as pernas ligeiramente abertas, há o constrangimento. Porque, ah, senhoras e senhoras, consulta ao ginecologista é água com açúcar perto de uma vigorosa sessão de depilação. Sim. A sádic... ops, a profissional te vira do avesso, te abre, te escancara, te faz sangrar, gemer e ulular - e tudo absolutamente sem qualquer espécie de conotação sexual. O talquinho salpicado ligeiramente nas partes, no momento pós-tortura chinesa, é um bálsamo colhido no Éden.
Sofremos, pois. Tudo para ficarmos dignas, limpinhas e perfumadas. E enquanto ajeito a lingerie que simplesmente colou na virilha esquerda (restos de cera, povo), marco na minha nova agenda a data do próximo martírio, em fevereiro.


26.11.09

Nina ou Um redemoinho em minha vida

Nos meus sonhos mais dourados eu me visualizava bem-sucedida, rica, solteira mas bem amada, dona e proprietária de um apartamento lindo, tendo como companhia constante um gatinho manso e preguiçoso de bigodes espetados, um fã incondicional de uma boa soneca 18 horas por dia. Mas nem tudo acontece do jeito que a gente sonha - o que não é de todo mau, vamos e venhamos.
Aí que me vi entre a cruz e a caldeirinha quando a colega, chorosa, informou-me que seu novo senhorio proibia a presença de animais domésticos no prédio. Desta maneira, teria ela que se livrar da Nina.
A Nina eu conheci desde bebezinho - o que não é grande coisa, visto que ela só tem quatro meses. Costumava visitá-la uma vez por semana, festinhas na cabeça e na barriga por uns dez minutos e só. Encorajada pela cerveja gelada, tomei as dores da amiga e decidi, do alto da minha embriaguez: "Eu fico com a Nina!", disse, enquanto entornava mais um copo. Que decisão impactante, povo...
Trouxe a menina pra casa e, em menos de 12 horas, percebi que não poderia comportar aquele mini diabinho da Tasmânia em meu pequeno apartamento. Tapete, sofá, lençol, chinelo, perfex, esponja, tudo o que ela podia alcançar sofreu alguma consequência digamos que... desagradável.
No segundo dia de convivência eu já estava decidida a repassar a pequenina pra outra família mais paciente. A amiga aborreceu-se, mas prometeu buscar um dono suficientemente desapegado de seus bens para suportar o pequeno serzinho.
Terceiro dia, e eu às turras com Nina, destruidora de lares, Gremlim cruel, monstro devorador de: borracha, madeira, estofados, tecidos, cimento (!), couro e o que vier pela frente. Fim da tarde e toca o telefone. Era minha suposta salvadora, com a notícia redentora: "Arrumei uma dona pra Nina, ela vai te ligar daqui a pouco pra combinar de vir buscá-la".
Desligo o telefone e me vejo afogada numa poça de lágrimas e soluços.
Eu amava a Nina. Sim, eu amava aquele demoniozinho peludo e de presas afiadas que tão inconsequentemente roía meus parcos pertences.
Desespero. A futura dona em potencial ligou. Não atendi. Deixei para resolver esta dura pendência no dia seguinte. No dia seguinte, ela ligou de novo. Não atendi. E tomei a árdua decisão (desta vez pra valer): A Nina é minha e ninguém tasca. Com chinelo destruído, bolsa nova arrebentada e óculos de grife mastigado.
Como explicar um amor assim?
Cuidar da Nina é praticamente um trabalho full time. A bichinha exige atenção, chamegos, brincadeiras, exige seu lugar de honra no sofá e na cama, exige ventilador ligado, água gelada, janela aberta. Exige perfex limpinhos e novinhos para serem destruídos e terem suas entranhas espalhadas pelo sofá. Biscoitos Scooby, ração molinha da lata, água com gás, Activia, vacina cara, tosa e lacinho na cabeça (ok, isso ela não exige, mas achei de bom tom).
Apesar do prejuízo financeiro e do pouco tempo que agora me resta ao longo do dia para o cumprimento de outras atividades "menos relevantes" (como trabalho e diversão, por exemplo), ela tornou-se minha alegriazinha de viver. E como diz minha mãe: "Não tem como a depressão chegar perto com uma coisa assim". É verdade. Por mais que eu me aborreça e me perturbe com acontecimentos da vida, tudo vai por água abaixo ao olhar naqueles olhinhos de jabuticaba madurézima e sentir o poder de seus dentinhos pontiagudos na polpa da minha mão.
Tudo vale a pena por ela. Até mesmo isso:


Haste do óculos de sol e cara de culpada.

Peça do jogo americano colorido.

Pé da Havaiana.

Zíper da bolsa nova-sem-nenhuma-prestação-paga-ainda.

Quina do móvel.

Cenário de destruição.

A boneca da mãe.

3.11.09

Presentes gregos

Todo mundo gosta de ganhar presentes, certo? Não necessariamente... alguns presentes acabam se tornando incrivelmente gregos, e aí, queridos, há muito pouco o que fazer. Não dá pra remediar o estrago quando você presenteia a amiga com aquele seu perfume favorito - mas que para ela tem cheiro de cadáver. Não se tem muito o que fazer quando o amigo secreto olhou torto para aquela calça jeans número 42 - sendo que ele veste 55 e você, é claro, só foi notar tardiamente. Não há nada pior que a cara daquela tia antipática ao abrir seu presente comprado com tanto sacrifício e se deparar com xícaras made in China, com aquele decalque adesivo colado e tudo, sendo que a fina só usa porcelana eslovaca.
Eu, por exemplo, que até ontem me achava um poço de bom gosto e sofisticação, senso e sensibilidade, amarguei horrores com um ex-namorado ultra-exigente. Acho que o pobre nunca ganhou um presente que realmente gostasse de moi aqui (foi por isso que terminamos, não sabiam?). Num Natal fiquei faceira ao comprar, em segredo, um MP3 (dos baratinhos, eu confesso). A cara de raiva que o moço fez quase me fez regurgitar o peru.
Charlotte já passou por situação semelhante - mas como vítima. Nossa querida heroína, ultimamente voltada ao universo acadêmico, esperou ansiosa pelo tão importante Dia do Professor - afinal, era muito provável que rolasse um algo a mais que maçãs importadas do Angeloni. E rolou.
Fim do expediente e a morenaça dos cabelos de fios de aço escovado mais aloprada da paróquia do São Judas Tadeu foi surpreendida pela chefa, na porta de sua sala de aula, enquanto embalava os fichários, boletins e Trabalhos de Conclusão de Curso dos aluninhos. "Oiiii... tem uma surpresa pra ti na minha sala!". Os olhos de Charlotte, que não dispensa nem injeção no baço se for de graça, brilharam alucinadamente de alegria e expectativa. Mas, ao adentrar o recinto da big boss...
"Um beta? Um peixe? É isso mesmo?", retrucou, sempre muito polida e diplomática.
"É. Um peixe. Achei que seria legal pra te fazer companhia, já que tu moras sozinha...", alfinetou a autoridade.
"Mas um peeeeixeeeee??? Eu já tive peixe. Eu mato peixes. Não me dou com peixes. Não quero esse peixe", argumentava Charlotte, tentando discretamente dispensar o mimo.
"Mas guria, você é uma jovem que trabalha na área da educação, disciplinando, educando, preparando. Conviver com um bichinho em casa vai facilitar seu relacionamento com as pessoas".
Charlie pensou em agarrar um machado e decepar o crânio da atrevida, mas fingiu-se convencer e, contendo um resmungo, botou o aquário (daquelas redondos, de 1,99!, contava depois, indignada), debaixo do braço, com o beta vermelhinho dentro, e bóra pra casa comer bolacha.
"Ainda se fosse um azul... o vermelho eu já tive, morreu...". Pobre peixinho vermelho.

O maior espetáculo da Terra?

Até lembro da bolsa que eu usava: uma vermelhinha, linda, onde guardei algum dinheiro para comprar quitutes. Tinha sete anos e foi minha primeira experiência no circo. Não lembro de ter gostado - ou não - mas naquela época o Vostok era O circo e não podíamos desperdiçar a oportunidade. E o maior espetáculo da Terra vinha completo: malabares, equilibristas, mágicos, palhaços anões, leões, tigres, macacos (possivelmente maltratadíssimos, mas ninguém ligava) e até Globo da Morte, experiência traumática pra mim, que não pude com aquele furdunço - deve ser por isso que tenho pavor de ronco de motocicleta, coisa de pobre farofeiro que financia a CG em 42 meses.
Mas havia a proximidade: a casa da avó era ao lado do local onde circos (e parques de diversões - Tupã, invariavelmente) montavam acampamento. E a visitação era permitida, sempre. Anos depois vi uma das cenas mais deprimentes da vida, um elefante acorrentado pela patinha. Digo patinha porque era uma patinha mesmo, difícil reconhecer aquela criaturinha magérrima e sofrida, mais um dog alemão do que o nobre gigante da Savana. E ele chorava. Sobre a pele empoeirada do rosto corria uma lágrima grossa, coisa que me fez soluçar de angústia (sabe-se lá se não era apenas pra lubrificar os olhos). Aí passei a odiar circo com apresentação de animais de todo o coração. Horror, repulsa. E, please, poupem-me dos discursinhos pró-mundo circense, pode-se fazer muito melhor, Cirque du Soleil taí pra confirmar.
Mas aí veio a sobrinha e suas inúmeras vontades. Quando anunciaram que os Backyardigans fariam uma apresentação em minha querida Shark city, não pensei duas vezes em levar a pequena. E esta apresentação, vejam só, era num circo - sem animais, pelo menos.
Mais de vinte anos após minha primeira experiência circense, pude perceber a tão propalada "falência" desta modalidade de entretenimento e
cultura. Os artistas hoje são em número reduzido - e executam tarefas múltiplas. O vendedor de pipocas e algodão doce aparece, minutos depois, dançando no picadeiro, girando no Globo da Morte (maldita CG) e, outra vez, vendendo bugigangas (que certamente é o que garante a sobrevivência da trupe - o comércio de quinquilharias e guloseimas mil).
Para encanto da menina, o palhaço Batatinha (Renato Aragão e Praça É Nossa não sabem o que estão perdendo) surge momentos após sua divertidíssima (not!) apresentação vendendo batatas chips, daquelas encharcadas de óleo re-re-reutilizado.
O engraçado era ver a galerinha - maioria absoluta composta por jovens dos 20 aos 30 - do palhaço à contorcionista, passar faceira vendendo coisinhas e deixando um rastro de marofa pra trás, hahahaha... A vida no circo deve ser curiosíssima.

Mas não se pode negar a magia e o encantamento exercidos pelo circo: meu acompanhante de ocasião, por exemplo, mostrou-se tão deslumbrando com a vida mambembe que se dispôs a largar a dura jornada de jornalista e cair na estrada encarnando o Tyrone e a dança com varas em chamas. "Isso eu sei fazer", garantiu o sujeito.



Tyrone é muito bem tratado no Circo Italiano...

6.10.09

O bom companheiro

Parece até uma daquelas amiguinhas da adolescência, com quem cruzávamos a cidade de braços dados, olhando vitrine, e com quem passávamos horas a fio penduradas no telefone após uma manhã toda lado a lado da sala de aula (né, Lô?). A diferença é que agora somos pessoas maduras e bem resolvidas, ricas e com carro imaginário na garagem. Também falamos muito mais sobre sexo - e com mais conhecimento de causa. Quer dizer, falamos uma vírgula: ELE fala. Fala muito. Tudo deriva do sexo e ruma pro sexo. Uma putaria só.
No início confesso que estranhei. No meu universinho até então praticamente todo composto por amiguinhos do sexo feminino, V. chegou destoando. Porque não tem falsos pudores e moralismos vãos. Mas isso só fui perceber depois. E quando se percebe, meus amores, V. se torna indispensável em qualquer vidinha que precise urgentemente sair da monotonia.
Tornou-se meu parceirinho para o que der e vier. Jura que vai me fazer encontrar o príncipe encantado (e é exigente, só considera homens loiros, olhos azuis e com mais de 1,80m, como se eu estivesse podendo tanto, haha). Por via das dúvidas - e para nos blindarmos contra a solidão, programamos casório: em cinco anos, se nada de bom acontecer, iremos unir os trapinhos. Queira Deus que um sapo qualquer me despose até lá.
Em nosso último encontro, uma de suas hilariantes tiradas. A amiga sugere que ele se apresente ao novo vizinho (que tem namorado, mas "não dá nada").
"Você bate na porta com uma xícara na mão e diz: Moço, tens açúcar?"
Rápido e rasteiro, e sempre muito prático, ele sugere outra abordagem: "Que nada. Melhor bater na porta com uma camisinha na mão e perguntar: Moço, tens um pau?". Este é V., em sua mais puríssima essência.

22.9.09

Vida e morte

Contando assim até pode não parecer, mas é claro que ela é a melhor pessoa do mundo. Generosa, um coração de ouro, dedicada aos seus e aos outros - às vezes mais aos outros que aos seus. Foi por isso que acabou sendo "descoberta".
Há alguns anos foi convidada a cuidar de uma idosa que agonizava no hospital. Carinhosa, comunicativa, não demorou para conquistar a todos - os familiares e a própria moribunda. Fervorosamente católica (mas com pretensões espíritas, se é que dá pra entender), sabia perfeitamente como amenizar aquela atmosfera de dor e despedida, cantarolando seu repertório variadíssimo, que vai de Padre Marcelo ao Fábio de Mello, passando pelo Zezinho.
Após o falecimento da velha, sua fama já havia corrido o mundo. O telefone nunca mais parou. Desde então acompanhou as mais diversas personalidades em seus últimos momentos na Terra, transmutando a tristeza de amigos e parentes em resignação, confortando e tranquilizando com palavras doces e serenas.
Até a semana passada. Acontece que ela jamais consegue dizer não. E foi assim que aceitou acompanhar uma senhora em fase terminal de um câncer. Passaram-se dois, três dias, e a senhora, já em seus estertores, teimava em se agarrar a esta tão desgraçada dimensão.
"A velha não morre!", desabafou, em visita à filha. "E amanhã é a inauguração da paróquia. E com o padre Edison!", antevia, deslumbrada pelo evento do ano.
Dez horas da noite e a filha é surpreendida pela campainha estridente. Pelo olho mágico, enxergou o sorriso de felicidade da mãe. Abriu a porta e nem teve tempo: "A velha morreu!", comemorava, faceira. Sua presença na missa-estreia estava garantida.


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Já falei, e não minto: ela é realmente a melhor pessoa do mundo, e se teve a frieza de comemorar a morte de uma pobre velhinha é porque sabia que ela seria mais feliz partindo desta para uma melhor.
Antes de ir embora, lembrou do marido da recém-falecida, também tratando-se de um agressivo câncer. "Ao receber a notícia da morte, desabou numa cadeira e chorou copiosamente, cobrindo o rosto encovado com as mãos".
Subitamente séria, revelou-me: "Quando a família a trouxe ao hospital ela ainda estava bem, falante. Despediu-se do marido dizendo: volto logo, meu amore!", contou-me, enquanto secava uma lagrimazinha travessa que cismava em escapar por debaixo dos óculos.


Zapping

Eu definitivamente não nasci para passar uma noite de sexta-feira trancada em casa - mas eventualmente esta se torna sua única opção, quando todos os seus amigos arranjam coisas melhores para fazer, como chat line, dormir ou "ficar no meu cantinho".
Aí eu abri uma cerveja, enrolei-me no cobertor azul e dei início a uma saudável zapeação desenfreada. Foi quando meu pesadelo começou.
A primeira opção, no AXN, não teria sido tão ruim caso eu não tivesse assistido A Balada do Pistoleiro umas quatro vezes.
Queria ver um filmaço, um blockbuster recordista de bilheteria em algum momento da história do cinema, com bons efeitos, bom roteiro, bom elenco. Passei para o FX e... Jurassik Park. Argh.
Aí de repente pensei em uma comediazinha romântica leve, adocicada, besta, deste gênero com o qual não tenho a menor afinidade, mas que abriria uma honrosa exceção naquela fria e solitária noite de sexta. Pulei para a Warner e encontrei Ben Stiller choramingando em Quero Ficar com Polly. Putz.
Decidi então que queria assistir apenas uma comédia, sem romance, sem água e açúcar. Queria rir, desopilar o fígado, abstrair. Passei para a Sony e quase vomitei: Terapia de Choque. Adam Sandler e Jack Nicholson em fim de carreira? No chance.
Aí fiquei melancólica, carente, manhosa. Queria uma bela história de amor. Na Fox Life rolava O Casamento do Meu Melhor Amigo. E bem na hora que o Rupert Everett começa a cantar a minha música preferida:
"I'm the morning I wake up
before I put on my makeup
I say a little prayer for you..."
Percebi que não seria o melhor remédio e passei para o Fox Life. Sim, sou fã incondicional dos trash, mas uma Sexta-feira 13 com um Jason que surge no meio de jogos de realidade virtual não rola. Coisa mais podre ever, e sem ser engraçado, o que é lamentável.
Ainda tentei o A&E (Men in Black) e a Warner, mais uma vez (O Professor Aloprado, hahaha).
Finalmente recuperei a sanidade e lembrei que existem outras coisas no mundo além da programação da TV. Não pensou em internet, né?
Então fui lá e retomei meu Virgínia Woolf. Quinze minutos depois, estava dormindo.

10.9.09

The Other side

Pois bem. Como nada na vida é por acaso, aproveitei minha ida à Shark City para retornar ao blog imediato. Amei a cidade, amei mesmo, linda, linda. Gostei tanto que em breve me mudarei para assumir o posto de Secretária de Assistência Social. Sério...de onde saiu tanto pedinte? Aqui em Joinvils city, existe a lenda de um delegado que recolhia todos os andarilhos da cidade para os desovar na Serra de Curitiba. Acho que nas terras tubaronenses alguém deve ter feito o mesmo, só que na cabeceira da Ponte Heriberto Hulse. Quanto à vingança, sim, tenho planos para a cara parceira blogueira conhecer a Cidade dos Príncipes, mas isso é papo para outro post. Este não é um bom incentivo para continuar esta história Imediata?

8.9.09

As Imediatas: o reencontro

A TV não cansa de mostrar, em filmes, séries e afins, aqueles eventos em que se promove o encontro de uma turma de colégio/faculdade muitos anos após a formatura. Homer Simpson já esteve em um; Peter Griffin too. Até a Globo já fez minissérie baseada nesta premissa, a Queridos Amigos.
Invariavelmente, cabe a estes colegas provar o quanto se tornaram ricos, bem sucedidos, bem empregados, vitoriosos e prósperos. Às mulheres, há de se ter filhos, uma bela casa própria, carreira de sucesso (a faculdade serviu pra que?); aos homens, a obrigação de ter fisgado a mais gostosa do quarteirão - gostosa e honesta, o que é bastante relevante. Carro do ano, joias, uma eventual estola de vison dependurada nos ombros, caso faça frio. Bons dentes, ausência de cabelos brancos, o que se quer é impressionar, sejamos francos.
Os que não conquistaram tudo isso ou vão mentir ou faltar ou ainda irão comparecer e vagar pelos cantos, torcendo para não serem vistos e interrogados.
Claro, tudo isso aí de acordo com o imaginário castrador, implacável e capitalistamente selvagem de Hollywood. No Brasil estes encontros sempre acabam em festa, cachaçada, ricos se misturam aos pobres, uns pedem emprego aos outros e o pagode se estende até as oito da manhã.
Neste fim de semana promovi um mini-encontro entre moi e uma grande amiga dos dourados anos universitários.
Éramos ambas incrivelmente jovens, bestas e imaturas, e perdemos grande parte da diversão sendo fiéis e dedicadas aos nossos namorados (jovens, não namorem durante a faculdade, fikadika). Naquela época nossos fantásticos planos para o futuro se resumiam em 1) trabalhar na Marie Claire (hahahahahaah) e 2) casar antes dos 25, com nossos respectivos companheirinhos.
Mesmo com a (relativa) distância, Stellita B. e eu mantivemos os laços de amizade e demos início a este bloguinho cor-de-rosa e abusado. Sim, ela é a outra imediata que dá título ao blog, apesar de suas esparsas contribuições (não posso deixar de alfinetar, néam?).
Após nove longos anos, nos reencontramos, finalmente, em terras sharkcitianas. Não pude conter a lembrança (e é esta a razão do longo nariz de cera) dos "bailes de reencontro da turma de 1984", que a gente vê na TV. Porque se a falta de um super emprego como editora da Revista Piauí, a ausência de filhos ou ainda de um marido rico, lindo e apaixonado não me constrangem, outras ocorrências contribuíram para que eu escondesse meu rico pescocinho na areia.
Em dois dias pela cidade, Stellita foi abordada por sete andarilhos sedentos de atenção, conheceu alguns de nossos admiráveis pontos turísticos, como pontes Nereu Ramos e Heriberto Hülse - além da pênsil, que é luxo e alegoria (e eu falo sério, adoro), viu a cidade coberta de bosta do início ao fim da M.M.Cabral (maldito desfile de 7 de Setembro!), comeu no Hard Dog (yeah!) e ainda assistiu show com Kátia Cega (depois posto foto). Também degustou um churras safado e saboreou uma casquinha na sorveteria mais badalada da city (onde foi devidamente xavecada pelo proprietário, solteiro e deslumbrante).
Além de tudo isso, ainda levou impressionantes OITO HORAS para chegar em território seguro (Joinville, onde mora): feriadão com sol é a maldição dos catarinenses viajandões.
Mas valeu toda a pena (pelo menos para mim). Apesar dos inúmeros momentos de constrangimento, conseguimos botar pelo menos uns quatro anos de fofocas acumuladas em dia. Só temo pelo dia em que resolver visitá-la na Terra dos Príncipes: qual será sua vingativa programação especial?

Saindo da rotina

Deve ser por isso que levo tanto tempo para voltar à minha Ilha predileta - esta capacidade inata de me envolver em confusões - ou de, pelo menos, presenciá-las.
Cheguei lá no fim da tarde de sexta-feira e o amigo-anfitrião deixou-me abandonada, mala, cuia e cofrinho à mostra, por mais de uma hora no Rita Maria. Juro que tive ímpetos de (re) tomar o caminho da roça (nada mais justo que roça, quando se trata de Shark city).
Mas persisti e finalmente o motorista veio me buscar, de limo (tash tolo que ando de outra coisa em Floripa?).
Depois de algumas flutes bem geladas, para esfriar meus ânimos, tomamos o rumo do meu bar favorito ever - e fomos barrados pelo gentil pelotão de fuzilamento do clube, denominados seguranças e recepcionistas.
Todo o sofrimento valeu a pena ao rever amigos queridos e flagrar nossa pequena deusa egípcia do amor abocanhar mais uma vít... digo, mais um coração.
Mas foi no outro dia que o pau pegou (hahahahah). Inspirados pelo hilariante Brüno, saímos saltitantes pela selvagem vida noturna mané. Serei discreta, mas confesso que presenciamos cenas do filme sendo repetidas, ao vivo e a cores. Pânico na Rio Branco.
Aí no domingo foi preciso recobrar as energias, com um almoço tranquilo num belíssimo lugar. Eu viveria disso sem o menor peso na consciência.
O findi terminaria razoavelmente bem não fosse a Santo Anjo ter enviado minha mala (e minhas novas aquisições) para Porto Alegre. Mas isso fica para outro dia.

18.8.09

O hábito que faz a monga

É fato, todos nós temos nossos velhos e bons (ou terríveis) hábitos, dos quais sequer nos esforçamos para nos livrar. Dormir de meias, comer um doce depois do almoço, fumar um cigarro antes de ir para a cama, conferir os emails logo que inicia o computador, todo mundo, de maneiras diferentes, segue um protocolo particular ao longo do dia. Deixar estes hábitos (ou manias, ou esquisitices) de lado é sair da rotina - o que, muitas vezes, pode até parecer desagradável.
Li dia desses, num dos blogs que acompanho (não lembro qual, mals aê), a história da menina que era tão habituada ao uso de sutiã que, belo dia, percebeu-se debaixo do chuveiro com a peça, já irremediavelmente molhada.
Uso óculos desde a mais tenra idade e, ao contrário do que poderia parecer, sei exatamente quando me livrar do bichinho: não consigo, nunca, dormir com ele na cara. Também nunca entro com o danado no banho. Nem propositalmente. Tanto é que tive que fazer um esforço hercúleo pra levá-lo pra baixo do chuveiro. Explico: ganhei um liquidozinho limpador muito do eficiente, na ótica, e antes de aplicá-lo deveria lavar o óculos com água e sabão. Nada melhor do que inaugurar meu chuveiro recém-consertado (yes! eu tenho água quente!) levando meu querido comigo. Mas quem diz que eu consigo? Parece um bloqueio, algo quase físico.
Existem hábitos dos quais a gente não consegue se livrar, amigos. E é triste, às vezes. Ontem, fim de tarde, desci com o lixo (coisa que frequentemente esqueço de fazer). E bem na frente do prédio dou de cara com um tipinho fofo, todo arrumadinho, tipo "estou saindo do escritório agora e vou pra um happy hour now". Ele me olha da cabeça aos pés. E antes de entrar em seu joguinho de sedução, percebo que estou usando meias e Havaianas. MEIAS E HAVAIANAS.
Morri.

16.8.09

Banho de água fria

Era 2001 e eu morava em Recife, fazendo sabe-se lá o que. Tínhamos uma doméstica, indicada pelo porteiro (a senhora era a sua mãe), que limpava e cozinhava. Humilde, a mulherzinha vinha trabalhar todos os dias, bem cedinho, de pés descalços. O único par de sapatos era reservado para os cultos da igreja que frequentava. Era "inverno", naquela região do país (hahahaha), e os termômetros registravam agradáveis 27 graus. Sim, muita gente andava de cacharrelzinha de lã, tiritando de frio, enquanto a moçoila aqui suava em bicas a regatinha (eu disse regaTinha, com T).
Belo dia e a senhora, cabisbaixa, faz um pedido inusitado: queria permissão para tomar banho de chuveiro "elétrico". Com mais de 50 anos de idade, ela nunca havia tomado banho de água quente. E, como estávamos "no inverno"...

Desde sexta-feira tenho encarado o chuveiro em sua versão mais cruel, principalmente para os padrões sul-catarinenses: frio. Ele não explodiu, não se incendiou, nem fez aquele barulhinho pavoroso indicando que a resistência já era. A água simplesmente ficou gelada. E eu não fujo de minha herança tupi-guarani, senhores: enfrento o chuveirinho assim mesmo, de peito aberto (quer dizer, bem encolhidinha, pra falar a verdade), que minha porção portuguesa é absolutamente irrelevante para me convencer a ficar sujinha.
E ao contrário de alguns conhecidos, eu não tenho a menor habilidade para reparos gerais: mal sei trocar uma lâmpada; botijão de gás, nem a pau (medo de deixar vazar), há meses venho sofrendo com um vazamento ridículo na pia do banheiro. Nem ouso esticar a mãozinha pra mudar a temperatura do chuveiro (e se levar choque?).
Felizmente, tenho pessoas jeitosas na família que, queira Deus, poderão livrar-me deste infortúnio. Espero que o socorro venha logo, já estou sentindo uma incômoda pontada no pulmãozinho...



15.8.09

Dia dos Solteiros (ou Sem pânico no sábado à noite)

Sair sem hora pra voltar, flertar com todos os tipinhos interessantes da balada sem levar beliscão no braço, bebericar mais de dois drinks sem a pressão de uma cara feia do seu lado, almoçar uma pizza inteira e jantar um tomate; ou nem almoçar ou jantar, pintar o cabelo de loiro, carregar na maquiagem, curtir sua TPM sem grandes consequências, usar com tranquilidade aquela calcinha bege (!) de elástico frouxo, dormir com a cara coberta de creme, atrasar a depilação... tem coisas que só a solteirice faz por você.
Hoje (15/08) é o Dia dos Solteiros. A questão é que ser solteira (o) com dignidade é uma arte - porque não há nada pior do que um solteiro desesperado, convenhamos. O sujeito que atira para todos os lados, a gata que arrasa no decote vertiginoso pra chamar a atenção da galera, o mocinho que ganha inspiração (para fins nada éticos) fuçando perfis de Orkut alheios, fofuchas que adicionam até o Papa no emeésseene na esperança de rolar um algo a mais.
Tem gente que até cria um código de conduta pra catar alguém: beber o suficiente para ficar alegrinha, mas não ao ponto de revelar a data de nascimento; comprar roupa nova a cada balada, arrasar na chapinha todo santo dia, publicar fotos "sensuais"no site de relacionamentos e deixar o álbum aberto ao grande público, pregar a estatuetinha de Santo Antônio de ponta-cabeça até o pobrezinho providenciar um marido, ir pra cama com todos que se aproximam, ou nunca ir com ninguém porque "não é o momento certo".
De fato, ser solteira é uma delícia - ainda que muitos solteiros não concordem com isso. Aliás, meu desafio diário, atualmente, é tentar fazer com que alguns amigos realmente acreditem numa vida de luz e magia fora dos laços sagrados. É claro que não pretendo terminar meus dias tão solitária a ponto de conversar com as paredes, e acredito que em algum lugar do mundo meu príncipe encantado ruma em minha direção (provavelmente sem cavalo branco, portanto, a demora). Mas há que se ter paciência e curtir todas as vastas possibilidades oferecidas por este período de liberdade. Até porque - e aí, você, que é casadão (ona), tem que admitir - não há comprometidos na face da Terra que não cobicem a vida de solteiro (pelo menos em algum momento do dia). Aproveite esta fase.


Tá felizona solteira e pretende ficar assim por anos a fio? Ótimo. Ou não vê a hora de conhecer aquelezinho que fará seu coração bater mais rápido? Ok. Só faça um grande favor à humanidade: queime a calcinha bege e agende uma depilação urgente!


13.8.09

Pandemia (ou O Lado Bom do Toque de Recolher)

Tendências macabras à parte, a gente meio que sempre esperou por um momento desses. Não bastassem produções hollywoodianas como Resident Evil, Extermínio, Epidemia e Eu sou a Lenda, que plantaram no inconsciente coletivo imagens devastadoras do que seria a epidemia de um vírus letal, há alguns anos (em 2005, se não me falha a memória) a imprensa brasileira alardeava a possibilidade da chegada, em território nacional, de uma doença que "devastaria 1/3 da população mundial até o fim do ano" (Revista Veja, 2005), a Gripe Aviária.
Eu e as alopradas a quem chamo de amigas passamos uma noite inteirinha divagando a respeito, e chegamos à terrível conclusão de que pelo menos uma pessoa naquela mesa de bar não estaria viva em 2006. Houve choro e ranger de dentes.
Sobrevivemos, no entanto. A Aviária não veio, mas eis que surge a Suína, trazendo com ela o pânico, a insegurança e a paranoia. Parece até mentira, mas esta pacata cidadezinha que escolhi para viver, este pedacinho de terra cortado por nosso bucólico Shark river, é considerada hoje o olho do furacão da Gripe A, com algumas mortes registradas e dezenas de casos suspeitos.
Aulas foram suspensas, festas, cinema e até missas e cultos estão sendo cancelados. A palavra de ordem agora é "álcool gel". Beijos, abraços e cumprimentos mais efusivos estão proibidos. E desta vez eu não estou exagerando.
É como um toque de recolher, que foi submissamente aceito pela população amedrontada. Estabelecimentos comerciais já lamentam a brusca queda nos lucros. Até as fatídicas formaturas, tão em voga por estas plagas, foram transferidas, pra se ter uma ideia mais concreta do drama.
Existem aqueles que estão arrancando os cabelos, banhando-se em álcool gel e instalando tranca dupla na porta de casa (vai que o vírus tenta entrar na marra?); outros (e muitos) invadiram os supermercados locais para estocar comida em casa - guerra biológica não é mole, não, amigos. Muita gente já desfila com a fatídica mascarazinha na cara: a hora é de prevenção.
A boa notícia (para mim) ficou por conta do cancelamento de um evento posto em prática uma vez por mês, nesta megalópole de meu Deus, quando o comércio abre suas portas durante o sábado. Para bombar as vendas em datas "especiais" (como no Dia dos Pais), a câmara dos dirigentes lojistas daqui fecha a avenida e monta um cirquinho musicado bem no miolo do centro da cidade.
Com a perigosa gripe, no entanto, o evento foi cancelado, no último sábado, ficando eu aqui livre das incômodas apresentações de muóda sertaneja (tudo muito ao gosto dos meus queridos conterrâneos, né, Guigui?). Ok, prefiro sofrer com "um fio de cabelo no meu paletó" a ter que me trancar no banheiro para poder tossir à vontade.

Mágoa de cabocla

Aconteça o que acontecer, queridos, jamais se desentendam com seus profissionais de beleza. Reservem a estes nobres trabalhadores todo o amor, a amizade, a disposição e o calor humano possíveis. Respeite-os, considere-os, mostre que sentiu saudades. E nunca, nunca descarte seus serviços sem uma explicação (minimamente convincente) prévia.
Minha ex-manicure era uma boa moça. Profissional razoável, honesta, limpinha, conversadeira. Mas meu coração tomou outro rumo e eu traí. Sim, amigos, abandonei nossa relação tão estável e parti para os braços (ou o alicate) de outra manicure. Estamos juntas, eu e minha amante das unhas, até hoje, mas...
A ex(manicure), por sua vez, quando percebeu que as garrinhas afiadas aqui estavam sendo cuidadas por outra lixa, armou-se do mais alto desprezo. A moça simplesmente passou a me ignorar. E dá-lhe nariz torcido e cara feia, quando eventualmente nos encontrávamos na mesma calçada. Mágoa.
Ainda tentei contornar a situação e confesso que fui canalha e cara-de-pau o suficiente para procurá-la mais uma vez, meio que forçando uma reconciliação. Foi inútil e penoso: raivosa, a mocinha tirou-me um bife.

Dia desses, na balada, chacoalhava as madeixas pra lá e pra cá quando meus olhinhos hipermétropes reconhecem, ao longe, meu querido ex-cabeleireiro, um excelente profissional que deixei de procurar apenas por mudança de endereço.
Corri para o abraço, saltitante e já devidamente embalada por algumas batidinhas do capeta, gritando "Elijahhhh!!!!" (fictício). Ele me afasta com as pontinhas dos dedos e faz cara de "a gente se conhece?". Eu ainda me esforcei: "Rapaz, há quanto tempo! Ué, não lembra mais de mim?".
E ele: "Não". Saiu, dando-me as costas sem mais delongas.
Ex profissionais de beleza podem ser cruéis desafetos.

27.7.09

Foot Spa e o ralador de cenoura


Quis o destino, este irônico contumaz, que a escritorinha aqui fosse parar, por alguns (e bons) anos, na residência de sua mais ilustre consanguínea, Madame Louise. Vivendo e aprendendo, caros amigos, e só assim mesmo para descobrirmos coisas fascinantes a respeito da vida, da morte e de tudo o que há neste meio. Foi com Madame que aprendi a dar as ordens exatas à empregada para que esta não lavasse minhas roupas de baixo e meus vestidos de noite a seco, para que ela (a empregada) não perdesse o ponto do suflê de salmão e para que não confundisse o Chardonnay com o Merlot, na hora do jantar. Foi com Madame que também aprendi a ser econômica (entre um sovina e um perdulário, case com o primeiro e seja a amante do segundo, recomendava-me); prendada (é só saber os endereços certos: da boa costureira, da quituteira de mão cheia, da faxineira eficiente); e caprichosa com minhas próprias vontades (Quer comprar aquela roupa? Compre! Mulher tem que andar bem arrumada, sempre. E ponha um brinco maior!, recomendava-me).
Nesta busca incessante pela beleza, fui presenteada com os mais valiosos conselhos, que me fizeram detentora das chaves dos portões do frescor e da juventude eternos (hehehe, vide post anterior, para notar a controvérsia). E se Mada
me nada num mar sem fim de dinheiro, sabe muito bem como preservar sua fortuna pessoal usando e abusando de recursos caseiros para manter-se sempre enxuta e gostosa pra caralho. "Quando o shampoo estiver no finalzinho, mistura com água. Rende e faz bastante espuma. Com o perfume também dá pra fazer isso. Se o baton estiver acabando, cutuca o resto com um cotonete, dá pra passar mais um monte de vezes. Com o esmalte, é só jogar um tantinho de acetona dentro que ele vira novo". Sabedoria, caros, não tem preço.
Num belo dia, levo um namorado para jantar nas
luxuosas dependências de Madame. Querendo mostrar meu lado mulherzinha-dona do lar, empunho o aventalzinho e, colher de madeira a postos, assumo o fogão. Para acompanhar a pasta que preparava com tanto carinho, decidi fazer uma requintada salada, e lá vai procurar um ralador para desfiar a cenoura.
Após o delicioso rega-bofe, o namorado segue até a pérgula da piscina de Madame desfrutar de um bom Marlboro quando se depara com uma c
ena memorável: Madame friccionava, com muito vigor, seus delicados calcanhares nada mais nada menos com o RALADOR da minha cenoura, nesta hora já devidamente degustada. O bofe achou estranho, mas preferimos não comentar o incidente. Como já disse, receitas caseiras para preservar a beleza feminina são o ponto forte de Madame Louise, e quem somos nós para discutir.

...

Muito tempo se passou e a escritorinha aqui tornou-se uma mulher de posses (hahahaha, agora vem a ficção). Zapeando pelo mundo mágico da TV, deparo-me com o anúncio do Foot Spa Ultimate, "mais uma exclusividade Polishop".
Foot Spa é a maravilha do mundo moderno. Uma verdadeira pedicure em casa, ao alcance de qualquer mãozinha inexperiente no manejo de lixas e alicates. Foot Spa, uma banheirinha para os pés, oferece "cinco sessões de relaxamento, pedra pome especial, limpa e massageia, alivia tensões, oferece bolhas relaxantes (???) e é considerado um pedicuro inteligente", olha que coisa linda de Deus.
Com a carteira recheada das mais verdinhas,
mando ver o aparelhinho requintado e presenteio minha querida tia e mentora, que se alegra com o regalo, deixando os pezinhos de molho quase que imediatamente. Vou-me embora feliz, na certeza de ter satisfeito mais um capricho da sofisticada Madame.
Uma semana depois, em visita surpresa, flagro Madame a lixar os pés vorazmente com, ora, vejam só, o ralador de cenoura. Alguns hábitos são simplesmente impossíveis de serem abandonados. Vai um parmesão aí?



Panela velha

Não é fácil retomar a prática na arte da paquera. Também não é moleza para jovens senhôuras recentemente solteiras encontrar perfis minimamente encaixáveis no modelito “futuro marido”. Aí dá-se início a uma série de erros: demos ouvidos a amigos, seguimos conselhos duvidosos ao pé da letra, aceitamos até um blind date com o primo solteirão daquele casal de conhecidos, cujo apelido é Milium e cuja ficha policial é mais extensa do que seu curriculum vitae.
Cinara bem que tentou ignorar o assédio virtual. Solteira, mas digna, jamais adicionava perfis de desconhecidos no Orkut e desprezava solenemente convites para o messenger vindo de estranhos. Dia desses e ela simplesmente dispensou o próprio chefe por conta de seu endereço de email duvidoso - com asteriscos, underlines e letras repetidas. Um amigo - tão solteirão quanto a própria - xingou: "Qual é o grande problema de adicionar alguém no msn? Se não gostar da conversa, é só bloquear", aconselhou o sábio.
Em princípio a moça não levou o papo a sério, mas aquela dúvida corroeu seu coraçãozinho: e se eu dispenso o cara que poderia vir a ser minha alma gêmea virtual? É de se pensar...
Até que surgiu um convite: rafaelsobrenomecertinhosemmiguxês@hotmail. É a minha deixa, pensou a moça, adicionando o rapaz à sua lista de contatos.
No sábado, o mocinho dá o ar da graça: "Oi, gatinha? Vc tc de onde?". Ela já não gostou de tanta abreviação. Mas continuou firme: SC. Rafael falava da Bahia. Do interior da Bahia. Beeeem interior. Céus, como este Brasil é pequeno.
Papo vai, papo vem e nossa heroína já havia descartado o baianinho como seu futuro namorado quando resolve perguntar a idade - é, foi ela quem começou. "21", conta o menino, candidamente. A balzaca ri, e decidi ser honesta quando é questionada. "30", diz.
Foi quando veio o primeiro banho de água fria: "Não dá nada. Eu gosto mesmo é das coroas", o guri teve a audácia. Coroas. COROAS. Co-ro-as.
A enfurecida mulher de 30 sobe nas tamancas, mas resolve manter a classe e a elegância que lhe são marca registrada: "Coroooooa? Nossa, você pegou pesado". E ele fecha a conversa com chave de ouro: "Panela velha é que faz comida boa. Me adiciona no Orkut, GATINHA".
Depois de correr pro banheiro dar aquela vomitada, e bloquear o inconveniente com força, nossa pequena deusa do amor foi retocar o creme antirrugas.

16.7.09

Alice e a solidão eterna

O fato é que nesta vida ninguém quer ser sozinho - pelo menos não a vida inteira. As pessoas querem se apaixonar, querem ser amadas, querem romance, flores, cineminha, sexo a qualquer hora do dia. Os mais afoitos exigem aliança, véu, grinalda, bolo com os noivinhos on top. Os mais sossegados querem companhia, alguém para enxugar os pratos e rir junto assistindo a uma maratona de Scrubs. Os ardentes querem, pelo menos, o "homem da manutenção" (ou a mulher, depende do caso), para aquelas horas em que a solidão parece tão avassaladora. Os tradicionais querem perpetuar a espécie e povoar o mundo com seus pequenos clones.
Mas Alice não teve nada disso. Nada. Alice nunca foi beijada. Alice nunca deu uns malhos, tirou um sarro, desceu na boquinha da garrafa, nunca sequer pegou na mão de algum jovem mancebo.
O tempo foi passando e os irmãos de Alice foram se acasalando e reproduzindo, deixando a pobre solteirona para o caritó, cercada de sobrinhos fofinhos e sorridentes. Mas ela não aceitou tão facilmente esta condição. A solidão tornou-a amarga, anti-social, e aos poucos ela foi se afastando do mundinho familiar que a cercava.
Aos 80 e tantos anos, Alice foi encontrada morta, em sua residência, onde morava, é claro, sozinha - apesar das tentativas dos irmãos de contratar uma governanta, a velha senhora, sempre ríspida e cruel, tratava de espantar toda e qualquer candidata ao cargo de acompanhante. Nem um gato, sequer um cachorro havia para alertar a vizinhança ou mesmo devorar seus restos mortais.
Com o evento do passamento de Alice, a enorme família reuniu-se, irmãos, primos e sobrinhos vindos de todos os recantos catarinenses. Mais do que uma despedida, o velório tornou-se uma festa. Reencontros, zilhões de fofocas postas em dia, telefones e endereços trocados para futuras visitas. Na missa, o clima era de Carnaval. Risadas descontroladas, histórias divertidas sendo relatadas nos mínimos detalhes, segredos outrora inconfessáveis sendo agora postos às claras. Alegria, alegria.
Todos rumavam abraçados para fora da igreja, alguns combinando um café na casa mais próxima, quando o padre, também ele contente por reencontrar velhos conhecidos, lembra de um detalhe: "Acho que estamos esquecendo de algo".
Era o caixão, que jazia, solitário, no altar. No enterro, nenhuma lágrima foi derramada.

14.7.09

Cinderela e as CGs assassinas

A moça não andava com sorte, ultimamente. Há pouco menos de um ano havia sido arremessada do veículo de seu motoboy favorito, voando sobre um carro e esborrachando em plena beira-mar (é, Charlotte, tem motoboy na história, mas hoje o conto não é sobre a senhorita, sorry). Na semana passada a globeleza mais manezinha ever, integrante da Unidos da Coloninha ("Nasci na comunidadji", conta, orgulhosa), rumava célere para o trabalho quando, ao atravessar uma movimentadíssima Gama D'Eça, do alto de seus saltinhos berinjela, foi colhida, já na calçada, por uma outra motocicleta (como diria Davis, "o que que o pobre passa?"). É, poderia ser um dos importados que invadiram a querida Ilha da Magia, mas os incidentes de Rubinha têm paixão por CGs turbinadas.

O voo foi longo e doloroso. "Quase batsi de cabeça na quina da eshcada", relatava, detalhista ao extremo. Curiosos foram se aproximando e a vítima ainda conseguia ouvir, esticadinha na calçada, como estava, comentários do tipo: "Ah, só pode ter morrido". Não morreu não, que seu santo é bombado. Foi carregada ao hospital e, meia hora depois, rumou novamente (e um tanto mais cuidadosa) ao trabalho, que Rúbia não faz corpo mole jamás.

O fato é que só após o atendimento a moça percebeu que havia perdido um de seus lindos sapatinhos berinjela. Catou uma havaiana qualquer e não se deu por vencida, mas no dia seguinte foi lá bater na frente da crime scene fuçando sarjetas e lixeiras. Perguntou ao porteiro: "Alguém por aí viu um sapatsinho?". Não, ninguém havia visto.

O par desamparado ficou pendurado em sua bancada de trabalho, triunfante, prova cabal de sua resistência às vicissitudes da vida. Quinze dias se passaram e a morenaça mais alisada de Imaruí (hahaha) ainda alimentava uma chaminha de esperança em seu belo coraçãozinho, sonhando em encontrar o calçado desaparecido. Não deu outra: seguindo, sempre no mesmo horário, para cumprir com suas obrigações trabalhistas, foi avidamente chamada pelo porteiro (nesta hora, já amigaço íntimo): "Ei, moça! Moça! Tu não ésh a moça atropelada pela moto? Então, achamos teu sapatinho!!!".

Ipi, ipi, urras de felicidade, abracinhos e lágrimas furtivas. O berinjela afivelado repousava, calmamente, sobre uma árvore. Sabe lá Deus como chegou lá em cima.

27.6.09

Black or White

O melancólico fim do Rei do Pop deixou seus milhares de admiradores com aquele gosto amargo na boca e a sensação de um trabalho não finalizado da maneira como deveria ter sido.
Minha frustração infantil foi nunca ter conseguido fazer o moonwalk - nem nada parecido às acrobacias e contorcionismos deliciosos do astro.
Michael Jackson foi, para mim, aquilo de mais próximo a um ídolo alguém pode ser para uma pessoa. Eu, que não tenho ídolo algum. Durante muitos anos meu momento especial da semana acontecia aos domingos, quando não "existia" TV a cabo e quando o Fantástico era a melhor opção da televisão brasileira (faz tempo, hein? Agora perde até para o A Fazenda).
Porque existiam os clipes do Michael, anunciados à exaustão sob o título de "exclusivo". Eu simplesmente AMAVA estas ocasiões, a família reunida babando com aquele dançarino fantástico de voz tão potente e aguda, com hits que grudavam na cabeça e te faziam cantarolar por horas a fio.
Até que anunciaram um clipe considerado espetacular em matéria de efeitos especiais - vindo de MJ, devia ser verdade. Era Black or White. Pirei. Dei plantão na frente da TV durante todo o domingo, ansiosíssima. Quando o apresentador (seria a Glória Maria?) finalmente anuncia a atração... BUM! Ficamos sem energia elétrica no bairro todo. Pude ouvir, acima do meu próprio uivo de lamento, o "ahhhhhhhhhh" de tristeza vindo dos lares vizinhos. Chorei. Chorei e amaldiçoei a Celesc pela mancada (sabe-se lá o que tinha acontecido, pobre Celesc).
Coisa de 20 minutos depois, volta a energia e eu grudei na telinha na vã esperança de que o clipe ainda estivesse passando. Mamã já foi cortando o barato: "Imagina, não foi nenhum blackout nacional, o mundo continuou funcionando enquanto estávamos no escuro". Nó na garganta.
Perambulei pela sala, desacorçoada, esperando o boa-noite dos apresentadores para finalmente ir dormir. "Amanhã na escola só vão falar disso e só eu que não assisti!".
Até Glória Maria anunciar, de supetão: "Recebemos um grande número de ligações de telespectadores pedindo para exibirmos o clipe do Michael Jackson mais uma vez. Vamos a ele!".
E o programa encerrou com a carinha de MJ, já branquíssimo, transformando-se em uma mulher morena, que se transformava em um homem loiro, que se transformava em um negro, uma ruiva, uma asiática, todas as raças, todos os rostos. Neste noite eu fui muito feliz.

Diploma, talento, conhecimento

Desde que o Supremo Tribunal Federal derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, tenho acompanhado as mais indignadas manifestações, por parte de meus colegas de profissão - hoje, infelizmente, existentes em número muito maior. Felizes ou infelizes, satisfeitos ou desapontados, com ou sem o canudo, agora tão dispensável, o fato é que nós, jornalistas, temos que agora garimpar em um mercado de trabalho subitamente muito mais restrito (dado o aumento da oferta de mão de obra).
Muita calma, no entanto. Como disse Antônio Tabet, do site Kibe Loco, em visita a Shark city, onde palestrou para universitários, "talento muitos podem ter (ou achar que têm). Mas conhecimento, só quem vai em busca dele". Ânimo, portanto. Temos um diferencial, senhoras e senhores, não o subestimem.
Se você quisesse reformar sua casa - mas desejasse um serviço realmente decente - chamaria a quem? Um arquiteto ou um pedreiro?
Tabet arriscou ser freneticamente vaiado ao dizer concordar com a determinação do STF - afinal de contas, o homem falava para uma plateia de estudantes de Jornalismo, que certamente não está exatamente feliz por pagar uma fortuna mensal por um fruto que já nem vale mais estas coisas, hoje.
Ele lembrou que a obrigatoriedade do diploma foi mais uma das autoritárias imposições da Ditadura Militar, como forma de calar, de censurar, de controlar a informação. Mas, ora bolas, se hoje existe alguma espécie de órgão repressor e cerceador da liberdade de imprensa, este se chama "anunciante". E esta censura não há diploma (ou a falta dele) que possa combater. Infelizmente, diplomado ou não, o jornalista hoje aceita e se resigna às leis do mercado.
E mesmo surgindo de uma determinação tirana e parcial, ainda assim a necessidade do diploma tem sido muito útil à sociedade - não se pode desconsiderar os benefícios que um curso superior nesta área te oferece.
Há que se ter talento? Sim. Mas também há que se ter conhecimento. Quer expressar sua opinião sem seguir as instruções repassadas nos bancos universitários? Abra um blog. Problema resolvido.
Agora só nos resta torcer para que a Proposta de Emenda Constitucional que restabeleceria o diploma como condição indispensável para o exercício da minha profissão não seja só conversa fiada.

21.6.09

Love is in the supermarket

Para as que não acreditam na chegada de um príncipe montado num cavalo branco - e para as que já passaram pela fase mais baladeira da vida - a busca por um par ideal é uma árdua tarefa (principalmente se voce já passou dos... cofcof... 25 anos). Mas nem pensar em desanimar, não é mesmo, minha gente? Até porque a procura é uma das partes mais emocionantes em uma relação (not!). Numa rápida ida ao supermercado, dia desses, lembrei-me dos sábios conselhos da Cosmopolitan (contém ironia). A revista-da-mulher-solteira-mais-desesperada-ever costuma trazer dicas das mais curiosas para apimentar a monótona vida das panelas sem tampa e dos sapatos velhos sem pés cansados (mmmm, deu um nojinho, agora). Uma das dicas mais hypadas incentivava as muiézinhas a tomar o rumo do angeloni mais próximo fazer comprinhas com segundas intenções. Porque, de acordo com a publicação, um supermercado, dependendo do horário, pode ser um puta de um lugar pra azaração comer solta, entre chuchus, abobrinhas e desinfetantes. Háhá.
Mui bien. Eu, bem instaladinha aqui nesta Shark city do meu coração, onde a regular single life termina obrigatoriamente aos 25, aventurei-me, dia desses, fim de tarde de domingo, ao super da esquina. E voilá! Acho que descobri a fórmula do amor! Sim, meninas e meninos de coração desocupado, existe muita sedução por entre as gôndolas. Prova disso foi o alemãozinho de olhar maroto que me abordou enquanto eu escolhia um pacote de macarrão. "Você deixou cair isso?", sacudindo um pacotinho de Vono. Não, eu respondi.
Sem falar do galantíssimo Clark Kent que pediu socorro à Lois Lane aqui para decifrar qual marca de detergente multiuso sua mamã estava se referindo. Leva o Veja, recomendei.
E o moreninho belzebu, cheio da ginga, que puxou papo lamentando pelo desaparecimento do quiosque do Mioshi. Pena, não é mesmo?, arrematei.
Sim senhores. Em meia horinha de compras, três abordagens das mais interessantes, todos sozinhos (ainda que não necessariamente solteiros, who knows?) e bastante compenetrados na arte do flerte.
Aí o problema foi comigo mesma. Desacostumada com esta vida de guerreira reprodutora, fiquei absurdamente inibida e sem graça. É, eu praticamente fui embora correndo do super, deixando o pacote de macarrão e o molho de tomate. Mas calma, tudo tem seu tempo. Eu hei de me readaptar a esta vida de romance.
Dica importante: quando partir para uma sessão de compras "in love", nada de pôr mercadorias como pacote super size de papel higiênico ou sabonete líquido íntimo canforado no carrinho, olho vivo. Bota um batonzinho nesta boca e se joga.

13.6.09

Isto é homem ou mulher?

Aquela noite foi precedida de muita expectativa. Há mais de uma semana planejávamos adentrar aquele ambiente abalando as estruturas. Afinal de contas, baladas gay não acontecem em Shark city todos os fins de semana. E é fato: mulheres hetero, solteiras e desencanadas, like me, amam uma boa baladinha gls pra desestressar.
Trouxe o amigo de Floripa, cheio das (más) intenções, alguns integrantes do bonde compraram roupas novas, foi uma sensação. E, finalmente, após duas espumantes finíssimas e generosas doses de gim com sprite (hahaha, old school), embarcamos para a balada do ano. O-ow...
Cerca de 50 adolescentes gays afetadérrimos sacaroteavam e batiam cabelo pelo salão, ao som de um djzinho bem do meia-boca, incapaz de tocar qualquer coisa de Lady Gaga. Deception... mas nosso pesadelo não parava por aí.
De repente uma criaturinha, gênero não definido, de 1,40m, babylook justérrima ressaltando seu corpinho de tronco de palmeira anã, laranja fósforo queima-retina, abraça seu partner, de 1,90m, pela cintura - com as pernoquinhas curtas - e começam a girar loucamente pelo salão.
Um jovem rapaz exibia a musculatura flácida dos bracinhos a bordo de uma regatinha preta bem cavada - temperatura da náite: 5,5 graus. Outro investiu no look xadrez: jaquetinha bege xadrez escocês, calça marrom xadrez príncipe-de-gales. Doia no coração.
Muitos abusavam dos já datados acessórios lenço palestino e chapéu fedora. Às sapatinhas, restaram os all-stars e os jeans paga-cofrinho. Todas idênticas.
Até que surge o momento auge da noite: um tresloucado invade o ambiente, faceiríssimo, gritando a plenos pulmões: "Fiz sexo no banheiro! Fiz sexo no banheiro!". Time to go home.
É claro que todos têm o direito de se expressar da maneira que bem entender, mas achei meio triste o fato de as bichinhas sharkcityanas recusarem terminantemente descolar da imagem estereotipada que os não simpatizantes fazem dos gays. Sei lá, não tinha exceção.
A pergunta que mais se ouviu ao longa da sofrida balada foi: "Isto é homem ou mulher?". Juro, era difícil identificar.

25.5.09

Casamento grego

Minha família tem algumas particularidades notáveis. No entanto, a praticidade para encarar alguns temas cavernosos é o que mais se ressalta. Aquele projeto não sai do papel? Descarte-o e inicie outro. Chateado com o emprego atual? Saia agora mesmo distribuindo currículos (essa é procê, Lô). Cansou do visual? Passe máquina zero. Não gosta da cidade onde vive? Afivele as malas que já estou chamando o caminhão do frete. Descasou? Ora, ora, case-se novamente! AGORA! 
Eu bem que gostaria de ficar no meu cantinho, sossegada e inexplicavelmente feliz com minha recente solteirice (inexplicável pros outros, não pra mim, mas ninguém me acredita...). Mas há a família. Ahhhh, esta família... promete não me dar folga enquanto eu não surgir, radiante, de aliança dourada no anular. 
Para ela (a família), não há felicidade fora dos laços sagrados do matrimônio. Mas meu problema não é exatamente este. Elas (as familiares) podem sim alimentar sonhos e devaneios envolvendo a minha pessoa, um altar, véu, grinalda, um belo noivo e uma gestação tranquila e bem-sucedida dois meses depois. Claaaro que podem. O problema é quando tentam pôr estes projetos em prática. 
Aí que minha formosa mommy surge para uma de suas hoje tão frequentes visitinhas com uma proposta "irrecusável": divorciado, um filho pequenno, engenheiro, "trabalhador" (destaque para trabalhador) e cheio de amor pra dar. Argh. 
Ela e minha adorável tia Madame Louise simplesmente não aceitam "não" como resposta. Eu devo justificar. Mas não o faço, porque não terminaria em menos de 12 horas consecutivas de violento parlatório. Aí dá-se o impasse. 
Quem já assistiu ao divertido "Casamento Grego" deve saber bem o que eu estou passando. Para desencalhar a solteirona, a família promovia um verdadeiro desfile de aberrações pela mesa do jantar, para ver se a moça se animava. É, se no fim da história eu encontrar um sujeitinho minimamente parecido com o galã do filme, dou-me por satisfeita.  
Solteiros, viúvos e divorciados da paróquia, corram! Vocês já estão sendo devidamente sondados. Bom, pelo menos por enquanto consegui driblar o engenheiro. Minha progenitora teve que admitir que ele combina mais com minha irmã...  

19.5.09

Mendicância

Era uma terça-feira de outono, de um longíquo ano de 1996, e eu me encontrava confortavelmente sentada em uma das janelas do edifício Portinari, na residência que me abrigou no primeiro ano de vida universitária, em Florianópolis. Esperava minhas adoráveis roomates para, juntas, assistirmos a novelinha das sete na nossa big TV de plasma (contém múltiplas ironias, como podem perceber). 
De repente, batem à porta. Dona G., hoje uma linda e jovem mamãe, chegava na companhia de dois desconhecidos, abraçados a uma garrafa do importadíssimo "Sanguê du Boá" e de uma colorida e apetitosa embalagem de Doritos "sabor pizza", que, evidentemente, tornou-se nossa janta da noite (universitários não têm lá grandes preocupações com índices nutricionais). Naquele momento entravam em nossas já animadas vidinhas Giu e Clarissa. 
Apresentações feitas, decidimos abrir o vinho, que foi delicadamente apreciado em nossas taças de cristal da marca Vigor (ou Parmalat, se não me falha a memória). Como éramos seis - destes, cinco mulheres afogueadíssimas e loucas para sair da rotina - a bebida não obteve sobrevida muito longa. Partimos para o Sanguê du Boá que repousava em nossa adega, este também rapidamente consumido. Aí surgiu a dúvida: o que beberemos daqui pra frente, que a noite é longa? 
Recolhidas moedas de todos os recantos e bolsos, partimos eu e Giu para o super-Amigo ao lado do prédio, na Esteves Júnior. Lá dentro, o perhaps. Possuíamos o suficiente para três garrafas e 3/4. Faltava-nos alguns meros centavos para trazermos, triunfantes, a quarta garrafinha do precioso líquido importado de Bento Gonçalves. 
Conversa vai, conversa vem, de repente, um "senhor" (hoje imagino que o homem deveria ter menos de 40, mas para meninas de 18 incompletos...) nos interrompe e, apressado, despeja moedinhas suficientes para o "troco de bala". 
Não chegamos a pedir, mas certamente nossas conversas já alteradas no corredor e nossas mãozinhas estendidas, contando moedas, inspiraram o generoso homem a fazer sua contribuição ao alcoolismo juvenil. Saímos faceiros como andarilhos que ganham o suficiente para mais um trago de Velho Barreiro. 
Os vinhos foram consumidos como encontrados nas prateleiras do super - temperatura ambiente - e aí você calcula uns 20, 22 graus. Ganhamos a noite. 
Não vou nem relatar o momento em que Giu, incentivado pelas meninas, surgiu montado com a mini-mini-minissaia de Janete. E nem quando, semi-inconscientes, rumamos para o bar mais ilhéu da Ilha (hein?). Nunca uma esmolinha foi tão bem aproveitada... 

12.5.09

TPM, esta maldita (ou Carefree é frescor)

Dores por todo o corpo, enxaqueca, humor canino, irritabilidade, nervos à flor da pele, choro incontido. Não é fácil ser mulher, senhores, definitivamente. M. contou-me que no fim de semana chorou de soluçar e arrumou briga com o noivo, "este santo homem", só porque deu vontade. "TPM, nega", confidenciou-me. Eu já havia adivinhado. Charlotte, aquela diaba, já bateu boca com o caixa do supermercado (sempre ele), xingou um mendigo folgado na rua, chutou cachorro para em seguida cair em prantos abraçada ao pobre animal, não foi a festas, pediu dispensa do trabalho, tudo por conta dela, o terror de 85 entre 100 mulheres (chute baixo), a Tensão Pré Menstrual. 
A medicina não confirma, mas é muito provável que mulheres saltitem à beira do abismo da loucura crônica durante estes intermináveis dias. Basta um escorregãozinho, facilitado pelo salto 15, para se atirar de vez no universo da insanidade total. "Na TPM, sou bipolar", ouvi por aí, dia desses. 
Tem gente que exagera. Ou porque sofre de menstruação desregulada ou porque simplesmente usa a TPM como justificativa para suas pequenas loucurinhas do dia-a-dia (desconfio seriamente disso). Tem também as que morrem de medo dos maléficos efeitos desta tensão maldita que vivem de absorvente e à base de Ponstan praticamente o mês inteiro. 
Caso dela, a vítima number one desta praga feminina: Charlotte, a morenaça belzebu. Dia desses combinamos uma sessão mesa de bar básica para pormos assuntos em dia. De repente lá vem ela, afobada, seca para agarrar seu copo de cerveja, já previamente servido (que ela não gosta de esperar nem de pedir). 
A paranóia menstrual, no entanto, vinha estampada na cara - ou melhor, no bolso. Do bolsinho do casaqueto preto de cashmere da fina brotava um pacotinho branco bastante suspeito. Ela fala, cumprimenta, beija, confraterniza, bebe, parabeniza pela passagem do meu aniversário, e o pacotinho lá, praticamente saltando na nossa cara. Não resisto: "Um modess", declaro, pescando-o com a pontinha dos dedos. "Ai, guria, tô na TPM. Tá pra vir. Encerra este assunto", exige ela, pedindo que eu esconda o carefree providencial na minha bolsa. 

3.5.09

É o fim (ou Como recompor um coração partido)

E depois de (quanto?) cinco longos anos, acabou. Acabou assim, relativamente fácil, relativamente rápido, quase que indolor. Sem discussão, gritos, pranto incontido, sem desespero. Porque finalmente concordamos que já não era possível continuar juntos; porque o amor transformou-se em qualquer outra coisa entre a amizade e o bem-querer; porque já passava da hora de trilharmos caminhos diferentes. 
Restei eu neste apartamento - agora tão grande - e não pude reprimir uma lágrima furtiva quando vi que sua escova de dentes já não repousava mais no armário do banheiro. 
Foram muitas as histórias, muitos os "momentos mágicos", quando pensávamos que não podíamos ser mais felizes, muitos os planos, risadas, carinho, companheirismo, troca de confidências, jantares, cafés da manhã, briguinhas, brigonas, enfim, tudo aquilo que faz com que casais enamorados sejam pessoas tão especiais - e que simplesmente desaparece quanto acaba o sentimento. 
Eu agora estou profundamente triste. Triste porque meus planos fracassaram, porque não consegui fazer funcionar. Mas passa - e devo ressaltar minha poderosa capacidade de recuperação. Eu hei de me reerguer. 
Ainda ontem quis ouvir música e dancei freneticamente, sozinha, por horas a fio, na minha sala de estar - inconscientemente, já tentando afastar meus demônios e espantar uma tristeza pesada que já vinha se estabelecendo muito antes do fim propriamente dito. 
Eu queria chorar, mas estou muito frustrada para isso. Ironicamente, amanhã "comemoro" mais um aniversário. Sozinha, após cinco bons anos. E antes de me acabar em melancolia, recorro ao mantra mágico "Vai passar, vai passar, vai passar..."

26.4.09

Uma biografia

É fato: mulheres adoram testes. Até aqueles publicados em revistas femininas, de profundidade digna de uma poça de lama, como "Você é uma boa namorada?" ou "Você é ciumenta?" ou "Ele é seu príncipe encantado?". Desde meus doces tempos de revista Capricho que dedico alguns minutos de meus turbulentos dias (haha) para completar testes de múltipla escolha e ler resultados (muitas vezes medíocres) que teoricamente definiriam a minha personalidade (como se eu mesma não pudesse fazer isso).
Mas encontrei, no blog da Renata, um daqueles testes porretas que nos deliciam por nos mostrar exatamente o que queríamos ouvir (ou ler). A trívia indica, após algumas perguntinhas, qual livro nacional você seria. Este foi o meu resultado:

Você é... "Carmen – Uma biografia", de Ruy Castro



Boa história é com você mesmo. Adora ouvir, contar, recontar. As de pessoas interessantes e revolucionárias são as suas preferidas. Tem gente que liga para você só para saber das últimas fofocas. E confesse: com seu jeitinho manso e detalhista, você dá aos fatos um sabor todo especial. Além disso, não se contenta em reproduzir o que já foi dito. Por isso, se fosse um livro, você só poderia ser uma boa biografia, daquelas que faz os leitores deitarem na rede do fim de semana e se entregarem às peripécias de uma grande personagem. Aliás, você já pensou na profissão de repórter? Ou de escritor? "Carmen – Uma Biografia" (2005), sobre Carmen Miranda, é uma das aclamadas biografias publicadas por Ruy Castro, também jornalista e tradutor, considerado um dos maiores biógrafos brasileiros.

Eu adorei. Quer fazer o teste? Clique aqui.

13.4.09

Papanicolau

Final de tarde de uma belíssima quarta-feira ensolarada e decido descer, cruzar a rua e buscar alguns quitutes da padaria. Súbito, entre a pequena multidãozinha que locupleta as calçadas de Shark city na hora do rush (na minha rua são duas escolas, ou três, sei lá, além do portentoso comércio que é marca registrada por estas plagas), uma vozinha se sobressai, dirigindo-se à minha pessoa. "Ei, Cintia!", chamou-me.
Olhamos eu mais quinze passantes, não que se chamassem Cintia, mas pela mera curiosidade inerente ao nosso cotidiano de província. A dona da voz, uma simpática senhora, continua: "Teu nome é Cintia, né?". Eu confirmo, num menear tímido de cabeça. Os expectadores já eram em maior número. Ela acrescentou: "Marquei teu preventivo, tá? Terça-feira, ali no postinho!". E para deixar bem claro, frisou: "Teu PREVENTIVO, lembra que tu pediu para eu marcar?".
Percebi um ou outro risinho sarcástico, "háhá, tá coçando a bacurinha, é?", que, dignamente, tentei ignorar. A senhora em questão é minha mui querida agente de saúde, para quem não sabe integrante deste fabuloso grupo de trabalhadoras do serviço público brasileiro que batem de porta em porta pregando práticas para uma vida saudável e incentivando o povaréu a procurar atendimento médico, quando necessário. Ocasionalmente recebo sua visita para um checkup rápido: tudo certinho? Menstruação ok? Grávida? Alguma doença? Felizmente, até então tudo tem estado na mais perfeita ordem. Percebi, no entanto, certo desapontamento quando revelei possuir plano de saúde. "Mas quando precisares, já sabes, é só agendar comigo", insistia a senhora.
Na ocasião da última visita, tonta devido ao soninho da tarde, impulsivamente aceitei visitar seu QG para um examezinho básico - mesmo tendo passado menos de seis meses de minha última visita ao gineco, o material aqui está zeradíssimo, by the way. Com fortes tendências hipocondríacas, no entanto, cedi aos apelos: "Ok, pode marcar". E esqueci imediatamente do compromisso.
O resto vocês já sabem. E como se não bastasse meu constrangimento público, a querida agente de saúde ainda conclui com esta: "Tem sentido alguma ardência, alguma coceira?". Céus.

9.4.09

Sushi, teu nome é tomate seco

E com esta flexibilidade de horários que Deus me deu estava zapeando a TV por volta das quatro da tarde quando me deparo com o programa A Tarde É Sua. Mais tarde vim a descobrir que a hostess é a Sônia Abrão, daí tu tiras.

Era uma "reportagem". A repórti (vergonha alheia mode ON) entrevistava os convidados para a "festa de inauguração da nova cobertura de Cléber Bambam". Há. A mulher tagarelava com uma criatura para mim totalmente desconhecida. Bom, TODOS na festa eram desconhecidos e faziam fila para serem entrevistados. O entrevistado da vez era de uma dupla sertaneja. Mais tarde vim a descobrir que era ou o Bruno ou o Marrone, juro por Deus que até conheço "Dormi na Praça", mas nunca tinha tido a grata oportunidade de olhar naquelas carinhas. O cara contou que curte Big Brother e que se emocionava com os participantes. "Chorei muito na final", segredou.

Entre os desconhecidos, célebres desconhecidos, como a assistente de palco da Gimezes, something Limonge; Carlão (ex-BBB, hahaha, horas pra lembrar de onde eu conhecia aquele careca marrento) e mais uns dois que me lembraram alguém - é, o programa dá tanta importância pra este segmento profissional (celebridades do B) que acredita piamente serem todos suficientemente populares para não merecerem legenda.

No "buffet", quilos de sushi. Desfaleci. Porque há coisa de cinco, dez anos, sushi ainda era considerado hype. Aí chegou aos ouvidos (e às papilas gustativas) da plebe rude e virou a nova coxinha. Sushi é a rúcula com tomate seco dos anos 90. Lembram? Tudo o que continha "tomate seco" era tido como sofisticado. É o strogonoffe com batata palha dos 80, o melão com presunto dos 70. Porque vou te contar: depois que Cleber Bambam dá festcheenha oferecendo buffet de sushi, meu amor, nem mesmo se o Mioshi se oferecesse pra me alimentar de graça... (mentira)

QI - Triste do povo que tem como referencial de "inteligência" alguém como Priscila do Big Brother. Como assim, Bial, Priscila é inteligente? Não é porque a boa-moça-de-família é mais "vivida" (ou, como diria minha mãe, curtida) que pode ser assim, facinho, classificada como criatura intelectualmente privilegiada. É, mas foi o que ouvi do povo por aí - e de apresentadores de TV também - nas últimas semanas.

7.4.09

O cliente sempre tem razão

A moça, aquela brunette esfuziante, já entrou no supermercAdo de sua preferência chutando o balde - afinal de contas, ela é a responsável pelo pagamento de pelo menos um funcionário, tamanho seu fluxo de compras no estabelecimento.
Resolveu não ser boazinha desta vez. Rumou convicta em direção aos ovos de Páscoa e, lá, descobriu que, na compra de dois, o cliente ganharia uma linda necessaire com o logo da marca, Menino.
Mas dois ovos daquele tamanho (vintão) não caberiam em seu orçamento. "A demonstradora era uma imbecil", sentenciou. "Não sei como selecionam alguém assim, no mundo já não há mais lugar para incompetentes".
Consumidora voraz dos produtos Menino, não se convenceu, no entanto, com a proposta. "DOOOOOIS ovos número 20? Era só o que faltava! A vida toda comprei chocolate desta marca, eu tenho direitos. A necessaire É MINHA!". Foi aí que deu-se início o furdunço.
A demonstradora, já impaciente, resmunga qualquer coisa ininteligível e vira as costas com a chegada de uma colega, representante da marca L, concorrentes na teoria, boas amigas de corredor, na prática. "Ignorou-me sobremaneira. Senti-me um lixo. E o pior: a moça da marca L já chegou dizendo pra reservar uma necessaire pra ela. A MINHA NECESSAIRE! Protestei".
Introduzindo seu corpo esguio (só Charlotte, a morenaça belzebu, pode se dar ao luxo de se entupir de chocolates sem acrescentar grama alguma à cinturita de pilão) entre as funcionárias, que já papeavam animadamente. A paulistana tresloucada gritou: "Como é que é? E eu?".
Enquanto a concorrente dava no pé, assustada, a Menino's girl tratava de desfazer o mal entendido.
Comprando uma única barrinha de Talento, das pequenas, Charlotte saiu do supermercAdo sobraçando sua tão cobiçada necessaire. "A idiota ainda sugeriu que eu escondesse o trequinho do segurança, para não pegar mal. Ah, faça-me o favor! Não tô roubando...".

31.3.09

Espelho, espelho meu...

Na última semana tosei a cabeleira, que estava longuésima, até pouco abaixo dos ombros. Teimosia pura (o modelo é recorrente, quando eu RESOLVO cortar o cabelo), já que este corte exige certa habilidade no manejo da escova, para que as pontinhas fiquem voltadas para fora, exibidas. A moça aqui, no entanto, que até se esforça para aperfeiçoar suas habilidades domésticas, é um zero a esquerda quando se trata de auto-cuidado pessoal. Não sei escovar, não tenho chapinha, não faço as unhas nem em caso de emergência e não sei lidar com a pinça - Claudinho é quem me salva todos os meses para que a borboleta aqui não vire taturana.
Já disse em outras ocasiões que nasci para ser rica - o que, unfortunatelly, não aconteceu (mas bóra tentando...). Porque para ficar minimamente apresentável preciso da assessoria integral de cabeleireiras, manicures, maquiadoras, fazedores de sobrança, sou uma completa incapaz (sei passar perfume, vale?).
Todo este enorme preâmbulo para ressaltar a que ponto vai a vaidade de algumas mulheres (mulheres comuns, não vamos fazer referência às biônicas que moram em clínicas de estética, aka Angela Bismarchi). Claaaaro que é legal estar sempre bonitinha, na adolescência eu acordava um tantinho mais cedo para acertar no "book" (para os não iniciados, topete preso com passadeirinha, moda nos 90's). Mas certas coisas beiram o ridículo: 7h30 da manhã de uma terça-feira, um calor tropico-infernal, e, no banheiro do shopping que acomoda minha academia e um colégio, duas adolescentes deslizavam cuidadosamente a chapinha pelos cabelos (mal) pintados de vermelho - e cada uma com a sua prancha de estimação, não tem esta de repartir não.
Pior que isso só a moreninha de 38 quilos da academia (já falei dela, está cada vez mais magra), que, antes de suar a bacurinha em bicas pedalando a ergométrica e saltitando no jump, alisa os vários cachinhos um por um com a chapinha que carrega permanentemente na mochila.


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Ontem lavei os cabelos e fui dormir com eles molhados. Deu uma pregui de pegar no secador...

25.3.09

De melissa a crocs

Nasci e fui criada numa cidade onde diversidade de estilos nunca foi marca registrada. Meninos podiam ser mauricinhos - babylook (sim, na minha época babylook não era patrimônio gay) e calças de sarja coloridas, do amarelinho canário ao vermelho cardeal.

Ou podiam ser "largadões" - ostentando o maldito triunvirato boné, bermudão-quase-calça e correntes no pescoço. Sendo que, com o passar dos anos, estes adereços foram ganhando peso. Bonés ganharam o capuz do moleton por cima. Calças e bermudas, bolsos e passamanarias suficientes para deixarem meio rabo do sujeito à mostra. Correntes de pescoço passaram a ser adquiridas nas docas.

Meninas variavam ainda menos. Havia as patricinhas e as patricinhas wannabe. As primeiras, poucas, usavam roupinhas transadas e caras das boutiques de Shark. As outras contentavam-se em imitar as riquinhas comprando peças similares nos outlets de BR que abundam na região.

O básico: camisetinha (barriga à mostra), mini jeans e mega plataformas. É assim até hoje, mas as saias perderam terreno para o famigerado legging.

Eu me achava de vanguarda (hahahaha). Eu e Lô, que não me deixa mentir. Guiadas pela bíblia das teenagers dos anos 90, a revista Capricho, cismamos de ressuscitar a sandália Melissa. E fomos encontrá-la, aquele modelinho retrô, baixinha, em um único lugar da cidade, o Mercadão Público - devo observar que o mercado público de Shark não é semelhante a tantos MP existentes no país, cheios de vida, música, chopp gelado e peixinho frito. Ah, nem queira saber...

O look era o "máximo": jeans, camisetinha branca comprada em loja de criança (tinha que ser pequena) e a Melissa - muitas vezes usada com meia - nos pés.

É foda morar na roça. Olhares horrorizados nos devastavam por onde andássemos. Mas, seis meses depois (ou um ano?), todas as meninas haviam adotado as sandalinhas de plástico - ainda que muitas delas na versão "tropicaliente", com um saltão medonho de juta falsa.



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Hoje devo admitir que, de maneira geral, o povo de Shark e adjacências já manda muito melhor no figurino. O que a globalização não faz, não é mesmo, minha gente? Arriscam mais, brincam mais, coordenam peças com mais ousadia e, com frequência, acabam acertando.

É que hoje, além das "patricinhas" (termo em desuso, mas não achei substituto), dos "playboyzinhos", dos riponguinhos e dos pagode stylers (help!), temos que conviver com os (pseudo) emos. Pseudo porque certamente nenhum deles conhece ou segue a "causa" emo - se é que emos têm causa (hahahahahah, morri!) a não ser usar franjão e lápis no olho e parecer melancólico (é lógico que ser "emo" é a desculpa adolescente para sair do armário, mas não vem ao caso).

Aí que, dia desses, circulando pela cosmopolita Marcolino Cabral, cruzo com uma criatura ímpar. Franjão, lapisinho no olho (mas bem de leve, era dia), camiseta com estampa descolada, jeans e, nos pés, crocs. Laranjas. O proprietário do look era um menino, deixo claro. Na hora tive ímpetos de me atirar ao chão e rolar de rir, ninguém merece croc. Muito menos laranja. Mas depois lembrei-me de mim e Lô aos 16, exibindo, nos pés, o que meio mundo deveria considerar "esquisitos trecos de plástico". Aí fiquei comovida com o esforço fashion do moçoilo - é bem possível que daqui a alguns meses surja uma horda de teens batendo crocs coloridas pelas calçadas de nossa big city.

Eu comprei uma destas pra minha sobrinha. Branca, da Hello Kitty. A menina tem sete anos, mas já acha meio cafona.

23.3.09

Tópicos típicos

  • Eu definitivamente prefiro o inverno. Principalmente se alojada neste Sul catarina do meu coração (hohoho). Porque o Sol é massa, calorzinho é gostoso, verão é bonito de se ver, mas nada mais civilizado do que um termômetro indicando menos de 18 graus.
    Porque temos as roupas bonitas. E os cachecóis. As botas. E tem as comfort foods. Né?, porque, fala sério, salada é saudável, sorvete é tudo, mas uma sopinha fervilhando num dia frio de trincar os ossos é muito reconfortante. E vinho.
  • O que é você sustentar bem uma montação, não é mesmo? Assistindo a episódios de Sex and the City no Fox Life, sempre me surpreendo com Carrie Bradshaw. Sempre. Porque ela carrega dignidade de qualquer jeito, seja usando um tubinho preto de jersey ou um trapo furado e esfarrapado. Mesmo que este trapo esfarrapado for Roberto Cavalli. A roupa era tão feia, a Sarah Jessica Parker é o cão chupando manga, mas, ah, reles mortais... o conjunto da obra é sempre fantástico. Estilo: ou você tem ou você não tem. Seja com Roberto Cavalli esfarrapado ou com regatinha de R$ 9,99 da Renner.
  • Preferia ter lido algo a respeito de Watchmen antes de assistir sua versão para o cinema - até porque viajei horrores nos primeiro 30 minutos. Aí depois foi esquentando - principalmente quando Dr. Manhattan aparecia como veio ao mundo - só que azulzinho. Sim, taradas (os) de plantão, Watchmen tem nu frontal masculino! Ainda não é o suficiente para conduzi-lo ao cinema? Ok, é um bom filme de ação (bons efeitos, mocinhos vilões, zzzz...).
  • Você sabe que tem tudo para recuperar aqueles quilos que custosamente perdeu quando já se enche da academia na primeira semana... Anyway, não quero nada de Páscoa mesmo... nada comível, deixo claro. Um sapato luxo com salto de cone invertido iria bem...
  • A velhice chega para todos, não há como escapar. Mas para Shannon Doherty ela foi mais cruel. Vide a velha e boa (?) Brenda Walsh, na nova versão de Beverly Hills 90201. Com direito a queixo duplo e tudo.
  • E que venha o inverno. Que eu tô louca pra usar meu casaqueto vermelho.
  • Eu já contei que quase me afoguei no rafting? (dããããã...)

18.3.09

Miguelito, o anti-arcanjo

Ele já chegou causando. Nem havia pisado na empresa e já provocava polêmica. Foi só dar uma olhadela básica no currículo extraordinário do moço para um funcionário mais esperto já apontar: picareta. Mas os chefes preferiram não concordar com o pré-conceito. E contrataram a polêmica criatura. Por mais de um ano, Pablo Miguelito "La Garantía Soy Yo" Herrera divertiu seus colegas de trabalho com as mais bizarras situações.
Para ele não havia tempo ruim. Qualquer terça-feira era boa para reunir a galera em suas luxuosas dependências, onde oferecia cerveja gelada, uísque importado, paella, tacos, guacamole e doses generosas dos produtos colombianos "tipo exportação". A vida era uma bela e colorida festa.
No Carnaval, marcou época em Shark city ao desfilar abraçado a sete vampiras traficantes lésbicas. Na campanha eleitoral, encheu a burra de money, money, money vendendo a alma a Deus, ao diabo, anjos, santos, íncubos, súcubos e quem mais se interessasse. Mas não votou: seu título é de Pedro Juan Caballero.
Virou figurinha fácil em lojas de móveis e eletrodomésticos, redecorando seu flat com o típico bom gosto paraguajo. LCD de 49 polegas, sofás de couro, chaise de camurça fina, tapetes, cortinas, esculturas. Obras de arte das mais variadas, luxo e ostentação.
Aos que o visitavam em suas dependências, tudo. Filés de linguado, camarões gigantes na manteiga, lagosta ao termidor, prosecco geladíssimo. E entre garfadas de risoto de açafrão e golinhos de vinho, estalava a linguinha marota e exibia fotos de sua intimidade com a adorável esposa. "Numa delas a bichinha abocanhava até o talo. Depois tentaram dizer que era um brinquedinho de borracha, mas, ah, meu bem, de pau eu entendo", revela D., testemunha das orgias gastro-sexuais de Miguelito.
Se com a esposa o sexo parecia tão ardente, sem ela o panorama era de filme pornô. Bastava a bichinha ir embora visitar familiares distantes e era aquele desfile de criaturas-que-fazem-da-calçada-local-de-trabalho.
Os vizinhos, na (vã) tentativa de preservar a moral e os bons costumes, pediam para que ele não posasse tão ostensivamente, nu, balagandãs à mostra, apalpando coxas, bundas e peitos, em frente à janela com vista para o playground, às 11 da manhã. Para sua fúria, que jamais permitiu ser cerceado em suas vontades.
Só muito tempo depois foi que perceberam o rombo. Tentaram interceptá-lo, mas não houve tempo hábil. Háhá, amadores...
No meio da madrugada Miguelito evaporou com todos os seus recém-adquiridos pertences não-pagos. E dívidas, muitas. No rent-a-car, na Fatia de Baguete, lanchonete de Shark, na rotisserie, na locadora, na padaria, imobiliária... enfim, ainda gastou a última gota de sua lábia invejável para levar, na faixa, um equipamento fotográfico de última geração.
Pânico em Shark city.
A polícia foi acionada, autoridades comunicadas, mas já era tarde. Na parede do apartamento vazio, um recado desaforado dirigido a todos os seus "desafetos" - e escrito com o conteúdo da uma fralda bem cheia da filha mais nova...

10.3.09

Little black underpant

Quem trabalha ou já trabalhou em uma redação (de jornal, de TV, rádio, blog, portal de notícias, whatever) sabe o quanto pode ser divertido e proveitoso lidar com agências e assessorias de imprensa diversas. Primeiro porque, obviamente, estes profissionais podem realmente te quebrar os maiores galhões ever nos conturbados horários de fechamento.
Segundo - e aí reside a magia - porque eventualmente você recebe pérolas como esta abaixo, que me foi enviada por um povo amigo que trabalha na portentosa press sharkcitiana.

Uma agência (do Rio) enviou, como sugestão de pauta, um pacote onde relaciona o hit "Você não vale nada (?????)" com uma personagem da novela O Clon... ops, Caminho das Índias. Coitadinha da Dira Paes, que figura como protagonista no meio dessa cafonice... Sente o drama (as observações em itálico, entre parênteses, não vieram no release, evidentemente):

Melô da boa: Forró 'Você Não Vale Nada', tema de personagem de Dira Paes, é o maior sucesso da novela 'Caminho das Índias'!!! (as exclamações são luxo e alegoria)
'Você não vale nada mas eu gosto de você!' Toda vez que Norminha (Dira Paes) aparece em 'Caminho das Índias', o forró cantado pela banda Calcinha Preta (yep!) marca os olhares e o requebrado da fogosa mulher do guarda Abel (Anderson Muller). Nem a exótica abertura da novela de Glória Perez faz tanto sucesso com o público. É um sucesso entre as mulheres.
A Agência XXX oferece esta matéria especial composta por texto e imagens, no valor de: R$ 120,00 (caí pra trás: não é que eles COBRAM por isso?).
Mas o mais impressionante ficou pro final. Junto do release, algumas fotinhos como "aperitivo" (tipo, o ovo colorido que antecede o banquete de coxinha com molho farrapo). Além da imagem de Dira Paes e do marido "guarda" (hahahahah, guarda...), três criaturas que se denominam os integrantes do Calcinha Preta. Vamos a elas?
Essa é a basiquinha da turma. Peitinho murcho, mas com dignidade, macacãozinho fiiiino de risca-de-giz e cintão branco adornando a cinturita de pilão. Gamei na franjinha estrategicamente cobrindo meia testa. E o relógio?

...
Nem sei o que dizer. Tipo, sei lá, meio que virou tendência o cara se bandear pro seu salão de beleza (ou instituto, ou coiffeur) predileto e pedir pela escova progressiva amiga. Mas esse aí passou do padrão Charlotte Belzebu e exagerou no formol. Exagerou pesado. E isso que devemos considerar sua descendência tupi-guarani, que mesmo sem chapinha já lhe garantiria fios ultra-lisos. Pra que tanto?


Heheheh... mas isso é Brasil, meu povo! Olha o piRci no umbiguinho! Olha o macacãozinho sedutoramente aberto até o púbis! Olha o franjão! Ela deve frequentar o mesmo saloon onde seu colega de banda faz a progressiva.
Não é uma delícia abrir seu email DO TRABALHO e se deparar com uma pérola destas? É o que eu digo, jornalistas são os que mais se divertem...

Fio-terra

Bom demais para ser verdade... após meses de paz e tranquilidade sem a presença do meliante pós-adolescente que reside logo embaixo de meu flat, eis que a criatura volta mostrando a que veio. Relembrando: o menino e a mãe viviam às turras, brigas violentas every day. Até que o filhote chutou o balde e bandeou-se, mala e cuia, para casa de papá, em terras gaúchas. Para desespero de sua mãe e minha alegria, que já não aguentava tantos berros, uivos e gemidos. Aliás, os gemidos continuaram, em outra escala, dada a profissão de minha cara vizinha...
Pois bem, volta o menino e, desta vez, acompanhado por uma garota, a namorada. Aí que, noite de sábado, a mãe provavelmente "trabalhando duro" no Little Castle, e o rala-e-rola dos mais calientes pôde ser ouvido em minhas dependências. Dos mais calientes vírgula, porque sexo adolescente - ainda que pós-adolescente - me soa tão aflito, angustiado, tão ejaculação precoce que eu relembrei porque é bom ser adulta e se relacionar com seres adultos.
Aí foram aqueles ruídos sôfregos, nervosos, grunhidos de ambas as partes, uma coisa gutural. E os tapas... Ah, minha gente, era schlep daqui, schlep dali, uma espancação hard core. Fiquei alerta pensando que o bruto estaria machucando a pobre menininha, mas, qual!, de repente escuto a voz dele, abafada, implorando para que ela pegasse mais leve: "Devagar aí!", dizia o garoto, pedindo água. A menina gargalhava, perversazinha.
Uns dez minutos de esfregação e gozo depois, e o silêncio. Pensei que minha experiência sexual auditiva tinha chego ao fim quando escuto o menino pedindo mais. Ela recusa, regateia, faz beicinho. Aí o guri fecha com chave de ouro: "Se tu não queres mais, então tira o dedo do meu cu!".

Humpf... já não se fazem adolescentes românticos como antigamente...